Há dias, no Curry Cabral


Teresa Ribeiro,

Acompanho familiar às urgências, com suspeita de AVC. Dois psiquiatras observam-no, recolhem informações sobre o seu historial clínico e medicamentos que anda a tomar, que registam em computador. A seguir passam-no para os colegas de Medicina Geral que, apesar de terem recebido o processo daquele doente por via informática, me fazem as mesmas perguntas.

Decidem interná-lo. No dia seguinte, já na enfermaria, procuro falar com um dos médicos que aproveita para me perguntar que outras doenças é que aquele doente tem e que medicamentos anda a tomar. A evidente falta de partilha de informação entre médicos e serviços começa a preocupar-me pois sei que há medicamentos que o meu familiar, em caso algum, deve suspender. Revelo essa preocupação, mas a jovem médica que me ouve, sossega-me: Traga-os. Se possível ainda hoje ele retoma essa medicação.

No dia seguinte constato através dos enfermeiros que afinal os medicamentos em causa ainda não foram administrados. Peço para falar com a chefe da equipa. Muita simpática, ela começa a dar-me informação acerca da evolução do doente, mas já que está a falar comigo aproveita e pergunta-me: Por acaso sabe que outras doenças é que ele tem e que medicamentos andava a tomar?

13 comentários em “Há dias, no Curry Cabral”

  1. Eu tenho um filho que, por ter sintomas de autismo, anda a ser seguido (já desde há meses) por diversos médicos do hospital Dona Estefânia, e a minha experiência é exatamente a mesma: falta de partilha de informação. Cada médico que o observa contacta sempre de novo com o seu caso. Parece que os médicos não falam uns com os outros, não partilham, não interagem. O progresso é nulo, precisamente por causa disso. Já estou farto de ir lá ao hospital e, de cada vez, começar tudo de novo.

  2. Isto é na realidade assustador. Há alguns meses, depois de ter dado entrada no SU do Hosp. S. João, do Porto e de lá ter passado uma noite inteira em observação, saí de lá com um relatório médico informatizado, no qual a certa altura, referiam que ‘a doente’ depois de observada e medicada, tinha tido alta pelas 02h da manhã, referindo ainda, além disso, uma sintomatologia que nada tinha a ver com o problema que ali me levara… Ora, não tendo eu mudado de ‘género’ (que eu saiba), nem tido alta antes das 8 horas da mesma manhã, confrontei mais tarde por escrito o referido SU, o qual constatou, efectivamente, tratar-se de um erro médico, ao ter incluído no meu relatório passagens referentes a uma senhora que ali estivera também em observação, pedindo-me desculpa por tal facto.
    De qualquer maneira, ficou o registo informático errado e que, numa situação mais urgente, poderia ter tido consequências muito desagradáveis. Há que pedir mais responsabilização e humanização nas relações médico/doente e que aqueles não encarem estes como apenas mais um número a acrescentar às estatísticas.
    As melhoras para o seu familiar, Teresa.

  3. Vamos ao que interessa: o familiar está melhor, Teresa? Quanto ao que se passou, se pensa que o meu queixo caiu, desengane-se. Ou como eu afirmei a uma holandesa há dias em Amsterdão quando ela me disse que gostava muito de passar férias em Portugal… “oxalá nunca tenhas que ir a um hospital, minha querida”.

  4. Tive um médico (do serviço público, Ortopedia do HUC) que me assistiu num problema com alguma seriedade, que costuma dizer: “Eu trato pessoas, não trato doenças”. Se o sistema fosse orientado nessa filosofia, seria tudo mais simples e mais humano.

  5. É assim mesmo, Teresa, infelizmente. Aconteceu com uma pessoa da minha família também que ia morrendo por causa dessa falta de partilha de informação: ninguém se preocupou em passar palavra sobre uma alergia de consequências graves.

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