Ignorando o populismo da coisa, sempre é uma evolução


escafandro,
Antes quase não se discutiam decisões governamentais de centenas de milhões de euros com impacto ao longo de décadas. Agora discutem-se ferozmente alugueres operacionais de viaturas de oitenta e seis mil euros. Proclama-se que deviam ser anulados. Apesar de resultarem de contratos assinados pelo anterior governo, culpa-se o actual. O Ministro (que se enreda ao procurar explicar-se; note-se como Zorrinho preserva o orgulhoso silêncio que tão bem resulta por cá) devia demitir-se ou, no mínimo, voltar a andar de scooter (não está claro se poderia manter o motorista mas provavelmente Mota Soares preferiria guiar a ter de seguir abraçado a ele). Fazendo voo rasante sobre o pormenor de que, a começarmos a anular contratos, a posição correcta deste seria a uns dois quarteirões do início da fila (ah, os das PPP e os do sector energético e outros igualmente insignificantes…), percebe-se a comoção: uma coisa é investimento, ainda que direccionado para empresas amigas e catastrófico para as contas públicas; outra coisa são luxos. E oitenta e seis mil euros acaba por ser um valor muito mais ao alcance da compreensão da maioria das pessoas.

 

4 comentários em “Ignorando o populismo da coisa, sempre é uma evolução”

  1. Neste assunto, eu acho que se está a dar demasiado valor aos 86 mil euros do carro. Até porque não se pagou 86 mil euros, mas antes o valor do renting mensal, que não sei quanto é.
    Além disso, convenhamos, é um ministro. Um carro de um ministro deve, à partida, ser bastante espaçoso, porque suponho (e se calhar estou a ser ingénuo) que um ministro quando viaja está de portátil em cima dos joelhos. e papeis espalhados por todo o lado. Até acho estranho que os ministros não andem de limousine blindada de um lado para o outro. Se o fizessem, eu não teria problemas com isso, e até acharia relativamente “normal”.

  2. A questão é exactamente essa, JAA. A opinião pública é muito mais sensível e influenciada por um pequeno caso como o do carro do ministro (que nem por isso deixa de ter a importância que tem, note-se) do que pelos ruinosos negócios contratados com os ‘amigos’ durante as próximas décadas que, a serem cumpridos, nos levarão à completa ruína.
    Enquanto o primeiro caso é algo que está ao alcance da interpretação do homem da rua, podendo assim ser por ele ‘sancionado’, o segundo já ultrapassa em muito aqueles limites. Melhor ou pior, todos entendemos mais ou menos o que é um carro de 86 mil euros. Porém, julgo que apenas uma ínfima parte da população entenderá o que são e significam verdadeiramente para o nosso futuro os negócios das PPP, a privatização de certas áreas de negócio vitais para a nossa economia e outras artimanhas, já instaladas ou previstas para um futuro próximo. Estas matérias exigem, além de alguma formação, algum estudo e maturidade que, como sabemos, a opinião pública portuguesa não tem nem parece interessada em vir a ter, pelo menos para já

    1. Nem mais. E talvez existam mais dois pormenores: a nossa propensão para acreditar que obras são sempre uma coisa boa (que português não quer uma auto-estrada a menos de dez quilómetros da porta de casa?) e a nossa relação com o automóvel enquanto símbolo de dinheiro e de poder: excelente quando o podemos ter, irritante quando são os outros a tê-lo, mesmo que em cargos onde um automóvel minimamente institucional (farto-me de rir quando leio que os Ministros deviam usar carros de vinte mil euros – Clios, portanto) é compreensível. Isto não significa que concorde com o Audi de 86 mil euros – mas nem tanto ao mar nem tanto à terra.

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