Há palavras que podem matar


Pedro Correia,

A brincadeira – inicialmente muito celebrada nas redes sociais – de dois animadores de uma rádio australiana conduziu ao suicídio de uma enfermeira do Hospital Rei Eduardo VII, em Londres, onde esteve internada a duquesa de Cambridge, que se encontra grávida. Este caso, tão dramático, sublinha uma evidência demasiadas vezes esquecida: a da responsabilidade social de todos os comunicadores, sejam jornalistas ou não. Porque “comunicadores”, nesta era dos internautas, somos todos nós. E há palavras, gestos e atitudes que podem matar.

Os autores do ‘furo’ radiofónico, efémeros heróis à escala planetária, já estão a ser transformados em vilões pela mesma máquina implacável de produção de celebridades instantâneas. Ovacionados ontem, apedrejados hoje. Pelos mesmos que não tardarão em vitoriar outros efémeros ídolos ao virar da primeira esquina, repetindo-se o ciclo de rápida subida aos céus seguido de uma vertiginosa descida ao inferno. Com o mecanismo de sempre: muita exaltação irreprimível e muita indignação efervescente nas redes sociais.

Quase toda esta gente que dispara frases como se fossem tiros ignora que a palavra pode ser a mais cruel das armas. Como ainda agora voltou a confirmar-se.

 

38 comentários em “Há palavras que podem matar”

  1. Muito bem, Pedro. Este caso é exemplar no pior sentido. Espero que sirva de lição quanto à responsabilidade de quem detém este “quarto poder”, que hoje em dia é tão ou mais forte do que o primeiro.

    1. Esta história, Ana, deriva da irresponsabilidade demasiado frequente nos nossos dias por parte de quem usa e abusa de um poderoso meio de comunicação – e usa e abusa da credulidade alheia. Ignoramos ainda pormenores, mas certamente a enfermeira sentiu-se ridicularizada, gozada e violentada na sua mais elementar boa fé: quem não sentiria o mesmo, sobretudo pelo facto de este telefonema recorrendo a falsas identificações ter encontrado eco a uma escala quase planetária? Durante dois dias, um pouco por todo o mundo, não se falava noutra coisa…
      O desfecho da história, que ninguém previu, deve ao menos levar os ‘comunicadores’ a pensar melhor antes de transformar os outros em mero instrumento de diversão geral.

  2. É uma excelente análise, Pedro.

    Ontem à noite, lendo sobre o suicídio de dita enfermeira, dei por mim entre ponderações de critica à trivialidade irresponsável – principalmente dos comunicadores humorísticos; afinal, não terá sido a primeira nem será a última desgraça ocorrida como resultado de “uma brincadeira” – e a responsabilidade pessoal, servindo de bálsamo os actos cometidos pelo individuo serem, nessa estância, da sua máxima responsabilidade.

    Investigando um pouco, acabei por descobrir que ambos os locutores já se tinham desculpado publicamente – antes do suicídio -, justificando-se que nunca esperavam receber informação alguma. Ao que parece existe uma panóplia de medidas e processos que evitam saber-se informações e o próprio paradeiro da família real.

    No fundo, será de imaginar que a brincadeira seria isso mesmo; sendo discutível se seria de bom ou mau gosto. No entanto, nunca poderá servir de ramificação para um acto suicida. Isso é pura e simplesmente um acto sem responsabilidades alheias.

    1. Caro CeC: o suicídio nunca é, ou quase nunca é, um acto sem responsabilidades alheias. E nunca faz apenas um vítima: não por acaso, muitos suicidas são filhos e netos de suicidas (veja-se as biografias de Hemingway e Malraux, por exemplo). Como escreveu John Donne, nenhum ser humano é uma ilha, todos somos parcelas de um vasto arquipélago.

      1. Isso é uma visão demasiadamente durkheimiana, Pedro. E, verdade seja dita, nem mesmo Durkheim exclui a responsabilidade individual sobre os próprios actos – mais propriamente sobre o suicídio.
        Por muito que o Meio; neste caso: a situação, as pressões, etc., criem tendências suicidas, a escolha e a responsabilidade é unicamente do individuo.
        A própria questão que o Pedro menciona –e bem– sobre o suicídio fazer sempre vitimas é a prova nata de que se trata se um acto “egocêntrico”.

        Será conveniente que não se entre num bullying critico, se não houver a capacidade moral para se separarem as coisas.

        1. Sim, o suicídio é um ato “egocêntrico”. Mas não esqueçamos, também, que vem na sequência de um sofrimento insuportável. É não ver horizontes, deixando-nos tão transtornados, que nem sequer pensamos naqueles que deixamos.

      2. Num serial killer também há algo ou alguém que faz despoletar os crimes vai criticar quem a despoletou?
        Numa violação a mini saia tem culpa?

          1. Vamos supor que a enfermeira era homem – muito mais dados a explodirem – e desatava aos tiros ? Acha que o que se passou serve de justificação para tal acto?

          2. Acho que houve aqui uma grosseira violação do direito à privacidade, sem piada de qualquer espécie. Com repercussão à escala mundial. Eu próprio, sem querer, já ouvi quatro ou cinco vezes a voz da enfermeira, atendendo na sua boa fé os dois australianos que se apresentaram com falsas identidades e a gravaram sem seu consentimento previo, pondo logo de seguida no ar a voz dela, para chacota de centenas de milhões de ouvintes.
            É impressionante continuar a ouvir esta voz de alguém que preferiu morrer a continuar a passar pela humilhação a que foi sujeita.
            Tudo é lamentável nesta história. Tudo.

  3. Discordo. É impossível brincar agora?
    A brincadeira não foi nada de especial.
    Se vamos parar ao minímo/máximo denominador comum então não se faz nada nem vivermos sequer.
    Já lá estamos com cada vez menos crianças por casa da obsessão desta sociedade “humanista” sobre civilizada total por zero falhas.

    1. É possível brincar. Desejável mesmo. O que não devia ser possível é gozar o outro. Fazer-se passar por outra pessoa para daí tirar vantagem, não é brincar, é crime.

      1. Abusar da boa fé de uma cidadã desprevenida para atingir um estrelato instantâneo à escala internacional. Não é caso virgem, antes pelo contrário: qualquer emissão alarve de ‘apanhados’ televisivos assenta nesta lógica.
        No fundo, estamos perante erupções de darwinismo social – aqui, especificamente, darwinismo mediático – neste caso com a rádio a servir de trampolim para ditar a lei do mais forte.
        Assim posso resumir esta história tão irresponsável e simultaneamente tão emblemática que projectou dois animadores de rádio australianos para os 15 minutos de fama obrigatória nesta era do vazio global de que falava Andy Warhol.
        Só o suicídio não constava do guião.

        1. Muitas brincadeiras têm como base a boa fé. E depois?
          A história não tem nada de irresponsável.
          Irresponsável é simplesmente o seu delirante e perigoso argumento de que os resultados demonstram a moral da acção.

          Ainda não percebeu que resultados não desejáveis podem resultar de qualquer tipo de acções/resultados?

      2. Qual crime? é uma brincadeira simples sem nada de especial.
        Não se pode gozar o outro??
        É claro que pode dentro de limites aceitáveis que neste caso foram amplamente respeitados.

        Odeiam tanto a Morte que passaram a odiar
        a Liberdade.

        1. Ah, a liberdade. Quantos crimes foram cometidos em nome da liberdade. Ainda há dias falava eu neste blogue em palavras pervertidas, a propósito da palavra progresso.
          Mas nenhuma palavra foi e é tão pervertida como liberdade: nem um só ditador deixou de usá-la. Em Auschwitz, uma inscrição logo à entrada – monumento à hipocrisia mais cruel – proclamava que o trabalho liberta.
          Você fala em liberdade, Lucky. E de que liberdade dispôs afinal esta enfermeira que viu a sua voz reproduzida nas redes sociais de todo o mundo? Que direito elementar à liberdade de se manter no anonimato foi respeitado em toda esta triste e lamentável história?

          1. O meu argumento sobre a liberdade é sobre esta não estar dependente da lógica da exploração da hipersensibilidade para diminuir a liberdade.
            Do Tintin no Congo a muitos outros casos.
            A industria dos ofendidos.
            Como é óbvio não tem nada que ver com Auschwitz.

            Imagine que era uma investigação sobre a segurança da princesa e a senhora ou qualquer outra pessoa era apanhada a não cumprir os procedimentos. E se suicidava. A culpa era dos investigadores? Ou agora já não?

            O direito ao anonimato é um bom ponto. Mas não justifica o que aconteceu.

          2. Lucky, se continuássemos a argumentar, cada qual pelo seu lado, acabaríamos por nos encontrar a meio do percurso e a detectar um ponto de sintonia. Mas fiquemos assim: estão já bem expressos os pontos de vista de cada um.

    2. Estamos a falar de um telefonema para um hospital (não um local de diversão) e sobre um acontecimento que tem dimensão planetária. Qualquer gracejo pode matar. E este matou.
      Com graves responsabilidades dos autores do abuso.

  4. Facto é que ninguém sabe ao certo que problemas já teria a senhora na sua vida que a precipitaram a este desfecho, o que me leva a dizer que associar a partida com o suicídio é demasiado arriscado por desconhecimento de todos os factos.

    1. Concordo. Nada sabemos da vida da senhora. A “brincadeira” pode ter sido a gota de água que fez transbordar a taça. Custa-me a acreditar que tivesse sido a razão principal.

      1. Não sabemos todos os factos, é certo. Tratar-se-ia de uma pessoa fragilizada por algum motivo? Poderia atravessar um período depressivo que outros ignorassem, por exemplo.
        A administração do hospital Rei Eduardo VII elogia-a agora como “excelente profissional”, mas ela poderá ter sido alvo de ameaças internas por ter exposto involuntariamente aquela instituição ao ridículo geral, muito para além das fronteiras do Reino Unido, onde foi alvo de chacota. O certo é que a sua voz foi reproduzida quase instantaneamente à escala universal através da internet. Ela foi apanhada totalmente desprevenida: como é óbvio, não concedeu autorização prévia para o efeito nem estaria minimamente preparada para tamanha exposição pública.
        Sabemos enfim o suficiente para nos interrogarmos sobre os limites do abuso da credulidade alheia e para apelar ao reforço da responsabilidade social dos meios de comunicação. Apenas isto. O que já é muito.

        1. Sim, é verdade que os elogios que o hospital agora faz à enfermeira, publicamente, podem não corresponder àquilo que se passou antes, isto é, num primeiro momento, aflitos com as consequências, podem muito bem tê-la ameaçado. Sabe-se lá o que se passou…

          1. Nos próximos dias mais factos podem ser divulgados. A verdade é que uma vida se perdeu. E os pedidos de desculpa dos ‘disc jockeys’ australianos, por mais louváveis que sejam, não recuperam essa vida.

  5. Tem toda a razão. Tão culpados são os que fizeram como os que se riram. Abomino séries e episódios de apanhados. Não compreendo o riso alvar por causa da humilhação dos outros. Qualquer pessoa que se faça passar por outra está, no meu entender, a cometer um crime. Este teve um fim trágico.

    1. Tratou-se aqui de um ‘apanhado’ à escala global, Xico. Há inúmeras formas de violentar uma pessoa, devassando a sua intimidade e fazendo tábua rasa da sua dignidade profissional.
      Esta, lamentavelmente, foi uma delas. Com desfecho trágico.

  6. Era uma vez neste mundo… A insustentável mediocridade do ser humano. A beleza cretina. E tudo a cretinice levou. A imbecilidade toca sempre, tantas e tantas vezes, nas cabeças de energúmenos. Os energúmenos implacáveis. Energúmenos da perdição. A saga contemporânea, amanhecendo por toda a parte. Agredindo suavemente. Senhores de imbecilidades, numa espécie de irmandade imbecil. Imbecis danados! Imbecis sem lei. Tudo bons imbecis! Há tanto lodo nessas mentes… Do céu cai tanta estupidez, como um apocalipse néscio. A estupidez que renasce tantas vezes… Ondas de estupidez. Amor estúpido. Estupidez mecânica, num fabuloso destino de cretinice. Ladrões de cretinices. Cretinos enraivecidos. Um cretino nunca vem só… As imbecilidades da nossa ira. Este mundo não é só para cretinos.

    1. Vivemos infelizmente num tempo em que a imbecilidade se tornou num eficaz veículo de promoção, Gonçalo. E há toda uma indústria destinada à imbecilização colectiva a incentivar esta engrenagem.

  7. “No entanto, nunca poderá servir de ramificação para um acto suicida. Isso é pura e simplesmente um acto sem responsabilidades alheias.”

    Não concordo.

    E o bullying? E a tortura? E as guerras domésticas? A própria guerra?

    Há inúmeros actos contínuos de terceiros que estão na base de suícidios.

    1. Victor, tem de separar influências ou até mesmo, e se preferir, comportamentos sociais que encurralam as pessoas a cometer actos sem nexo – ou lógica aparente.

      Usando a sua lógica todos somos culpados pelos actos cometidos por um assassino, violador, assaltante.

      1. Lamento, mas continuo sem compreender. Nem faz sentido falar de saias e outros, como se este assunto não fosse demasiado complexo.

        Os comportamentos de terceiros que levam pessoas a cometer suicídios podem ter na sua base uma agressão continuada (física ou moral), dolo, coacção, a questão da eutanásia, etc.

        Nem sempre o suicídio é egocêntrico, pode ter valores biológicos que podem induzir uma pessoa a cometê-lo. Pode ser por negligência. Pode haver uma violência extrema. E por aí fora.

        É que por exemplo no caso do bullying e da violência doméstica trata-se de uma agressão sistemática contra o outro. Pode haver acusação contra um terceiro.

        Aliás, não é à toa que existe a figura do “incitamento ou ajuda ao suicídio” na lei portuguesa e noutros países.

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