Igual a todos nós


Pedro Correia,

Edvard_Munch_-_Golgotha_(1900)[1].jpg

 Gólgota, de Edvard Munch (1900)

 

É a frase mais dramática de toda a Bíblia. A frase que Cristo profere na cruz, quando todas as forças já lhe falecem no corpo em chaga, e brada aos céus com o último alento que lhe resta:

Eloí, Eloí, Lama sabachtami?

Este episódio da Paixão, que vem mencionado nos Evangelhos de Mateus (27,46) e Marcos (15,34), sempre me impressionou. Porque nos revela, mais que nenhum outro, a face humana de Jesus – as dúvidas, as angústias, a profunda inquietação existencial de um Jesus terreno, despido da sua condição divina, igual a todos nós. Na dor, no sofrimento, no desamparo.

Este brado simboliza o desespero de múltiplas gerações de homens solitários clamando em momentos de aflição por um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica. É um grito lancinante que ecoa desde os confins dos tempos e se ramifica a todos os espaços onde chega a voz humana:

Meu Deus, Meu Deus, Porque Me abandonaste?

22 comentários em “Igual a todos nós”

  1. Ao ler o texto do Pedro, que mimetiza mais do que traduz ou pretende explicar, ocorreu-me que possivelmente a maneira de falar dos padres (aquele jargão que deriva da velha e desinteressante versão beirã da Bíblia, cheia de reverência pastosa e hoje quase incómoda) tem sido a principal responsável pelo afastamento das pessoas de problemas existenciais ou estéticos que são, de facto, centrais na vida das pessoas mesmo que retirados de um contexto de ritual ou de fé.

    1. Essa imagem obsoleta está a ser largamente superada por novas gerações de padres, caro V. Como é bem visível em diversas missas de Lisboa, por exemplo no Campo Grande ou na Praça de Londres: costumam encher-se para escutar os melhores sacerdotes, com homilias sempre inspiradas e adequadas ao auditório. Mas não só na capital: também noutras cidades do País.

      1. Sim, admito que sim. Como indiquei foi o seu comentário desempoeirado que me recordou algumas impressões que tive quando li alguns Evangelhos (ou tentei ler) — nomeadamente de que o tom geral da versão portuguesa me pareceu repleto de construções de frases desagradáveis. É uma apreciação meramente estilística. Já agora aproveito para lembrar o conto de Borges que re-escreve o Evangelho de S. Marcos (está n’O Relatório de Brodie). Um conto notável.

        1. Agradeço-lhe as suas palavras. E agradeço-lhe muito ter-me reencaminhado para esse conto de Borges, de que tanto gosto e que há tantos anos não releio. Hei-de revisitá-lo ainda hoje.

  2. À beira da morte talvez sejamos todos um pouco desesperados. Ao contrário do que se afirma, a morte quase nunca agarra a sua presa e ela desliza pacífica. O desligar, mesmo em gente assaz calma, é por vezes violento. Como se a humanidade, chegada à solidão mais completa, não se conforme com a desistência absoluta.
    Concordo, é o lado humano de Cristo que grita e se queixa.

  3. Sendo uma citação do Salmo 21, não deixa de ser a expressão da forma como Cristo assume, na cruz, a condição humana. O comentário está muito bem. Boa Páscoa a todos os frequentadores do DO, seja qual for o significado que ela tem para cada um.

  4. É um apelo desesperado de ajuda, de compaixão, extremamente tocante, que sempre me comove e … assusta. A mim, que não obstante a face mais negra do mundo real, me esforço em perseguir a Luz!!

    Boa Páscoa, Pedro! E a todos os Delituosos de “boa humanidade” !!

  5. E no entanto, no meio daquele sofrimento atroz, ainda perdoou os seus carrascos e o ladrão que, também na cruz, Lhe pediu que apenas se lembrasse dele. E tudo se consumou, como também escreveu S. João Evangelista.

  6. Neste dia, em cada ano e ano após ano, procuro este texto ou algo como ele.
    Emociono-me sempre, não sei dizer se cada vez mais.
    É um grito lancinante, de desespero, que todos nós temos em alguma altura da vida.
    É o lado humano, sem dúvida, a dor, a solidão, o sofrimento, a desistência total.
    É a melhor evocação do significado da Páscoa, o melhor texto que alguma vez poderei ler sobre ela.
    Boa Páscoa, Pedro!

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