Gringos


José Meireles Graça,

Não vi o debate entre Trump e o snowflake Biden.

Mas com relatos e comentários de amigos, desamigos e consultores de vária pinta, nacionais e estrangeiros, cujos artigos me chegam via internet, foi como se tivesse visto.

Fiz bem em entreter-me com outras coisas. Que é humano, compreensível e inevitável ligar à empatia que têm ou não os candidatos. E o meu candidato é tão transparentemente grosseiro e primário que se torna difícil defendê-lo, e um sacrifício ouvi-lo.

A famosa pergunta “compraria um carro usado a este homem?” foi, parece, usada para castigar Nixon na campanha eleitoral que levou à eleição de Kennedy. E quando muito mais tarde o mesmo Nixon chegou à presidência veio a confirmar com o caso Watergate que comprar-lhe um carro usado era um negócio de alto risco. De Trump, realmente, pode-se legitimamente suspeitar que até o seu handicap no golfe seja uma vigarice, de modo que comprar-lhe um carro também não parece uma ideia muito atilada.

Sucede que Kennedy ficou na memória como o cabeça de uma casa real que os tão igualitaristas americanos nunca tiveram, e o autor de frases grandiloquentes mas ocas (“ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”), ou de desafios espectaculares e empolgantes significando muito e realizando nada (“Ich bin ein Berliner”). Deixou saudades e, fossem outros os tempos, tinha perfil para um D. Sebastião americano. Já Nixon ninguém recorda com saudade, mas foi um excelente presidente.

Mas isto que nos interessa, a nós portugueses? Seja o presidente o Francisco ou o Manuel, estamos condenados a estar do lado americano porque isso é do nosso interesse, e quem quer que seja o ungido sempre as instituições americanas defenderão, com maior ou menor lucidez, o deles. Portugal, um vago país situado algures no norte de África, se é que não está lá para o meio do continente negro, ainda por cima com menos autonomia que a Lusitânia no tempo dos Romanos, significa quando muito a necessidade de insinuar aqui uma ameaça pouco discreta, e ali um aceno com uma mão-cheia de dólares. Os locais borram-se com a primeira, e são muito sensíveis à segunda.

Porém. Porém.  Trump é o candidato do anti bem-pensismo. Não dá nada para o peditório do MeToo, do Antifa, da destruição das universidades americanas pela rasoira do conformismo progressista, da importação de uma imaginária social-democracia nórdica que lhe mataria o dinamismo económico, nem das discriminações positivas que vão instalando, em nome da igualdade, um sistema de apartheid. Nenhuma dessas coisas nem das outras que compõem o ramalhete do esquerdismo travestido de progresso da humanidade que entre nós tem o seu principal representante nos dementes do Bloco e, edulcorado, no PS.

De modo que Biden é o candidato da esquerda portuguesa, acolitada no caso por uma mole de idiotas úteis que julgam que não lhe estão a fazer o jogo; e Trump, dentro do campo democrático, o contrário disso.

É assim que quem, por detestar compreensivelmente o homem, precisar de boas razões, poderá talvez lembrar-se de que: não ganhou o Nobel da Paz mas não bateu o record, que detém Obama, de assassinatos políticos selectivos em países longínquos;  não iniciou guerras nem andou pelo mundo, como os neocons, a despejar bombas com o louvável propósito de converter os bombardeados à democracia; estabeleceu boas relações com ditadores que não deixariam de o ser se as relações fossem más; identificou a ascensão da China como o principal problema do futuro, com isso alertando salutarmente as democracias; deu passos sérios para a paz no Médio Oriente e na península coreana, ignorando os avisos de peritos em geoestratégia fajuta; tentou desvalorizar a Covid, que cedo intuiu não ter a perigosidade que vários interesses racionais e medos irracionais lhe conferem, procurando evitar que os danos colaterais fossem maiores do que os propriamente ditos; e combateu o Estado regulamentar, um cancro que mina as economias.

Era melhor se abandonasse o Twitter, não falasse de improviso, contratasse uma boa equipa para lhe redigir discursos, guardasse as gabarolices para o grupo de amigos em Mar-a-Lago e jogasse mais golfe.

Mas é o que há. Podia ser pior. Como Biden, por exemplo.

19 comentários em “Gringos”

  1. Há muita gente cá no burgo a dizer-se órfã nestas eleições americanas, mas dá para perceber à légua que até serão capazes de improvisar uma urna lá em casa só para poder “votar” no candidato que se diz contra o MeToo, o Antifa, a destruição das universidades americanas e a importação de uma imaginária social-democracia nórdica. e que pelo menos é a favor de uma coisa: da supremacia branca e isso já não é pouco…

    E quanto ao “estamos condenados a estar do lado americano” cada um fale por si.

    1. Está bem endoutrinado pelo jornalismo Marxista que se faz por cá.
      Pelos vistos apoia o Racismo Marxista, a discriminação racial sistémica e institucional contra Asiáticos e Brancos. Assim como a violência política generalizada apoiada pelo Partido Democrata e seus jornalistas.
      Sem esquecer os ataques à liberdade de expressão.

      A supremacia branca agora incluí agora Judeus, um dos seus genros, Don King um dos seus velhos amigos dos tempos dos espectáculos de box e muito outros.

      Foi bem endoutrinado pelo jornalismo Marxista com a papinha já feita na sua cabeça.

      lucklucky

      1. Jornalismo Marxista, com letra maiúscula e tudo, em jornais pertencentes a grupos económicos é novidade, é o que se pode arranjar. No correio manha lá aparecem, como é que é o contrário de marxista ?, a dez paus à hora e sempre vão escrevendo, morto à paulada com um ferro, assassinado com um ferro de engomar em cozinha, ainda chegou a ver o fogo a arder e mais uns crimes de pedófilos, mulheres bêbadas e homens alcoolizados. e umas tantas páginas de gajas me ligue e bruxos katungas, mas tudo cristãmente que é o contrário de marxistamente.

  2. Entre pessoas bem falantes, com bom feitio e mau carácter e pessoas que dizem algumas asneiras, com mau feitio mas bom carácter, prefiro sempre estas últimas. Principalmente se não tiverem invadido países e semeado o caos noutros, se não tiverem aberto guerras ao sabor de interesses obscuros e se, com isso, tiverem tirado o pão da boca ao complexo militar-industrial, que tudo faz para as demover, desde tentativas de impugnação pueris até ao financiamento do terrorismo interno protagonizado por Antifa e BLM.

  3. De facto não há palavras suficientes para vituperar Trump!

    Então o gajo até se atreveu a substituir uma juíza morta em vez de aprender com a dupla Costa/Marcelo a substituir um juiz vivo.

  4. “O novo normal socialista é isto: indignem-se com o Trump. Não se metam com o PS. Não façam perguntas porque perguntar ofende.”
    (Helena Matos no Observador).

  5. O nosso grande e eloquente presidente Trump certamente influenciará as feministas no corte de cabelo, que muita inveja lhes deve causar.

    Se Trump contratasse alguém para fazer as mensagens no twitter seria cair na onda bem-pensante de fajutos.

    O mundo precisava e precisa de Trump. Ele é um bom rapaz. Quem não gosta do estilo dele é porque gosta de teatrices e capelinhas.

    Eu compraria a Trump um carro usado e dir-lhe-ia que era para oferecer aos bem-pensantes.

    O nosso presidente Trump, graças a Deus, salvou-nos do 5G chinês. Espero que ele continue a governar-nos, para que o povo se sinta seguro.

  6. Trump é um grunho que só pensa em si. Não é contra os Antifa nem a favor do mercado. Não chega a ser racista porque a só pensa nele, quer lá saber se os outros são iguais ou diferentes.

    Diz a mensagem que vende, tira o dele e mente para ficar no poleiro o maior tempo possível. Se no processo escaqueirar a América e o mundo, é lhe indiferente.

  7. “E o meu candidato é tão transparentemente grosseiro e primário que se torna difícil defendê-lo, e um sacrifício ouvi-lo.”

    Porém, a palavra é a principal ferramenta dos políticos. Por isso, deixe lá essa higienização para si e constate-se a realidade.

    E a realidade é simples. Um presidente que afirma à boca cheia que não vai aceitar os resultados eleitorais, usando como justificação uma falsidade (palavras do próprio director do FBI, por ele nomeado). Um presidente que não se desmarca da extrema-direita dos Proud Boys, nem dos doidos varridos das conspirações do QAnon. Um presidente que sistematicamente se esconde no sistema judicial para não mostrar as suas declarações fiscais (com o “Supreme Court” controlado pelos republicanos e a dar cobertura aos desejos de Trump). Um presidente que promove medicamentos sem que a sua equipa os considere relevantes. Um presidente que incentiva à divisão do seu próprio país.

    Poderia continuar com os exemplos, mas estes já serviriam para alguém com decência se demarcar de Trump.

    “De modo que Biden é o candidato da esquerda portuguesa”
    Deve estar a sonhar. Biden de esquerda? A escolha é simples. É entre um escroque e o outro. Se a esquerda portuguesa escolhe o outro, isso só dirá alguma coisa sobre a direita.

    Para mim, é claro. Se fosse em Portugal, José Meireles Graça votaria no Trump. Não precisa de ir longe. Tem o Ventura do Chaga para a versão saloia do Trump.

    1. A diferença entre o reality show Trump e o bracejante Ventura está no dinheirinho e no cabelo.
      Um tem o seu cabelo penteado com laca o outro tem uma peruca de rufia aciganado.
      Se o perucas fosse doutro lado, levava tantas por causa do penteado que preferia mostrar a calvície que Deus lhe deu.

  8. Quem acompanhou os prémios Nobel de 2009, com certeza percebeu que Obama o ganhou por estar na moda. Fazia parte da pop culture, tinha estilo, graça e foi uma lufada de ar fresco na política e sociedade americanas, que rejubilou, e bem, com a eleição do primeiro presidente negro. Provavelmente foi por isso mesmo que ganhou o prémio, porque um país que há 40 anos segregava por raça, elegeu um presidente negro.
    Mas duvido que tivesse ganho, se fosse sugerido em 2013, ou 2014. Pois em termos de paz, pouco fez. Não conseguiu criar pontes, apesar das tentativas, não promoveu governos democráticos em nenhum lado a que se propôs e acaba por lavar a cara, insensatamente, ao retirar do Iraque antes do tempo.
    Depois, embalado pelo prémio que recebeu, resolveu ser o presidente do mundo, em vez de ser o presidente dos americanos. Obama fez mais pela economia e pelo mercado de trabalho da europa, da China, do México e do Canadá, do que algum dia fez pelo seu país. O resultado está bem à vista, a eleição de Donald Trump. Foi Obama quem mais contribuiu para a sua eleição, pois durante os seus 8 anos de poder centralizou atenções para os grandes estados, tipicamente snob e depauperou os outros. Retirou capacidade de concorrência às empresas americanas, incapazes de lutar competitivamente com os produtores outside the USA, que inundaram o mercado a coberto de políticas de isenção tributária, que nenhum país praticava aos produtos americanos. Logo, as empresas americanas sediaram-se na China, na europa de leste e no México. O americano perdeu o emprego e teve de se contentar com o Obamacare.
    Até que chegou este. Marimbou-se para os outros, protegeu o interesse americano, taxou os produtos estrangeiros, tal como os estrangeiros continuaram a taxar os americanos. Criou emprego e fomentou a criação de emprego próprio. Não é popular fora dos USA. Claro que não. Acabou com a mama da europa, da China e do México. As empresas americanas que abandonaram o país, para se fixarem noutros países e largaram os trabalhadores americanos à sua sorte, foram obrigadas a regressar. Seduzidos por uma política fiscal mais competitiva e com o receio de serem taxados à entrada da fronteira. Trump protegeu os americanos e os interesses americanos, só isso. Obama habituou-nos mal. Era um fixe para fora e um elitista para dentro. Gratamente protegido por uma CS que o elevou a deus. Mas no midwest, nos estados do sul e naqueles mais afastados do turismo e da indústria do entretenimento, que lhe serviu e ainda serve de propaganda, foi um miserável. E prova disso é que Trump ganhou, precisamente nesses estados.
    Podemos não gostar da forma, mas no fundo, o americano médio, que trabalha, vive do seu rendimento, aspira a subir na vida e paga impostos, ganhou mais com Trump do que com Obama.
    E continuará a ganhar mais com Trump do que com Biden, por incrível que pareça.

    1. “Podemos não gostar da forma, mas no fundo, o americano médio, que trabalha, vive do seu rendimento, aspira a subir na vida e paga impostos, ganhou mais com Trump do que com Obama.”

      E baseia-se em quê para afirmar este dogma?

      A realidade é que Trump baixou os impostos para os muito ricos. São esses os americanos médios?

      Ou será o americano médio aquele que exporta a soja que produz e que viu o negócio afundar devido à guerra com a China que Trump comprou?

      Ou será o americano médio aquele que passou a pagar mais pelos bens importados, por causa dessa mesma guerra?

      Ou serão os trabalhadores da BMW nos US, onde está uma das maiores unidades de produção da BMW, que viram os seus postos de trabalho em risco porque o inteligente Trump queria meter um imposto nos carros europeus?

      Ou talvez seja a indústria de transformação do aço, que viu a sua matéria prima aumentar de preço à conta das tarifas do Trump.

      Ou serão os consumidores de telecomunicações esses americanos médios, que viram os preços aumentarem e a qualidade baixar devido à menor competitividade trazida pelo fim da neutralidade da net e da redução do número de operadores, algo levado a cabo pela FCC nomeada por Trump?

      Já chega? Ficamos a aguardar ansiosamente pelos contra-exemplos.

      1. Alguém está equivocado. Em primeiro lugar, esta administração não taxa veículos apenas porque são europeus. Isso é uma falácia enorme. Passaram a taxar os veículos, europeus ou americanos, que são fabricados fora dos US. As marcas americanas que nos últimos anos abandonaram Detroit e deixaram a cidade falida, para abrirem as suas fábricas no México, também passaram a ser taxadas. Resultado, regressaram à América, mais precisamente a estados onde os números do desemprego eram enormes. O ridículo, é que a europa taxa tudo o que é americano, desde os carros, aos iphones. Aquilo que aconteceu foi apenas a aplicação de medidas idênticas às aplicadas na europa. Como disse, os europeus adoravam Obama, pois Obama era um pai. Não taxava os produtos europeus, mas via os europeus taxarem produtos americanos e estava muito bem com isso. Só falta dizer que os americanos são todos estúpidos para votarem no Trump, só para não assumir a miserabilidade dos mandatos Obama.
        Hoje, qualquer americano que arrisque criar o seu próprio negócio tem imensos incentivos. A iniciativa privada nunca teve tanto impacto na economia americana, desde o início dos anos 60.
        Essa frase feita de os grandes empresários serem os maiores beneficiados é outra subversão dos factos. De facto as grandes empresas viram a sua carga fiscal diminuir, mas foi uma diminuição igual à de todos os outros. A diferença é que faturam mais, logo, os números do benefício fiscal são maiores. Mas em termos de comparação com as receitas de pequenos empresários, é igual.
        A questão é que com a equidade entre taxas de import/export, o mercado americano passou a conseguir pressionar os mercados a reduzirem as taxas. Porque convenhamos, não é justo um país não cobrar a taxas a outros que as cobram.
        A discussão sobre se ganham mais ou menos, é relativa. Passam de facto a pagar mais por produtos importados, mas ao mesmo tempo vêem os seus próprios produtos serem exportados com taxas mais reduzidas, fruto dessa mesma pressão. Para não falar na redução significativa dos impostos internos.
        Se pesquisar, verificará que a taxa de desemprego baixou consideravelmente desde 2016. Obviamente que não pode contabilizar 2020 pelas razões óbvias. É uma questão de números e os números estão do lado de Trump. Não será por acaso que Biden evita a discussão sobre economia e emprego, para bater na tecla do covid. É o único assunto onde poderá ganhar pontos.
        Sobre telecomunicações, a missa ainda vai no adro. A batalha com a China ainda não chegou ao fim, sejamos sérios, a balança comercial nesse mercado andou durante anos a pender para os asiáticos. Prevê-se que pelo menos equilibre. A Apple, concorrente maior do mercado chinês, mata-se para ser competitiva com as empresas asiáticas. Porquê? Porque não consegue introduzir os seus produtos naqueles mercados, que estão fechados e cuja concorrência é desleal, mercê das taxas aplicadas. Na europa igual. Abrem-se as portas à china, com isenções absurdas e taxam-se os produtos americanos inexplicavelmente.
        Ou seja, a América de Obama era a ama do mercado mundial, hoje tende a deixar de ser. O Novo México por exemplo levou um impulso enorme com estas medidas, pois centenas de empresas que abandonaram a produção nos US, regressaram. Continuam a empregar mexicanos, que todos os dias cruzam a fronteira para trabalhar. Os quais ganham melhores salários, para além de combater o desemprego em alguns condados do estado.
        É só pesquisar, mas sem preconceito e juízo de valor.

      2. “A realidade é que Trump baixou os impostos para os muito ricos. São esses os americanos médios?”

        A realidade é que Trump baixou os impostos às empresas (Corporate Tax) e, como ele próprio disse, as medidas fiscais de 2017 não foram boas para ele pessoalmente.
        E os relatórios de impacto dessa medida sobre as famílias foram, segundo o CEA
        “We also study the impact of this growth on average household income and again find that the average household would, conservatively, realize an increase in wage and salary income of $4,000. Additional elements of the Unified Framework, including changes to individual income tax rates, may deliver further increases to household income, combatting a longer-term stagnation.”
        Esta súmula do CEA (Council of Economic Advisers) foi confirmada por outros e, aliás, está abaixo do que fôra previsto em 2005 no tempo de George Bush (The President’s Advisory Panel on Federal Tax Reform, 2005).

        Portanto a conclusão é que o americano médio beneficiou com Trump.

        O resto dos exemplos que dá, para não perder muito tempo, agrupam-se em duas categorias:
        1ª Os que são totalmente desmentidos pelas estatísticas do emprego (sob Trump o desemprego manteve-se em 3,5 3,6% até à pandemia em que teve uma subida brutal para 14,3% e logo iniciou uma recuperação estando agora já abaixo de 8% (é bom comparar com países desenvolvidos europeus).

        2ª Os que derivam de Trump ter escolhido afrontar as políticas expansionistas da China.
        Claro que “Alguém” está em profundo desacordo se é que não lhe dói o sapato mas eu – falo apenas por mim porque nem tenho procurações nem estou engajado em nenhuma organização – eu, como dizia, agradeço a Trump ter despertado o mundo para essa ameaça.

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