Há qualquer coisa que está mal


Sérgio de Almeida Correia,

Gun murders.png

Já várias vezes me manifestei contra a facilidade com que se comercializam e se acede a armas nalguns países. Sei que o resultado é igual a zero, mas nem por isso deixarei de exercer a minha liberdade de crítica e de opinião e de me manifestar contra a situação. O que se passa nos Estados Unidos da América e que se tem vindo a agravar em cada ano que passa ultrapassa os limites do aceitável num mundo civilizado. As justificações que têm sido dadas para a continuação da bagunça, numa espécie de prolongamento do Far West pelo século XXI, são as mais bizarras, apesar dos números há muito dizerem que a situação é insustentável aos olhos de qualquer civilização digna desse estatuto.

A quantidade de casos verificados nos últimos anos, de mortes fortuitas ou deliberadas provocadas pela liberdade de acesso às armas, de atentados facilitados pelo livre mercado de armas e explosivos, há muito que devia ter obrigado à adopção de outras medidas para sua própria segurança e dos seus cidadãos. A forma como os EUA se arvoram em polícias do mundo e campeões dos direitos humanos contrasta com as cenas diárias de violência e com os constantes abusos cometidos pela suas forças policiais. Ontem ouvi uma notícia dando conta de que uma dessas cadeias comerciais especializadas no comércio de armamento deixaria de vender ao público “armas de assalto”. Calculo que se tratem “apenas” de armas automáticas, metralhadoras e coisas do género, do tipo das que têm sido utilizadas nalgumas carnificinas. Será um pequeno passo dado que revólveres como o que foi utilizado há dois dias para tirar a vida a um par de jovens jornalistas devem continuar a ser livremente comercializados. O milionário Trump, com aspirações a presidente, e de cuja boca saem diariamente as maiores inanidades, diz que o problema não são as armas mas antes a falta de apoio a doentes do foro psiquiátrico. Não sei se quando o disse estaria a pensar no “Obama Care” ou se estaria a contar que os potenciais criminosos com problemas psiquiátricos ou psicológicos tivessem seguro de saúde que cobrisse os custos desse apoio. De qualquer modo, é duvidoso que se estivesse também a referir a si próprio, embora me pareça que não esteja muito longe da verdade.

Não é por nada, e não me estou agora a referir à pena de morte e ao sadismo utilizado nas execuções de alguns condenados, cujo fim se prolonga ao longo de horas, mas quando se olha para as estatísticas dos mortos e para o número de armas vendidas, e ao mesmo tempo se fica a saber que o responsável pela morte de uma dúzia de pessoas foi condenado a 12 (doze) penas de prisão perpétua, somos levados a pensar que não é só uma meia dúzia de loucos que precisa de acompanhamento psiquiátrico. Não sei se há alguma coisa de lógico na condenação de uma pessoa – presumo que o crime não o faça perder essa condição por muitas interrogações que o seu acto suscite – numa pena dessas. Ou se haverá alguma coisa que me esteja a escapar.

Perante isto, lendo as estatísticas, vendo na televisão o sentenciado vestido com a farda cor-de-laranja do estabelecimento prisional, de mãos e pés algemados perante um tribunal, embora esteja também ladeado de polícias fortemente armados e com o dobro da sua altura e volume, numa imagem que é um retrato da humilhação da própria espécie a que o juiz que condena pertence, num quadro que em nada difere dos que as cavalgaduras do auto-proclamado estado islâmico apresentam a essa mesma televisão quando exibem os seus troféus de carne e osso, sou levado a concluir que é toda uma nação que está a precisar de acompanhamento médico. A começar pelo seu direito penal e pela forma como trata os seus cidadãos, seres humanos, tratamento que por aquilo que nos tem sido transmitido difere muito pouco do estado natural que Hobbes nos descreveu no Leviathan e em que a vida mais não é do que “an egoistic quest for the satiation of desires“. Ou pior, porque ali ninguém caía no ridículo de condenar o seu semelhante a doze penas de prisão perpétua. Como se uma só não fosse já suficiente para mostrar a miséria do sistema, a sua absoluta indigência, a sua total incapacidade para regenerar. Se ao menos ainda servisse para melhorar as estatísticas…

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0 comentários em “Há qualquer coisa que está mal”

  1. A sua posição em relação ao “americano” é por aqui vastamente conhecida. Integra-se numa orientação muito comum a parte significativa, creio poder dizê-lo, da intelectualidade europeia – a que o é e aquela que se quer tomar como tal – e tem você todo o direito a tê-la. Sucede por vezes, a tal orientação, resvalar para a pura e simples obsessão antiamericana, com tudo o que isso tem de dogma e maniqueísmo. Mas é seu direito e não estou a integrá-lo necessariamente nessas posições mais extremadas (aliás ser-lhe-á, decerto, absolutamente indiferente que eu o classifique desta ou daquela maneira. E, uma vez mais, é seu direito).

    Desta vez invoca três aspectos que serão em larguíssima medida consensuais entre nós, europeus, na forte estranheza, ou mesmo claro repúdio, que nos causam: a generalizada e legal circulação de armas de fogo (e, nada percebendo eu do tema, parece que bem poderosas) e os trágicos efeitos potenciais e reais dessa circulação; alguns aspectos de ordem ritual – pelo excesso de forma e conteúdo que em regra parecem ter – no sistema judicial dos EUA; a adopção da pena de morte (uma questão que voltou por estes tempos redobradamente à baila, não só por ela em si mesma como por recentes casos de execuções dessa pena que terão decorrido de forma penosíssima).

    Esses três aspectos poderiam ser aqui longamente debatidos, defendidos e atacados com cópia de argumentos. Mas será tendencialmente consensual que deste lado do Atlântico colidem em medida apreciável com a nossa consciência. Talvez não tanto nem de forma tão profunda como se pensa, creio. Mas colidem.

    Agora isto: “(…) num quadro que em nada difere dos que as cavalgaduras do auto-proclamado estado islâmico apresentam a essa mesma televisão quando exibem os seus troféus de carne e osso (…)”, isto meu caro parece-me inaceitável. Só o posso mesmo compreender – que não aceitar – como um excesso de entusiasmo num acarinhado passatempo de pôr o dedo e remexer nas feridas dos americanos.

    É que uma coisa é o que decorre, adjectiva e substantivamente, gostemos ou não disso que decorre, de um processo judicial devidamente conduzido em respeito de garantias e no âmbito da actuação de um estado democrático (muitos defeitos que tenha) em que o povo é regularmente chamado a pronunciar-se vinculativamente e com liberdade de voto. Outra coisa é a barbárie desse auto-denominado estado islâmico, absolutamente indefensável e para lá disso completamente inominável na loucura, no horror que encerra e demonstra.

    Critiquemos os excessos dos fatos-macaco de cor laranja, as algemas em pulsos e tornozelos, todo o ritual de apresentação pública do acusado/condenado. Combatamos a pena de morte. Tomemos por anacrónicos os argumentos históricos e constitucionais que legitimam a posse generalizada de armas. Apontemos o dedo aos “americanos”, culpando-os do que quisermos no plano interno e internacional (e que potência, podendo, não seria imperialista, não promoveria egoisticamente os seus interesses?).

    Mas não os coloquemos no patamar de quem atira homossexuais do alto de edifícios, apedreja adúlteros, decapita e exibe publicamente os restos das suas vítimas, amputa membros, toma como indignos de existir os que não professem a que consideram a sua “religião”, arrasa metodicamente património histórico e o mais que o catálogo de horrores possa conter. E que em matéria de execuções chega ao ponto de encerrar o condenado numa jaula, regá-lo com combustível e pegar-lhe fogo. Sem processo judicial – o que aliás nunca justificaria essas práticas – ou com um processo indigno desse nome. E em regra com orgulhoso exibicionismo através das chamadas “redes sociais”.

    E, se isso lhe for significativo, nem será tanto pelos americanos. Será mais por respeito pela nossa inteligência.

    Costa

  2. Depois de ler este artigo fui às estatísticas da ONU sobre estes assuntos.

    No site da UNODC (United Nations Office on Drug and Crime) pude encontrar os números mundiais de homicídios.

    A informação mais recente disponível refere-se ao período entre 2000 e 2012.
    Curiosamente, nesse período o número de homicídios nos EUA diminuiu. Em 2000 era de 5,5 e em 2012 era de 4,7 por 100.000 habitantes.

    Existe uma outra estatística sobre as armas de fogo, esta do período 2005 2012.
    Verifica-se que nos EUA este tipo de homicídio não aumentou, está estável e até teve uma ligeira descida: 61% em 2005 para 60% em 2012.

    Os números mostram que não existe relação entre o uso e porte de armas de fogo e os homicídios. O total de homicídios diminuiu e os executados por armas de fogo não aumentou.

    A comparação que é mostrada no artigo refere apenas os países ditos desenvolvidos e não menciona os restantes países do planeta.
    Se verificarmos os números no resto do Mundo podemos constatar que o número de homicídios é bem mais elevado em muitos deles.

    Republica Dominicana 64%
    Costa Rica 64%
    Panamá 74%
    Paraguai 64%
    Chipre 52%
    Croácia 31%
    Malta 42%

    são alguns países com percentagens de homicídios por arma de fogo superiores aos dos EUA ou bem superiores à média europeia (casos do Chipre, Malta e Croácia, países da UE).

    E existe um caso curioso que me chamou a atenção e que deve merecer estudo: São Tomé e Príncipe, lá 100% dos homicídios são cometidos com arma de fogo!

    Outro caso curioso é o Brasil, que visito regularmente e que tem criminalidade elevada com homicídios de 22,5 por 100.000 habitantes, bem superior aos 4,7 dos EUA.

    Não existe números dos homicídios cometidos com armas de fogo.

    O Brasil tem uma legislação semelhante à portuguesa em matéria de armas de fogo mas observamos que qualquer “pilha-galinhas” tem uma arma de fogo e comete os mais variados crimes.
    Será que haveria menos crimes se o cidadão comum tivesse facilidade no acesso às armas de fogo como nos EUA?

    As estatísticas são Homicide counts and rates, time series 2000-2012 e Percentage of homicides by mechanism, time series 2005-2012 do UNODC e estão disponíveis no site https://www.unodc.org/gsh/en/data.html.

    Não defendo as armas de fogo mas defendo a honestidade intelectual e defendo que devemos falar de qualquer assunto com o máximo de informação disponível.

    1. Por acaso leu o link?

      Comparar os EUA com o Brasil, S. Tomé e Príncipe, Costa Rica, Panamá, etc., em vez de comparar com países do mesmo “mundo”, deve fazer parte da honestidade intelectual que defende.

      Mas se são esses os seus padrões, então está bem. Espero que lhe façam bom proveito.

      1. Eu li o link mas parece que você não leu o meu comentário.

        Ou leu e confirma desonestidade intelectual.

        Os números dos EUA demonstram que não só não existe aumento de homicídios como existe redução no número dos mesmos.

        Os homicídios por arma de fogo não aumentaram, estão estáveis e até com ligeira diminuição.

        Torna-se óbvio, para queira ver, que as armas de fogo não representam qualquer aumento de homicídios visto estes terem diminuído.

        Só depois de isto ser claro para qualquer um quanto aos EUA é que eu refiro outros países. E referi por ser interessante analisar se esses países têm leis iguais ou não às dos EUA em matéria de armas de fogo.

        Acredito que você, talvez por desonestidade intelectual, omita os números dos EUA na sua resposta e alegue que eu faço uma comparação que é lateral e não fulcral.

        A realidade é que os homicídios totais e com arma de fogo têm diminuído nos EUA.

        É chato porque não serve os seus preconceitos mas é um facto.

        Continue com a sua religião que eu prefiro a realidade.

        1. Sim, estáveis com uma ligeira diminuição é um óptimo sinal. Já percebi que para si os números actuais e totais das estatísticas dos crimes/mortos com armas de fogo nos EUA são perfeitamente aceitáveis. Diria mesmo normais.

      2. Desonestidade intelectual é a sua Sérgio de Almeida Correia

        Compare o número de mortos por arma de fogo na comunidade Americano-Alemã ou Americana-Sueca nos EUA com os Alemãs e Suecos.

        Esse é o mesmo mundo.

        E depois compare a evolução na legislação da armas com os nível de homicídios.

        Está aqui a evolução radical na posse de arma nos EUA a favor da liberdade. desde 1986.
        https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rtc.gif

        E como ao mesmo tempo o índice de homicídios desceu.

        E desceram em todos os “mundos” americanos.

        Mas os homicídios para aparecer nos jornais numa sociedade mediatizada continuam. Não quer proibir os jornais e as TV’s?
        Mas nem sequer percebe isso.

        Tivemos a reacção pavloviana totalitária que levou aos maiores desastres Europeus.

    2. United States of America CTS
      5,1% 5,7% 4,4% 5,1% 5,8% 5,8% 4,6%

      United States of America (the) CTS
      Firearm % 61% 59% 59% 58% 60% 60% 59% 60%
      Sharp % 12% 11% 11% 12% 12% 12% 12% 11%
      Other % 28% 30% 30% 31% 28% 28% 30% 30%

      Então isto permite-lhe ficar tranquilo? Séries destas são conclusivas?

      Uma média entre 14600 e 19000 mortos por ano é aceitável?

      1. A questão levantada por você é que a venda livre de armas de fogo nos EUA é a razão dos massacres e homicídios.

        O que os números dizem é que isso é falso. Os homicídios têm diminuído e o seu número é bem maior em países cuja a venda de armas de fogo não é livre.

        É sobre isso que emito a minha opinião.

        Podemos discutir tudo o resto mas já é outro assunto que não este.

        1. 14 722, em 2010, 14 661, em 2011, 14 827, em 2012.

          Diminuíram aonde? Qualquer leitor pode verificá-lo. Estes são os números da sua fonte. E não estão lá os de 2013 e 2014.

          Você devia ter vergonha. Ponto final.

      2. O que é que o números de mortos tem que ver com a posse de armas?

        Não lhe interessa responder a essa pergunta porque nem sequer fez a pergunta.

        Porque é que as mortandades são em Escolas e Universidades
        e não nos milhares Clubes de Tiro, onde há centenas e milhares de gente malvada com armas e pior que gosta de armas?

    3. O Brasil não pode ser comparado de nenhuma forma com os EUA. No Brasil existia e existe uma taxa de criminalidade associada a homicídios por armas de fogo. Nos EUA o problema é diferente. Embora o uso de armas de fogo também esteja associado à criminalidade, os casos mais graves estão ligados a massacres e assassinatos que derivam, sem sombra de dúvida, da facilidade em obter armas de fogo, do fascínio do país por armas de fogo e por uma norma constitucional que legitima essa posse de armas de fogo – mesmo que essa norma tenha sido redigida numa altura em que haviam apenas mosquetes e os EUA ainda se sentiam ameaçados pelo imperialismo inglês.

      Na Austrália as leis de posse de armas mudaram radicalmente após um dos maiores massacres associados ao uso de armas e o número de assassinatos por armas de fogo diminuiu drasticamente.

      Negar que a liberdade de posse e a facilidade de compra de armas de fogos está associada ao número absurdo de mortes causada por armas de fogo é, a meu ver, completamente irreal.

      Tão pouco é adequado comparar os EUA, no que toca à taxa de mortes por armas de fogo, a São Tomé, Panamá ou até à Croácia que saiu duma guerra há menos de 15 anos.

      Existem estados com poder federal nos EUA que legislam cada vez mais no sentido de liberalizar a posse de armas e diminuem os entraves à compra de armas.

      Mesmo que se tenha verificado uma redução do número de mortes por armas de fogo nos EUA, facto positivo sem dúvida, não é de todo tranquilizador pois a desregulação mantêm-se e é alarmante. É demasiado preocupante entrar numa escola nos EUA e ter de passar por um detector de metais.

      É demasiado preocupante saber que existe nos EUA uma forte e poderosa associação, a NRA, que impede qualquer controlo mais apertado na liberdade de posse de armas.

      Em suma, o problema é bastante grave e não há ninguém que possa honestamente dizer que a situação iria piorar caso houvesse um controlo mais apertado de posse e compra de armas. Note-se também que quando se fala em armas de fogo nos EUA, estamos a falar de, desde revólveres a armas automáticas.

  3. bom comentario. Diria até que é mais que normal, pois normal é condenar a proliferaçao das armas. O comentario fala tambem em psiquiatria, referindo o Trump. Sim, por um lado temos as armas mais “pesadas”, potenciadoras de carnificinas. Embora com armas “rudimentares” lá, e também cá, sao dizimadas familias. Portanto, temos aqui, o bom senso, de proibir as armas. Supoe-se que tal obrigaria tambem mais individuos a recorrer aos tribunais. Uma especie de paraiso, e a expressao paraiso não é aqui humoristica. Mas sobram os problemas que o Tribunal, digamos, nao abarca. E o Tribunal nao abarca, concretamente crimes que nao sejam publicos. Hoje é noticia um homicida de 77 anos, na quinta do conde, mais um idoso que se passou. Nao sei mais nada deste caso, mas globalmente é mais um idoso que se passou. E portanto acontecem situaçoes na vida das pessoas, que so podem ser resolvidas pelos proprios, e só uma arma de fogo garante o sucesso determinado. Nao conheço estes leitores, por isso acrescento : este idoso de 77anos, e os mais, a maioria nunca antes deu um tiro, e tinha o bom senso comum e ser contra a proliferaçao de armas.

    bom comentario

  4. Só uma nota não está ai a Suiça, em todas as casas de cidadãos suíços existem armas de combate, até esses cidadãos saírem da reserva do exercito altura em que são recolhidas. Seria talvez o país mais interessante de comparar. Mais liberdade que isto é quase impossível, armas fornecidas pelo estado, pois tem de praticar uma vez por ano durante uma semana.

    No entanto, o rácio de homicídio é de 0.49 por 100000 habitantes. A grande questão é que têm formação par ao seu uso ao contrário dos USA. Portanto o problema não são claramente as armas.

    1. Eu diria que não são só as armas, por isso digo que há qualquer coisa que está mal. Mas se não há formação, se têm problemas psiquiátricos ou outros, também não se pode confiar. O seguro morreu de velho e quando em causa estão vidas humanas talvez valesse a pena pensar no assunto.

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