Hoje é dia do Nobel da Literatura


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O blaseísmo, a atitude taralhouca que reviveu em Lisboa com a tralha do “Independente” dos anos 80s e nunca mais de lá desacampou, adora (si-la-bar, sff, para adequar o tom) desmerecer o prémio (pois quase tudo lhe é incomodativo, tirando o que é “bem” – neste caso se o prémio for para Roth, ainda que este não tenha culpa dos tontos). O Prémio Nobel é um prémio, só isso, mas o maior dos literários, uma honra e um turbo para adquirir leitores. Bom, bom, era cair para o maior dos escritores em português, António Lobo Antunes.

 

Ando a reler este “As Naus”, vinte e cinco depois de o ter lido. Não é o seu melhor livro. É um belo livro. E o homem um gigante. Daqui a um bocado lá se saberá.

15 comentários em “Hoje é dia do Nobel da Literatura”

  1. Que mal lhe pergunte que já ’tou perguntando:

    Gostaria que o Nobel fosse atribuído a um (a) escritor de língua portuguesa que escreva segundo o novo acordo ortográfico?

    1. a) preâmbulo: gostaria que o Nobel fosse atribuído a um escritor de língua portuguesa não em absoluto, mas sim, a alguns [Lobo Antunes, claro; e Nassar, se os prémios não fossem (também) ao quilo]. A língua neste caso não me parece o fundamental, ainda que torça por um que escreve em português e de quem eu gosto muito.
      b) claro que sim, que raio de pergunta. Passa cada coisa na cabeça das pessoas …

      1. Realmente passa-nos cada coisa pela tola…A mim passou-me.

        A pergunta que quis fazer: – “De preferência que não escreva segundo o novo acordo ….!” Faltou o preferência?
        Acho que a pergunta ´não é descabeçada, porque a grande maioria dos autores do DO são anti-acordo… daí o preferência.

        Desculpe a cabeçada…
        E que o premio seja atribuído a ALAntunes.

        1. A um que “de preferência não escreva segundo o (des)AO 90?”. Com toda a certeza. Mas o que depreendi na sua (incompleta) pergunta era uma cesura (mais uma) numa já de si demasiado fragmentada sociedade. Afinal foi só ao correr das teclas. Sim, “estamos juntos” nesta oposição ao AO90

          E que para o ano que ALA ganhe o Nobel. E vá sendo lido

    2. Não me perguntou a mim mas respondo-lhe: um grande escritor nunca poderia usar o chamado acordo ortográfico. Um grande escritor escreve “verdade”.
      Por isso, talvez usasse a “novilingua” como metáfora de um país onde a degradação atingiu o demencial e um gesto totalitário negociado com um país distante, intelectualmente miserável, com milhões de analfabetos e famintos é apresentado como um átrio de uma nova ordem universal.
      Sim, era possível: um romance amargo, no limite do suportável, convivente com o abjecto, o corrupto, a mentira, a inversão de valores apresentada como a norma.

      1. Irritando-me eu (e imenso) com a tralha acordista em nada concordo. “Verdade” explícita na convenção gráfica? Francamente, não são esses os argumentos válidos.

        Quanto a preferências sobre escritores devido a uma qualquer “verdade” (ou verdades) que eles botem, ainda pior. Dou como exemplo, já que portugueses somos, a quantidade de escritores que botam, nos livros ou na vida, a incompreensível crendice em seres inexistentes, espiritismos populares, que influenciam a vida destes pobres humanos (os próprios escritores e não só), literatos que se arrastam de consultório/capela em consultório/capela, coleccionam artesanato dito sacro, caminham para vilas onde apareceram as mães virgens dos espíritos, etc e tal. Recuso-me a desconsiderar-lhes a literatura por acreditarem em tais “verdades” (como triplas aspas). Vou desconsiderar a de um outro qualquer porque adoptou a nova grafia que o Estado quer disseminar? Há limites – e, honestamente, com furibundismos destes até me apetece escrever um bocado de acordismo …

        1. Há uma diferença entre o convencional e o arbitrário. A perspectiva é uma convenção pictórica, o que não quer dizer que possa ser modificada, tal como a ortografia, para Portugal melhor participar numa nova ordem mundial – como asseverava o ministro ribeiro.

          Mais chamente podia estar-me a referir a algo como o que se segue e que transcrevo com algums gosto, por manter o tom de mofo que acompanha o “acordo ortográfico” no seu oitocentismo. Diz béchara – esse mesmo, e com minúscula, (devido à evolução da língua): “Uma voz autorizada de um dos melhores do século XIX– Gaston Paris – podemos ler no lúcido prefácio que escreveu para a “Grammaire raisonnée de la langue française”, de Léon Clédat, saída em 1894 (citamos pela 5ª ed.de 1896), em que declara que os escritores não são bons conselheiros de um sistema ortográfico, porque têm com as palavras uma relação muito especial de artesanato literário, isto é, do aspecto cultural de que nos fala Pessoa.”
          Deixo-o a meditar com lúcido prefácio, na 5ª edição de 1896. Com système e tudo, como se escrevia então em francês. E escreve.

          1. Só lhe posso agradecer o(s) comentário(s) que são parte fundamental disto do bloguismo-conversa, como gosto. Mas neste particular aspecto acho que desconversamos um pouco, ou seja, ainda não nos entendemos (ou melhor dizendo, não me terei eu feito entender). Pois só por isso me terá deixado este pedaço para que eu “medite”: nem defendo o AO90 (e fartei-me de blogar sobre isso), nem defendo que a ortografia seja arbitrária (ainda que sobre esse assunto reclame o estatuto de leigo, e não suba para o estrado antes de falar, mas sigo quem assim pensa), nem defendo que os escritores sejam vozes particularmente legítimas sobre esta questão [e lembro-me de blogar meio irritado meio desiludido quando vi um “Prós e Contras” (esse mau programa televisivo) sobre o AO90 em que Graça Moura e Alzira Seixo (que bem escrevem contra o AO90 mas não tão bem falam contra isso) insistiam nos prejuízos literários e nas vozes literárias sobre a questão].

            Sobre a questão que aqui foi levantada já o disse: parece-me abusivo seccionar escritores legíveis e “gostáveis” devido à grafia que adoptam, e mais ainda porque exponencia uma fractura num país onde muito se protesta e rasga em moldes dicotómicos e muito menos em termos compreensivos (e ainda para mais numa conversa que começou por um comentário-questão que ficou incompleto, como o comentador posteriormente referiu); e ainda, relativamente ao que somou a esta questão, que sendo arbitrariedade (ortográfica) bem diferente de convenção (ortográfica) isso não implica que esta última seja “verdade”. É uma opção. Legítima ou não. Com a qual posso concordar ou não. E a qual pode ser abandonada ou transformada, se os critérios que a isso levam forem ajuizados. O que, neste caso, me parece inexistir.

      2. Mas o que interessa o nosso AO aos senhores suecos e noruegueses? Eles apenas leem traduções dos autores portugueses e não fazem a mais pequena ideia do que seja o AO!

        Nos anos 90, houve um AO na língua alemã, com muitos protestos e indignações (alguns, mantêm-se até hoje, mais de quinze anos passados). O Inocêncio ouviu falar disso? Não, pois não? E incomoda-o que a palavra alemã “Schiffahrt” se tenha passado a escrever “Schifffahrt”? ´Tá a ver? Seria assim que os responsáveis do Nobel se sentiriam, se o Inocêncio lhes fosse explicar o nosso AO.

  2. O maior escritor português chama-se Agustina Bessa Luís.

    Faço-lhe a pergunta habitual: lembra-se de alguma personagem do Antunes?

    1. Será, na sua opinião, e na de vários outros leitores, estou certo. E não a vou contestar, acho-a muito legítima. Nisto da literatura não sou profissional (e mesmo se o fosse), não passo do “achar”. Boto o meu gosto e não vou em campeonatos, cada um tem o(s) seu(s) mundo(s) e os seus gostos.

      Personagens de Lobo Antunes? Para além do normativo sobre o que é a literatura que essa (recorrente, como também refere) pergunta encerra – e do qual eu discordo – há uma personagem que me vem logo à cabeça: Salazar. Acho que chega para resposta.

        1. Depreendo que não gosta mesmo de Lobo Antunes, o que me parece perfeitamente aceitável. Não percebo exactamente o sentido deste seu comentário mas não o contesto. Apenas considero que mesmo aceitando o seu comentário (pelo que dele depreendo) isso em nada invalida o que referi acima. Perguntou-me se me lembrava de uma personagem de Lobo Antunes e eu, entre outras, lembro-me de Salazar. Que o real escritor e indivíduo tenha sido “inventado” pelo real político e indivíduo Salazar em nada se opõe a isso.

    2. Realmente só me lembro dum personagem de António Lobo Antunes (por acaso é ele próprio, ou pelo menos um outro ALA, em Conhecimento do Inferno, um jogo muito à Philip Roth ), e li-lhe cinco romances. Mas nem sequer me recordo dum só de Agustina, volvidos dois romances e um livro de contos, por mais que tente nem me consigo lembrar de como se chama a tipa que gere o quintalório lá embrenhado nos alfozes da parvónia onde o arrebol perneia … sei que a alcunha é Sibila, mas o nome de gente varreu-se-me da memória, tão interessante era ela. O único personagem que me ficou foi mesmo o Zé dos Telhado que, facto irrelevante, não foi inventado por Agustina.

      Só meia dúzia de escritores portugueses soube inventar personagens memoráveis: Camilo, Eça, Saramago, e vacilo no tocante a Aquilino Ribeiro; menção honrosa para Raul Brandão, cujo Gabiru é um personagem genial!

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