
Não sei porquê, este diálogo vem-me com frequência à memória. É do filme A Última Fronteira (The Westerner, 1940), de William Wyler, e parece espantosamente simples e destituído de qualquer artificio. Mas tem vários níveis de leitura, além de revelar, só por si, um dos grandes atributos dos heróis do western – indivíduos de carácter, que preferiam ser donos do silêncio em vez de serem escravos das palavras.
É, além disso, uma espécie de homenagem a Gary Cooper, uma das grandes figuras míticas do cinema, que interpreta na perfeição o forasteiro deste filme – homem que alia um perdurável amor à terra a um indomável espírito de aventura, alguém de poucas falas e vistas largas, sempre em demanda de novos horizontes.
Precisamente ao inverso dos políticos dos nossos dias.
A cena passa-se entre um juiz e Gary Cooper:
Juiz – De onde vens, forasteiro?
Gary Cooper – De nenhum sítio em particular.
Juiz – E para onde vais?
Gary Cooper – A nenhum sítio em particular.
Eram assim os heróis do Oeste. Sem raízes que os prendessem e prontos a lançar raízes em qualquer lugar. Aventureiros, na melhor expressão que podemos dar a esta palavra. Protagonistas de um tempo de pioneiros de que cada vez somos mais nostálgicos por termos a certeza de pertencerem a um mundo que já não há.

Já não há — está esgotado
Pois. Como se verifica todos os dias, um pouco por toda a parte.
Bom dia Pedro Correia.
Que continue tudo bem consigo e família.
Adorei esse filme tal como, por exemplo, o “Comboio Apitou 3 Vezes”, com a também saudosa futura princesa do Mónaco.
E, concordando, de facto vai havendo poucos. Boas recordações, e que também ajudam a ponderar a envolvente do presente. Obrigado pela recordação, merece bem uma chapelada aqui do meu “Chapéus”. Saúde.
António Cabral
Grato sou eu, caro António Cabral. Haja saúde.
A máfia mata a família rival para que não surjam descendentes sedentos de vingança e recuperem o negócio e a família . Na nossa praça, contudo, é entre os ostracismo, a malta dos jantares-reuniões e na criação de cúpulas que se matam os heróis, é esses heróis são muitos e muitos cidadãos. De vez em quando destaca-se um ou outro, ou porque ambiciona o estrelato ou porque melhor do que tornar o sonho de muitos realidade é alimentar-lhes apenas o desejo de… Assim não se revoltarão e não terão ideais para além daqueles que são, aparentemente, os correctos. Um pouco como a felicidade, muitos não a encontram nem se esforçam (por desespero?) mas emocional-se é motivam-se com a publicidade que apela às emoções.
E citando outro filme (ou mais ou menos) : heróis há muitos seu palerma. Mas também, como naquele tempo…
Abraço, Pedro.
Escrita ao telemóvel…
“é esses heróis”… retirar o é…
“mas emocional-se é ” leia-se “mas emocionalmente”
Heróis (por ironia) há muitos, sim. Parafraseando o Vasco Santana.
Um abraço, meu caro.
O cinema western é uma mitografia maravilhosa. E exige o respeito pelo seu cânone (algumas desbragadas abordagens actuais são heréticas). O outro dia tive a sorte de ver um filme que desconhecia, “Sangue no Deserto” com Henry Fonda (1957, julgo) do Anthony Mann. Magnífico. E que sorte tive eu, de ainda apanhar um dos grandes sem nunca o ter visto. Um encanto
Tens mais sorte que eu, que já os vi quase todos. Em diversas idades – e em todas elas com proveito.
Mas há sempre o prazer da revisita. Como existe o prazer da releitura.
Há dias, revendo um magnífico ‘western’ também com Gary Cooper, rememorei esta frase final – que resume todo o filme e em grande parte resume também a vida de tanta gente: «Se a Terra fosse coberta de ouro, os homens batiam-se por um pedaço de lixo.»
Cada vez mais aprecio os clássicos.
Num mundo tornado idiota em que o “politicamente correcto” e as “quotas” substituem a arte, não mais se farão as fitas que fizeram o deleite de gerações.
A comédia então… quando abertamente debatem censura sobre Monty Python ou Mel Brooks e chegam ao ponto de banir titulos…
Vejam antes que desapareçam.
Crescentemente aumentam os sinais que ainda virão a ter saudades do “mundo que foi”.
Não tenho a menor dúvida: se fosse hoje, séries clássicas como “All in the Damily”, “Fawlty Towers” e as dos Monthy Python não poderiam ser produzidas nem exibidas. Os pânditas da correcção política entrariam em histeria e exigiriam a proibição de todas elas.
Quer-me parecer que nem o “Hallo Hallo” nem o BlackAdder teriam hipótese de sobreviver aos sicofantas.
São as mesmas pessoas que queriam (e conseguiram) banir o “E tudo o Vento Levou”, filme colossal com multiplos Oscares no tempo em que o Oscar ainda valia alguma coisa.
Estou mesmo convencido que nenhuma destas séries seria hoje autorizada nem seria exibida.
A liberdade vai recuando a olhos vistos. Somos hoje muito menos livres do que éramos (por exemplo) há um quarto de século.
A seguir à Era Atómica, a nova Era da Mordaça:

– primeiro amordaçar a percepção através da narrativa
– consequentemente amordaçar a inteligência
– por último, amordaçar a boca (!) e a individualidade esperem um pouco esta também já está em prática!
O novo mundo é dos Clementinos e dos Amelinhas!
John Wayne ou Clint Eastwood já não se fabricam.
Gary Cooper era um machão gay!
Não há grande diferença entre gays e machistas — é o culto da picha na mesma. Até a empregada da limpeza lá no estaminé do Freud adivinharia esta. E se calhar também explica o islamismo, com todos aqueles actos falhados e cortar cabeças e gajos barbudos e não-sei-quê. Olha, aquilo é tudo uma paneleirice.
Entre pandemias e ciclos de desemprego cada vez mais será difícil criar raízes onde for.
Nos westerns prefiro os revisionistas.
Volta e meia aparecem novos títulos interessantes, como In a valley of violence ou The salvation (com o 2º melhor actor/futebolista, Cantona)
Os últimos grandes ‘westerns’ que vi foram “Indomável”, dos irmãos Coen, e “Django Libertado”, de Tarantino.
The Hateful Eight de 2016 de Tarantino também é um bom Western.
Acho que vale a pena ver!
Grato pela sugestão, já anotada.
Imperdoável, do Clint Eastwood, já com uns anitos.
Muito bom, obra-prima. Mas já com quase 30 anos.
Sempre gostei de filmes de cowboys!
Não esqueço :
do Sam Peckinpah.
1-Quadrilha Selvagem.
2-Pat Garrett & Billy the Kid.
3-Ride the High Country.
Com John Wayne o 4-Rio Lobo, 5-julgava-te morto Mr.Jacob.
Com Clint Eastwood 6- o bom o mau e o vilão e o 7- Pale Rider.
E tantos outros.
Enumera várias obras-primas. E dá-me uma ideia: lançar aqui o desafio para a eleição dos dez melhores ‘westerns’ de sempre.
Correcto, mas…
A sociedade vai mudando, tal como os conceitos e o “Farwest” tambem mudou, (se calhar para os lados do Bronx ou do casal ventoso), os westerns continuam a ser rodados em sistema “reality show” e o caracter dos herois foi-se alterando de uma coluna vertebral rigida (talvez por causa da obrigatoriedade da “arte bem cavalgar em toda a sela”) para uma massa semi-gelatinosa, extremamente moldavel e perfeitamente adaptavel a um assento mercedes (passe a publicidade) ultimo modelo, ar condicionado e vidros fumados.
Nao ha “coluna vertebral” que resista a um encosto subtil, ergonomico e em cabedal de alta qualidade, a troco de de uma conducao com todas as vertebrazinhas alinhadas de acordo com todos os preceitos medicos (e morais) recomendados.
Ate porque ficava imediatamente rotulado de “condutor de domingo”…
Aflora vários temas interligados. Cada um dá pano para mangas. Teremos ocasião de ir debatendo tudo isso.
absolutamente, mas no fundo e exactamente essa a base do seu artigo, “flexibilidade & adaptabilidade vertebral” nos tempos que correm versus “ser ou nao ser”, eis a questao…
Sim, a base é essa.
pelas minhas vistas curtas, alem de ja ter lido antes mais vezes “mundo que ja nao há”, afirmaçao que carateriza os velhos, que tambem sou, , dizia pelas minhas vistas curtas, para acautelar nao enxergar a intençao do post, o mundo nao cresceu, pois em altura, até ao ceu, com forasteiros.
Neste meu sentido, a relaçao com os politicos, é um objetivo desastrado.
Tentei descortinar, sem sucesso, o sentido da sua aparente objecção ao que escrevi.
Nao se trata de objeççao, sim de critica. Critica implicita pelo malhar constante nos politicos, e pelo disparate de elogiar os forasteiros de outrora, comparativamente aos homens de hoje.
Ainda bem que os tais nao promoviam as hortas urbanas. Já havia folclore naquele tempo ?
Caramba, isso é mesmo palavreado do Velho do Restelo. A clamar contra os pioneiros que partiam rumo aos oceanos desconhecidos. A clamar contra aqueles que são hoje imortalizados no primeiro verso do hino nacional.
boa, Pedro. Obrigado pelo humor.
Carago (expressao utilizada numa regiao do pais ) .
Convenhamos que comparar figuras míticas com pessoas de carne e osso é injusto para as segundas.
Todos os heróis da História são, de algum modo, figuras míticas.
Seja em que época for, seja em que quadrante for.
Uma comunidade sem heróis – isto é, sem figuras de referência – sujeita-se à “apagada e vil tristeza” a que aludia Camões.
Os heróis da história foram pessoas de carne e osso. Os factos com eles relacionados existiram, mais ou menos adocicados, mas aconteceram
Os heróis dos filmes não.
Daí a minha referência à injustiça em fazer este tipo de comparações.
Sim, percebo.
Mas mesmo os heróis que foram de carne e osso são sempre envoltos em algum grau de mito.
Os antropólogos já provaram que os mitos e os ritos são fundamentais para sedimentarmos laços sociais e comunitários.
Sem dúvida. Mesmo o que se considera como História, factos históricos e acontecimentos passados têm uma carga subjectiva quando são relatados.
Sim. Cada relato, mesmo sem querer, é um degrau que consolida a História mas também um possível alçapão que constrói o mito. A partir de certa altura, tornam-se companheiros de jornada.
Bem hajam, libertários!
As cidades – que eram sobretudo lugares de divulgação do conhecimento, comércio e alguma diversão – agora concentram a quase totalidade da população mundial. Ainda há espaços a perder de vista, mas já não há terras de ninguém – nem espaço legal, psicológico, ou emocional para um libertário viver tranquilo. É claramente uma espécie à beira da extinção – e o seu habitat natural praticamente desapareceu. Agora, só com ‘reservas naturais’, como as criadas para os índios (!), felinos e outras espécies…
Hoje em dia as nossas sociedades são uma muito má imitação das sociedades das formigas. Com a agravante de ser obrigatório ser portador de cartão de cidadão e ter residência fixa – tudo isto em prol da nossa felicidade (ou será apenas da sobrevivência da espécie?)
(Nem tudo é mau, libertários portugueses, podem usufruir do SNS sem nunca terem pago um cêntimo de impostos ou descontado para a Segurança Social. E têm ainda o enterro garantido.)
Vivemos cada vez mais em “reservas”. No limite, estará cada qual enclausurado na sua bolha. Como já dizem os do poder, há que manter “distanciamento social”. Como já dizem os do poder, as “infecções” ocorrem “em contexto familiar”.
Abaixo a família, abaixo a sociedade. Cada qual solitariamente higienizado, na perene contemplação do próprio umbigo.
Para mim um dos melhores westerns é também o menos evidente como western: Jeremiah Johnson de Sidney Pollack. O remake recente do True Grit também não é mau de todo, sobretudo pela Hailee Steinfeld e pelos sítios, que são refinadíssimos como paisagem de “filme de cobóis”
Também sou fã do género.
Em breve tenciono regressar ao tema. Que é inesgotável.