Este vídeo está a correr mundo. Uma menina de dois anos foi atropelada na cidade de Fuzhou, no sul da China. Passaram 18 pessoas por ela — todas indiferentes ao pequeno corpo inanimado, ali a poucos metros. O alerta acabou por ser dado apenas sete minutos depois por uma empregada de limpeza de 58 anos, chamada Chen Xianmei: a menina foi enfim conduzida ao hospital, já em coma.
As câmaras de vigilância registaram tudo. É uma perfeita imagem do mundo actual: a mais olímpica indiferença colectiva perante o sofrimento alheio. Talvez por isso, a atitude de Chen Xianmei foi recebida com surpresa geral e as autoridades da província de Guangdong, onde se situa Fuzhou, anunciaram já que lhe será atribuído um prémio pecuniário equivalente a três mil dólares. A humilde empregada de limpeza, perplexa, limitou-se a afirmar que cumpriu o seu dever.
Ao contrário do que sucede nos filmes, esta foi uma história sem final feliz. A menina, Wang Yue, acabou por morrer no hospital.

Descobri o vídeo ontem no Arrastão, num texto do Daniel Oliveira e até escevi algumas palavras, a quente. Mas hoje, já a frio, continuo revoltado e a pensar na pobre criança. “Horror” é muito pouco para tamanha barbárie, para tanta irracionalidade. E nós é que, supostamente, somos os animais racionais…
Abraço.
Diz bem, Ricardo: horror é pouco para tamanha barbárie. E tamanha indiferença perante o sofrimento alheio – neste caso o de uma criança indefesa.
Abraço.
Absolutamente atroz.
É nestas alturas que sinto nojo da minha condição e da dos meus semelhantes.
Qualquer pessoa bem formada só pode sentir isso, Sérgio.
Vidé “O cowboy da meia-noite”, anos 70. Uma das cenas que mais me marcou no cinema. Eu, alentejano habituado a um relacionamento de pessoas totalmente diferente, fiquei estarrecido naquela cena em que a personagem brilhantemente desempenhada por Jon Voight, ao vagabundear pela avenidas de por Nova York, tropeça num corpo. Provinciano,como eu, tenta ajudar, mas de repente repara que só ele tem essa intenção, mais ninguém ligou ao corpo ali caído, a azáfama de Nova York não permite tal. Receoso pelo que lhe possa acontecer, pela diferença de comportamento, abandona o local numa correria louca.
A solidão das grandes multidões. Foi o que aconteceu também na China.
Toca num ponto que nos deve fazer reflectir: a solidão das grandes multidões. Que despersonaliza e animaliza o ser humano.
Caro Pedro:
Não creio que seja propriamente “uma perfeita imagem do mundo actual”, mas antes “uma perfeita imagem do China actual”: um país onde a vida humana se já pouco valor tinha, hoje nenhum tem — um país onde só conta o dinheiro fácil, rápido, ganho a qualquer preço; onde só a sobrevivência pessoal de cada um, a cada dia que passa, conta como norma “moral”; um país que cada vez mais faz juz a essa horrenda constatação de facto de que nada há de mais genuinamente humano que uma certa desumanidade.
Caro Luís: basta sabermos que a China tem cerca de 20% da população mundial para a extrapolação ser possível. Mas eu, ao contrário de si, julgo que não é só na China que sucedem cenas dramáticas como esta. Infelizmente.
Nojo absoluto. Fica-se em choque.
(Haveria mais a dizer mas não agora, com a bílis na boca. Talvez mais tarde.)
É isso, JAA: ficamos em estado de choque ao ver isto. E o choque perdura, não se dissipa com facilidade.
Que horror!
Selva humana é isto.
O grau zero da humanidade. Depois disto já não há mais nada. Sem mais palavras.
A China, dizem, está a “civilizar-se”. Se isto é civilização, não consigo imaginar o que seja a barbárie.
Das cenas mais chocantes que já vi na vida. E algo que seria impossível ocorrer aqui. Podemos ter muitos defeitos, mas estamos a léguas “disto”, que nem sei como hei-de chamar. Que gente horrorosa!
Indiferença total perante o sofrimento alheio, indiferença total perante esse valor supremo que é a vida.
Uma das pessoas que se afastam traz uma criança pequena pela mão. A barbárie também se ensina. Assim, pelo exemplo. Horrível.
É isso, Ivone. Horrível.