História Triste da Queda de Constantino XI (uma recapitulação)


Bandeira,

Havia em Constantinopla, hoje Istambul, uma grande estátua equestre que representava o imperador Justiniano segurando um orbe com uma das mãos e levantando a outra na direcção do Leste. Os bizantinos acreditavam que a mão tinha o poder mágico de fazer parar exércitos e que o Império não cairia enquanto a bolinha se mantivesse no seu lugar.

A verdade é que ela tombava com frequência, tanta que as pessoas evitavam passar-lhe por baixo, mas depressa voltavam a colocá-la no sítio e calceteiros disfarçavam a depressão no pavimento com bonitos mosaicos de padrões em trompe l’oeil.

 

No ano da desgraça de 1453, o otomano Maomé II fendeu as muralhas de Constantinopla, quero dizer: não ele, claro, mas os projécteis de um canhão mastodôntico inventado por um húngaro a quem os bizantinos não haviam podido pagar e que, em vista disso, se passara para o lado muçulmano. Constantino XI morreu defendendo as pedras da brecha por onde a cidade foi tomada, mas havia já quem dissesse que ele voltaria pela mão do anjo que o tirara da batalha e o levara para uma gruta sob a cidade, onde o adormecera e enfaixara da cabeça aos pés porque achava que essa era a coisa certa a fazer e estava com tempo.

 

Tal especulação não era agradável aos ouvidos do conquistador, o cujo de imediato exigiu a presença da imperial cabeça senão. Os seus homens encontraram o corpo de Constantino, que reconheceram pelas meias púrpura com pequenas águias bordadas, mas a cabeça havia sido cortada, como aliás as de praticamente todos os defensores; cada época seus costumes. Não houve remédio senão retirar do monte de cabeças ensanguentadas aquela que aos turcos pareceu melhor se adaptar à figura do imperador.

 

Mantido na ignorância de tais dificuldades, Maomé II ordenou que a cabeça fosse dependurada da mão com que a estátua de Justiniano mandava parar o Oriente. Isso mostraria aos bizantinos que as histórias sobre o regresso do seu imperador “não tinham pés, apenas cabeça”, e todos ririam muito e achariam que ele era engraçado.

 

Mas os habitantes de Constantinopla, olhando a estátua, diziam uns para os outros baixinho:

 

“Hahahaha, eu conheço o Constantino e aquela não é a cabeça dele.”

 

Isso reforçou a crença na lenda do imperador adormecido; e começaram a circular pela cidade desenhos perturbadores representando um homem enfaixado guardado por um anjo.

 

Muitos anos durou a crença. Até que, no século XIX, um navio inglês vindo do Egipto aportou à cidade carregando antiguidades várias, entre as quais uma múmia a que as autoridades turcas deram de imediato ordem de prisão, pois julgaram ver nela a figura do imperador; e acusaram os ingleses de pretenderem restaurar Constantino XI no trono do Império Romano do Oriente.

 

Então cortaram a múmia em pedaços, e hoje poucos são os que acreditam que o imperador vai regressar, pelo menos em boas condições.

 

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Nota bene: este texto é de 2008 – mas não quis deixar de recapitular nestes dias em que todos, uns mais, outros menos, recapitulam.

8 comentários em “História Triste da Queda de Constantino XI (uma recapitulação)”

  1. Constantino XI caiu, como se costuma dizer, de pé. Foi grande na derrota. Mas Maomé II era melhor comandante e estratega e por isso venceu-o. E se Constantino XI foi grande na derrota, Maomé II foi enorme na vitória e na pacificação da cidade. Erdogan tem muito a aprender com ele.
    Não ganhamos nada com estes mitos sebastianistas, mas ganharíamos em tornar a Europa grande e imperial, sem medo das palavras.

  2. Já tinha ouvido o mito do regresso de Constantino, que não teria morrido na tomada da jóia do Bósforo, mas desconhecia tudo o resto. Na Europa temos um pouco a crença nos reis que hão de voltar na altura de maior ameaça: Constantino. D. Sebastião, Venceslau da Boémia, o rei dinamarquês “oculto” nos subterrâneos de Elsinore, etc.

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