Há sempre alguém que diz não


Pedro Correia,

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Vale a pena os políticos terem emoções. E partilhá-las com os cidadãos comuns: é uma forma de exercer pedagogia democrática. A política imune a estados de alma perde a configuração humana, torna-se actividade burocrática sem nervo nem chama, feita de mero cálculo.

Há quem se perpetue na penumbra a aguardar oportunidades, dobrando-se ao peso inelutável das circunstâncias, sem jamais soltar um grito de revolta. E há quem saiba dizer “basta”, traçando linhas de não-retorno. Neste último lote, muito mais restrito, inclui-se Adolfo Miguel Baptista Mesquita Nunes, 43 anos, advogado de profissão e político por vocação. Inscreveu-se no CDS em 1997 – tinha o actual presidente do partido nove anos. Acaba de devolver o cartão de militante, quase um quarto de século depois, por imperativo de consciência.

O texto que publicou sábado passado numa rede social, justificando o fim do vínculo partidário, merece reflexão atenta. Por contrariar a tendência dominante nestes dias de progressiva compressão do pensamento crítico em nome de afinidades tribais. Quando sectarismos de diversos matizes andam à solta, este ex-vice-presidente do CDS vem lembrar-nos que nada é tão relevante na política como o apego à liberdade. Mais do que conveniências eleitorais, mais do que tacticismos de ocasião, muito mais do que a disciplina sem sentido imposta pelo poder de turno – tão frágil e contingente como todos os poderes.

«Como é possível que o CDS aceite que uma direcção retire aos militantes o direito de escolher o seu líder e a sua estratégia; e que o faça num Conselho Nacional ilegalmente convocado e ignorando as decisões do órgão jurisdicional do partido; e ainda para mais para manter uma direcção cujo mandato termina em Janeiro? Este não foi o partido em que me filiei. O CDS transformou-se noutra coisa. É legítimo que o faça. Assim como é legítimo que eu escolha desfiliar-me agora que essa transformação se cristalizou.»

Não é preciso ler nas entrelinhas: o texto fala por si. Subscrito por quem integrou em 2011 um dos melhores grupos parlamentares de que há memória no hemiciclo de São Bento e foi um dinâmico secretário de Estado do Turismo quando rumou da Assembleia da República ao Governo, dois anos mais tarde. Assumindo o pensamento liberal numa sigla que sempre acolheu várias sensibilidades do hemisfério direito sem perder identidade. Desfigurar este património não desvirtua apenas o CDS, um dos emblemas fundadores da democracia portuguesa: também empobrece o nosso quadro partidário.

Depois dele, novas saídas foram anunciadas, incluindo a de outro ex-vice-presidente, António Pires de Lima. Os danos reputacionais são óbvios para o Largo do Caldas enquanto a questão fundamental subsiste entre as paredes da sede partidária: é possível justificar entorses à legitimidade interna e purgas ideológicas em nome da pureza doutrinária ou de hipotéticos ganhos eleitorais? Claro que não. Fatalmente, outras demissões irão seguir-se. Poucos mas puros costumava ser lema da esquerda leninista, não da democracia-cristã.

 

Texto publicado no semanário Novo

26 comentários em “Há sempre alguém que diz não”

  1. Se nos boletins de voto apresentados aos eleitores em vez de símbolos estivessem os nomes dos candidatos apoiados por determinados partidos, estas lutas fraticidas não existiriam e a consequente qualidade na Assembleia da República seria outra.

    1. Teríamos talvez uma assembleia com 230 Campelos – cada qual a reivindicar a sua fábrica de queijos, o seu pavilhão gimnodesportivo, a sua variante ao IP mais próximo ou o seu “centro de congressos” nos locais onde eram eleitos.
      A assembleia transformada em Feira da Ladra.

    2. “Se nos boletins de voto apresentados aos eleitores em vez de símbolos estivessem os nomes dos candidatos “
      O problema que vejo no que sugere é que a maioria esmagadora dos eleitores não conhece quase nenhum candidato.
      Eu sei razoavelmente o que cada partido quer fazer e onde se situa ideologicamente donde deduzo em qual votar. Se se me apresentarem um boletim de voto com o Zé e o Manel não sei em qual votar. Se souber quais os partidos que apoiam cada um então já terei uma referência. Voltamos sempre aos partidos. Eles são, parece-me, a espinha dorsal da Democracia, como dizia Mário Soares.
      Estou certo ou estou errado como perguntava o Sinhôzinho Malta?

      1. Por essa Europa fora, incluíndo o Reino Unidos, os sistemas eleitorais têm a componente uninominal. Os eleitores escolhem da lista de candidatos, no seu círculo eleitoral, um nome. Os candidatos em cada círculo eleitoral -tal como por cá nas eleições para as Autarquias!- são sempre bem conhecidos, sejam eles o Zé ou o Manel.

        O sistema eleitoral em Portugal, inspirado no sistema da ex-URSS e na China Comunista (não Taiwan) confere poder absoluto sobre os deputados aos respectivos “comités centrais”.
        Um deputado genuíno, por definição, responde aos seus eleitores, depende do seu eleitorado. E se falha não é re-eleito.
        Em Portugal os deputados respondem ao chefe do respectivo partido.
        Os casos “limianos” claro que existem, mas negociados em equilíbrios de poder entre os representantes de eleitores.
        As actuais caricatas lutas palacianas dentro dos partidos são apenas um dos resultados preversos do sistema eleitoral.

  2. De cabeça erguida partilhou com os cidadãos comuns nas redes sociais sem complexos elitistas. O que dá crédito à ideia de que as redes sociais são um legitimo veiculo a não descartar, onde os cidadãos comuns também possam partilhar emoções com os politicos, numa não menor forma de pedagogia democrática.

  3. Só para corrigir uma afirmação sua que toca as minhas emoções, e não para comentar Adolfo.
    Antes de mais para referir que não existem políticos e cidadãos comuns. Existem, sim, cidadãos comuns que também se dedicam à política. Não raras vezes, quando exercem essa profissão bem paga para os padrões, mas que também abre portas para outros interesses e, ainda, se abrem portas de outros interesses, esquecem que também são comuns e cidadãos.

  4. Inscreveu-se no CDS em 1997 – tinha o actual presidente do partido nove anos.

    Sim. Mas o facto de ser mais velho não lhe deve dar (nem dá) direitos acrescidos. Todos os militantes têm iguais direitos (e deveres).

    É que, esta frase cheira um bocado a defesa da gerontocracia. Que é um grande defeito de Portugal, e de outros países da Europa que não avançam, nomeadamente a Itália.

  5. Assumindo o pensamento liberal numa sigla que sempre acolheu várias sensibilidades do hemisfério direito

    O pensamento liberal é uma ideologia política, não é uma “sensibilidade”. Tal como o conservadorismo e tal como a democracia cristã, o liberalismo é uma ideologia política – não se reduz a uma “sensibilidade”.

    O CDS acolheu (e acolhe) diversas ideologias políticas. Não tem meramente “sensibilidades”.

  6. Desfigurar este património […] empobrece o nosso quadro partidário.

    Não. Enriquece-o. Porque a partir de agora temos não um partido (o CDS) mas sim três (o CDS, o Chega e a IL), todos eles representando diversas ideologias políticas. Ficamos com um quadro partidário enriquecido, mais diverso, mais plural, mais representativo, mais fiel aos gostos do eleitorado.

  7. Nunca entendi porque é que os partidos depois de perder eleições substituem a direcção e põem um líder a prazo. Porque é que o Nuno Melo estava indisponível quando saiu a Cristas?
    Meteram lá o Francisco dos Santos, foi aprovado por todos, até pelos desistentes, e agora querem correr com ele porquê?
    E que imagem transmitem os que estão a abandonar o barco?
    Um partido é uma entidade, não é uma pessoa, e se alguém está descontente é no seio do partido que deve resolver, não é na praça pública.
    Se alguém está descontente com o rumo do partido, saia e forme outro partido, faça como o Santana Lopes ou o Manuel Monteiro ou o Ventura. Não ande é a anunciar aos sete ventos que vai sair, e enquanto não sai, esteja a denegrir a imagem do que fica.

      1. “Perde eleição após eleição e o líder é sempre o mesmo.”
        Já agora podia mostrar (argumentar) porque é que isso está errado.
        Acho que se pede demais a demissão deste e daquele….

    1. Porque é que o Nuno Melo estava indisponível quando saiu a Cristas?

      Essa é que é a verdadeira questão… Eu acho que sei a resposta mas não vou dizer.

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