Vi há dias (finalmente) o mais novo Star Wars: The Force Awakens. O primeiro filme da série desde 1983 (a triologia jarjarbinksiana não conta, o filme da tinta a secar seria mais interessante) não é mau e cumpre a sua principal função: entretem. Há muita gente que se deixa enredar nos disparates metafísicos da saga e esquece que os filmes (mais uma vez, apenas a sequência 1977-83) nada são de especial do ponto de vista formal, mas cumprem fenomenalmente a sua função lúdica. Do ponto de vista cinematográfico o primeiro Star Wars introduziu uma nova forma de contar histórias e ajudou a fazer o cinema entrar numa nova era. Ainda assim, o filme não estava particularmente bem filmado, tinha diálogos atrozes (Alec Guiness arrependeu-se da sua participação o resto da sua vida) e baseava-se em princípios metafísicos que nem os cientologistas veriam como prováveis.
Só que tinha um valor fenomenal: conseguia, de uma forma que até hoje não entendi, criar essa etérea propriedade a que se costuma chamar de suspension of desbelief. Por duas horas suspendíamos o nosso cepticismo (a nossa descrença) e deleitávamos-nos com as personagens criadas para o filme e com as suas respectivas aventuras. Foi a falta dessa qualidade que destruiu qualquer prazer ao ver as sequências I a III, que melhor fariam em ser esquecidas. O novo filme retoma o sabor da triologia original. Fá-lo rejeitando o recurso sistemático ao digital e baseando-se numa linha narrativa simples e cheia de homenagens directas e descaradas aos filmes originais.
Estas homenagens são tão óbvias que nos admiramos que o piscar de olho a Obi-Wan Kenobi só surja no final. Temos o planeta deserto de onde surge o herói (ou heroína, neste caso), Han Solo e a Princesa Leia e Chewie reaparecem. Temos sequências em bares. Temos stormtroopers burros. Um robô simpático e fofinho. Existe uma base que destrói planetas (embora sujeita à fórmula bigger and badder). Há um mau muito mau. Há um chefe do mau muito mau que parece pior ainda. Há um general também mau cumáscobras (que acaba por ser tanto de pantomina que é quase um comic relief do filme). Há ainda outros contrabandistas, umas aventuras paralelas, oportunistas, escroques, uma ou outra alma bondosa e um grupo de rebeldes a tentar salvar a galáxia.
O filme é divertido porque vemos as personagens a salvarem-se por pura sorte em situações que poderíamos aceitar como eventualmente possíveis. Vemos personagens desastradas mas de bom coração. Temos todo o tipo de estereótipo que poderíamos desejar, uma narrativa limpa, amizades a serem criadas, química entre as personagens e um objectivo claro para o final de toda a história. A acção é por vezes excessiva e excessivamente longa (pecados do cinema actual) mas no resto o filme torna-se uma experiência bastante agradável, que nos faz esquecer o tempo que passámos no cinema e nos deixa bem dispostos.
As dificuldades com o filme surgem mais com pormenores que outra coisa. Na série incial, Skywalker aprendia a usar os seus poderes de forma gradual e só ao fim de algum tempo e treino conseguia usá-los de forma eficaz. A nossa heroína parece ser um prodígio de precocidade que ultrapassa as fronteiras da descrença dentro do próprio universo. Outro problema é que Rey parece ser uma mescla de Han Solo e Luke Skywalker numa só personagem. É jedi, piloto, prodígio técnico e herói, além de ter uns truquezinhos sujos na manga. Finn, o sidekick da história, parece ser o novo C3PO. Não é piloto, é um lutador mediano, não tem a Força e a sua função não parece passar a de um mcguffin de carne e osso. Também Poe Dameron ainda parece ser excessivamente superficial e a sensação é que Oscar Isaac se enganou no caminho para o pub, apareceu no set e decidiu filmar umas cenas porque o figurante escolhido estava com febre.
O último aspecto que me incomodou no filme é o do chefe do mau muito mau. No passado tivemos Darth Vader e o Imperador. Havia Bobba Fett, Jabba the Hutt, etc. Nomes esquisitos e por vezes engraçados. Até a triologia Star Trash – the Binks ruins it teve um Dart Maul, um Darth Sidious, um Count Dooku, etc. Neste temos um Kylo Ren – não muito impressionante mas tudo bem e o seu chefe: Snoke. Snoke. Vou escrever foneticamente: Snóuque. Disto a Snokie não vai muito. Nem a Snooke ou Snookie. É o nome que uma criança dá ao peluche com que dorme. Convenhamos que não serve para o tipo que ordena a destruição de dez planetas de uma só vez.
Já Kylo Ren é uma personagem esquisita. É mau e poderoso mas comicamente incapaz e frágil. Esperemos que não volte a remover aquele capacete. É o segredo do mito de Darth Vader e seria mau voltarmos a ter aquela cara de loser simpático de Adam Driver pela frente. Os próximos filmes só teriam a ganhar.
Conclusão: o filme serviu bem como reintrodução ao universo. Deu para esquecer os últimos três desperdícios de disco rígido que nunca deveriam ter saído da sanita de Lucas e entreteve. Espero agora que J.J. Abrams não faça deles o mesmo que fez com os Star Trek: depois de um bom filme de abertura acabou a fazer um filme completamente para esquecer. Deve manter-se fiel ao espírito original e não inventar mais. Sempre que o faz, o resultado é algo lamentável.

Partilho boa parte dos pontos levantados pelo João, na análise que fez do filme (apesar de a mim, pessoalmente, me agradarem especialmente os disparates metafísicos da saga…).
No que ao filme diz respeito, achei que houve demasiado “esforço“ por parte do realizador em mostrar que se estava activamente a desligar da trilogia anterior, daí muita da “colagem“ ao filme original e o medo, levantado por alguns, de que haja como que um repetir da trilogia original, com o próximo Episódio a seguir as linhas d’ O Império Contra-Ataca.
Acho que a saga ter readquirido a tal sensação do “lived in future“ que tanto fez pelos originais, bem como recentrar toda a história de volta às personagens que, desta vez, são de facto “personagens“ na verdadeira acepção do termo, por oposição aos “templates“ que foram criados durante as “prequelas“.
Já agora, apesar de JJ Abrams se manter (julgo eu) como produtor, a realização vai ficar a cargo de Ryan Johnson…
Creio que a minha opinião é a inversa – não gostei deste “Star Wars”, que na melhor das hipóteses me pareceu medíocre, com os poucos momentos em que se ergue um pouco acima dessa mediocridade(praticamente todos pelo desempenho de Daisy Ridley, por mais inverosímil que seja a sua personagem) a serem quase sempre abafados pelos momentos em que se afunda na nostalgia e no disparate. Não há ali qualquer risco, qualquer ambição, qualquer tentativa de elevar aquele universo ficcional acima do maniqueísmo infantil da trilogia original. Abrams segue à risca os passos do filme original de 1977, como que se esquecendo de que já passaram quase quarenta anos – cenários idênticos, personagens idênticas, conflito idêntico. Nada de novo – mas tudo “bigger and dumber” (veja-se a “Starkiller Base”, que no momento em que é revelada e utilizada destrói a pouca suspensão da descrença que me restava), à boa maneira da sequelite aguda que grassa nas produções grandes americanas.
Ao contrário do que possa parecer, esta minha embirração não se deve a ter algo contra o entretenimento pelo entretenimento – bem pelo contrário. Alguns dos meus filmes preferidos dos últimos também foram filmes “big and dumb”, mas com ambição, empenho, ligeireza e estética capazes de os elevar, ou pelo menos capazes de me fazer não olhar com tanta insistência para as suas falhas. Não tendo a nostalgia de infância que muita gente tem (já os vi tarde; gosto do original e de “The Empire Strikes Back”, que considero filmes notáveis e inovadores para o seu tempo), a avalanche de marketing que antecedeu o filme só conseguiu cansar-me em vez de me entusiasmar.
E, diga-se de passagem, o género da “space opera” é tão mais rico e tão mais vasto.
Enfim, resta-me rir à custa daqueles que passaram anos a dizer mal do James Cameron pela falta de originalidade (óbvia) de “Avatar” para agora tecerem loas ao bocejo do Jar Jar Abrams. Ao menos o Cameron conseguiu fazer algo que o Lucas também fez no seu tempo (uma revolução tecnológica no cinema). “Star Wars: The Force Awaken” nem sequer conseguiu ter os melhores efeitos especiais do ano…!