Haiti


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Vejo as imagens na televisão, ouço os relatos das cenas de violência protagonizadas por  quem luta contra a fome e revolto-me. Provoca-me náuseas o ar compungido dos repórteres. Causam-me asco os relatos das cenas de violência exibidas na pantalha. São imagens chocantes, violentas, aviltantes. A culpa não é dos repórteres, nem dos pobres haitianos que lutam pela sobrevivência. As náuseas e o asco são provocados por um sentimento de revolta que me invade, quando penso que as dimensões desta tragédia poderiam ter sido muito menores se há mais tempo tivéssemos olhado para o Haiti com outros olhos. Se o mundo se tivesse preocupado em evitar uma tragédia destas dimensões, ajudando o povo haitiano a construir um pais desestruturado  e há séculos  marcado pela violência.

Um daqueles teocratas fundamentalistas  americano,  capaz de nos fazer acreditar que Bush até é um tipo inteligente, veio dizer que o sismo foi uma bênção divina, mandada por um deus agastado pelo facto de os haitianos terem vendido a alma ao diabo para expulsar os franceses. Pat Robertson, ex-candidato à presidência dos EUA em 1988, disse isto com aquele ar sério próprio dos néscios. Presumo que gostará de ler o Caim  e concordará com Saramago.

Assisto a tudo isto e fico à beira de um ataque de nervos. Revolta-me este mundo ocidental de nababos, onde os orçamentos militares são incomensuravelmente superiores  às verbas destinadas para combater a pobreza.

Eriçam-se-me todos os pêlos do corpo, quando vejo o mundo onde vivo crescer à custa do desperdício e, olhando para o lado, encontro outro mundo de miséria, a quem esse desperdício seria suficiente para matar a fome.

Blasfemo contra a hipocrisia dos fariseus. Consciências aliviadas pelo favor de um donativo, seguem em frente, à espera de uma nova oportunidade para expiarem os seus pecados, à custa da miséria alheia.

Praguejo contra este modelo  ultra liberal, contra o capitalismo selvagem  que cava um fosso cada vez maior entre ricos e pobres e onde emergem uns fariseus dispostos a repartir umas migalhas da sua ganância.

Lavo as entranhas, num prolongado vómito, quando vejo dirigentes dos países mais poderosos e mais ricos do mundo surgirem diante das câmaras em postura reflexiva, ar compungido e penitente, lamentando a catástrofe, momentos depois de terem aprovado um generoso orçamento para comprar armas  e recusado disponibilizar mais verbas para o combate à pobreza. Eles sabem que, em caso de nova catástrofe, a solidariedade humana cumprirá o seu dever. Seja enviando donativos, seja indo para o terreno, em missões de voluntariado, prestar auxílio a quem precisa.

Quanto aos senhores do mundo, que nós elegemos para governar estes arremedos de democracia, vão reunir, depois da fugaz aparição televisiva,  com os donos do capital.

Enquanto debicam opíparas iguarias, falarão da necessidade de baixar os salários e das cotações na bolsa, chegarão a acordo para aumentar a idade da reforma e reduzir as pensões, fecharão um negócio a celebrar entre a empresa e o Estado  e acertarão o lugar que o sr. presidente vai ocupar na administração da empresa, quando abandonar o cargo.

Entrementes, acordam o palco de um novo conflito que sustente a empresa de armamento de um qualquer Dick Cheney

As ONG’s que façam o seu trabalho e o povo que dê os seus contributos, porque não faz mais do que a sua obrigação.

15 comentários em “Haiti”

  1. .. bem que me tinha avisado Carlos 🙂 Muito mais duro que o que escrevi, contudo. Talvez porque ainda acredite que se se deixar trabalhar quem tem ideias e força estão resolvidos mais de metade dos problemas.

    O sofá é sem dúvida mais confortável .. e a maledicência e o procurar de justificações nas atitudes alheias para a inoperância pessoal muito “sensato”.

    Gostei. Mesmo.
    Abraço*

  2. Uma das coisas que admiro em ti é essa genuína pureza que te faz assim irredutível (e incómodo, muitas vezes). Não há cinismo que te amacie, não há conformismo que te tente. Parabéns. E também pelo texto.

    1. Subscrevo o comentário da Ana Vidal – se ela o permitir…

      (Não conheço o Carlos, assim, tão bem, tal como a Ana. No entanto, já o leio há algum tempo, dá para arriscar.)

  3. Há muitos anos que deixei de dar esmolas, ou comprar uns quaisquer alimentos para o saco do banco alimentar, ou meter umas moedinhas na lata de um qualquer peditório, porque sinto que não é meu dever. Não que não seja dever ajudar, mas não desta forma. Ainda por cima nada me garante que o meu dinheiro vá directamente para o que me foi pedido. Mas isso são outros “quinhentos”…
    E revolta-me tanta hipocrisia. Há milhões para tudo, menos para dar dignidade a TODOS os que vêm a este mundo.
    Custa ver os sonantes do poder, nas tv´s a dizer, “vamos fazer isto, vamos dar aquilo”. Quem realmente dá de si aos outros, não o diz nas televisões. Propaganda.
    Quantos às imagens, sou da opinião que se mostrem.
    Foi graças a essas imagens que fiquei a saber, que os cofres e os computadores de um banco, são mais importantes que UMA vida humana, quando vi uma retro-escavadora, onde não as há, à procura desses bens preciosos, 3 dias depois do sismo, quando a maioria da população removia com as mãos os escombros na procura de vidas. Vergonhoso.
    Todos vivemos à margem de quem nos rodeia, todos fingimos que não vemos, que não sabemos e é em donativos que expiamos os nossos pecados ( a Exma Ana Vidal, já falou disso).
    Que cada rosto daquela tragédia possa ser uma porta aberta para o despertar da consciência mundial (utopia, eu sei).
    Que as imagens nos assombrem durante muito tempo.
    Talvez passemos a olhar com mais respeito para os outros.

    Gosto de o ler porque não perdoa. Mete o dedo na ferida.
    Este texto é mais um belo exemplo disso.

      1. É que já fui acusado de não ter maneiras…
        Há que tomar cuidado, não me façam é ler os livros da Bobone.
        Eh eh.
        Combinado, Ana.

        1. Combinado. E “ter maneiras”, para mim, é outra coisa. Não tem nada que ver com a informalidade (que aprecio e pratico). Nunca notei que as não tivesse, fique descansado.
          🙂

  4. ‘revolta este mundo ocidental’ … e o outro ou os outros? a mim o que me revolta é aparecerem bocas cheias de milhões de dolares que no minuto antes do sismo diziam não haver um centimo. com todo o respeito pelos mortos, pelas pessoas em sofrimento e por aqueles que dão o seu melhor na ajuda, o que aguça é a ganancia começando por ong(s) da treta que são pontas de lança de negocios acabando nas televisões sedentas de horror porque quanto pior melhor para as audiencias. Na primavera vamos ver quem continua no terreno e quem sabe que existe o haiti. entretanto como os cavalos aparelhados só vimos a direito.

  5. Sr. Carlos Barbosa Oliveira
    …fico à beira de um ataque de nervos…
    …revolta-me este mundo ocidental…
    …eriçam-se-me todos os pêlos…
    …blasfemo contra a hipocrisia…
    …praguejo contra este modelo ultra liberal…
    …lavo as entranhas…
    E de concreto, o que fez para alterar a situação? Tem ao menos alguma ideia? Alguma sugestão? De pessoas “revoltadas” está o Inferno cheio!

  6. Grande texto Carlos. Só hoje tive oportunidade de lê-lo bem e deixar-lhe este testemunho da minha crescente admiração pela forma como nos dá a sua visão das coisas. Tanto aqui como no rochedo. Muito obrigada

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