Hipocrisia


Pedro Correia,

O presidente da Câmara de Lisboa diz, repetidas vezes, que gostaria de retirar cada vez mais carros da cidade. É pura hipocrisia. Os veículos são uma fortíssima fonte de receitas da autarquia – nomeadamente através do estacionamento e das multas, por exemplo, já para não falar nos impostos indirectos que geram através dos combustíveis. 

De resto, sabendo nós como funciona a caótica rede de transportes públicos da capital, se por absurdo metade dos utentes que entram diariamente em Lisboa ao volante dos seus veículos particulares passassem a fazê-lo por transportes fluviais, rodoviários e ferroviários, o sistema entraria de imediato em colapso. Como bem sabem aqueles que, como eu, utilizam essa rede todos os dias.

9 comentários em “Hipocrisia”

  1. No início desta semana dei conta, algures, de uma reportagem sobre as empresas que se dedicam ao “serviço público” de guardar os carros de quem viaja a partir do aeroporto de Lisboa. A reportagem denunciava a aldrabice de duas empresas nesse negócio que, “vendendo” um estacionamento coberto, se limitavam a levar os carros para a Av. Gago Coutinho, ali à mão, e deixá-los aí estacionados na via pública.
    Os autores da reportagem reclamavam regulação para o exercício da actividade, no que entenderam consultar a Câmara de Lisboa, que lhe respondeu de imediato que o problema estava a ser tratado. Que tudo está resolvido porque, em 2019, os cerca de 2 quilómetros daquela avenida que ainda estão em regime de parqueamento livre irão passar para estacionamento pago. Ora aí está…

    1. Pois. Mais uma prova do que digo: é uma hipocrisia despudorada fazer o discurso anticarros enquanto se ganha rico dinheirinho à custa desses mesmos carros. E enquanto o sistema público de transportes piora a olhos vistos – designadamente a Carris, agora sob a responsabilidade do município.
      Se por hipótese académica Lisboa deixasse de receber mais de 400 mil carros diários, o sistema de transportes colapsava, o tecido económico da cidade sofria um abalo sísmico e a Câmara de Medina perdia uma das suas principais fontes de financiamento.
      Poupem-nos, portanto, a tanta demagogia.

  2. o sistema entraria de imediato em colapso

    Naturalmente que sim. Todos os sistemas (de transporte, ou seja do que fôr) estão adaptados ao número de utilizadores que têm; raros são os sistemas que têm uma grande capacidade de reserva disponível. Um sistema que tenha uma grande capacidade de reserva, sem utilização, é estupidamente caro e ineficiente.

  3. Laboram todos em erro.

    O Sr. Autarca (talvez futuro PM, quem sabe? afinal esta república já tem parido gente pior para PM – bem, talvez não exactamente “pior”) pretendeu referir as bicicletas e os burricos.

    Faltou a exegese do Sr. Comentador Marcelo, actualmente tão ocupado com o superior interesse da criança, perdão, da Nação, O Beijo, O Abraço, e o Pastel de Nata (os Três Pilares da Felicidade dos Tolos).

    Bem haja caro Pedro. Já restam poucos não situacionistas por estas bandas.

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