Logo que a guerra acabou fui trabalhar na Bósnia-Herzegovina, colocado em Tesanj. Na Europa muito difícil será encontrar um contexto fisicamente duro, e ali não o foi. Mas, e ainda que apenas tenha sido um mês, foi -me moralmente muito duro. Pois deu para perceber a inacreditável razia que ali acontecera, demoníaca. Anos depois escrevi um textinho, balbuciadas memórias sobre isso, a modos que catarse. E lembro também, já questões pessoais, do meu horrível regresso a Lisboa, um domingo de manhã, abatido pois comovido com tudo aquilo que vira e ouvira, e o chegar a casa para sofrer uma separação totalmente inesperada, por espúrias e até patéticas razões, uma verdadeira crueldade que me derrubou. Isso são outras contas, é certo, mas nunca me lembro da Bósnia sem elas virem ao de cima. Mas o que agora conta é que muito me irrito cada vez que vejo gente a defender os sérvios – e esse é um discurso muito presente nos (ex)comunistas portugueses, ocamente reduzidos a uma eslavofilia. Mesmo sabendo da enorme complexidade daquela guerra jugoslava, do verdadeiro pan-demónio que ali grassou.
Isso é uma coisa. A outra coisa é ver agora as reacções na imprensa, nacional e estrangeira, ao Nobel atribuído a Handke. Li um punhado dos seus livros, autor que esteve em voga. Muito provavelmente o primeiro terá sido este “A Hora da Sensação Verdadeira”, uma das primeiras capas – e bem bonita – do meu amigo Emílio Vilar – mais ou menos contemporânea da belíssima linha gráfica que então ele criou para a muito boa colecção “Memória e Sociedade” também da Difel. Lembro-me bem disso, e que foi ele que me deu um dos exemplares que tinha. Depois li o tal punhado de Handke. E marcou-me, em particular o “Para Uma Abordagem da Fadiga” (vou relê-lo agora, como reagirei 25 anos depois?).
Mas antes fico só com uma questão, que a mim próprio responderei. Pois, e mesmo que nada goste dos defensores dos sérvios, tão malvados que estes então foram, interrogo-me: que gente é esta que avalia os escritores principalmente (ou mesmo somente) pelas suas opiniões políticas? Imprestável. Vizinhos imprestáveis.

O massacre de Srebrenica e o cerco a Sarajevo são difíceis de esquecer, se bem que no auge do conflito, Sérvios, Croatas e Bósnios Muçulmanos, competiram em matéria de carnificina.
Estive na Bósnia-Herzegovina em 2016 e as marcas da guerra ainda estão bem presentes, tanto na paisagem, como nas pessoas, afinal passaram apenas pouco mais de 20 anos.
Uma coisa é certa, não é do Nobel da paz que se trata, mas sim do da literatura.
Passados 21 anos, acontece com Handke o mesmo que aconteceu com Saramago, a avaliação do escritor não pela sua obra, mas pelo seu enquadramento ideológico.
Pois saiba que concordo consigo. Não faço ideia da qualidade do escritor, nunca li nada dele. Mas, se acaso tem qualidade literária, se a vida lha demonstra, qual é o problema? Afinal o que se analisa não é a a obra literária?!
Dar o Nobel da Literatura a um autor sem atender às suas posições políticas é algo que a Academia sueca nem sempre cumpriu, com grandes injustiças à mistura. Ainda bem que se lembrou disso agora.
Isso apesar da apologia inaceitável de Handke aos carniceiros sérvios, coisa que aliás, e inquietantemente, volta a estar na moda, não só pelos comunistas mas também pelo extremo oposto. Anda mesmo para aí um textinho nas redes sociais a “recordar” a “invasão islâmica” de albaneses ao Kosovo, fazendo a comparação com os actuais refugiados.
De qualquer maneira, um homem que escreveu o argumento de As Asas do Desejo terá qualquer coisa de luminoso entre essas trevas mal explicadas.