![17930858_sZ0Qn[1].jpg 17930858_sZ0Qn[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2015/20804178_q1ZL2.jpeg)
É a história de um homem e um cão. Companheiros inesperados no combate à inclemência da natureza na imensidão do Alasca invernoso. Uma história descrita por um antigo aventureiro do Yukon na época da caça ao ouro, alguém que fazia questão de tudo experimentar antes de escrever, alimentado por aquela pulsão existencial a que já Camões aludia ao cunhar uma expressão que legou para sempre à língua portuguesa: saber de experiência feito.
Caminham ambos, homem e cão, com a urgência de quem sabe ou pressente que a parcela do destino que lhes coube em sorte pode esgotar-se a qualquer momento. Inexperiente naqueles trilhos agrestes, o indivíduo de quem nunca saberemos o nome cometeu a imprudência de se fazer às traiçoeiras rotas da neve sem se fazer acompanhar pelo menos de outro homem: a solidão, naquelas paragens, pode significar uma condenação antecipada à morte.
O cão segue-o sem vontade, com um temor ancestral pelos misteriosos elementos brotados do céu ou das entranhas da terra que ser vivo algum conseguiu domar desde a primeira madrugada ocorrida no planeta.
A temperatura nunca ali tinha sido tão baixa. Estavam mais de 50 graus negativos, como o homem descobriu ao verificar que o cuspo congelava no ar antes de atingir o chão. As bolachas com bacon que lhe serviriam de almoço estavam envolvidas num lenço por dentro da roupa, em contacto com a pele: só isso evitava a sua transformação em gelo.
Deviam chegar a um acampamento, já junto à zona índia, por volta das seis da tarde.
O maior perigo eram os regatos que continuavam a brotar sob finas camadas de neve e por cima do gelo acumulado sobre os ribeiros – armadilhas em que se enterravam os incautos.
«Normalmente a neve que cobria os charcos ocultos formava uma depressão e tinha uma aparência granulosa que anunciava o perigo. Uma vez mais, porém, salvou-se por pouco; e, de outra vez, suspeitando do perigo, obrigou o cão a ir à frente. O cão não queria avançar. Resistiu até o homem o empurrar para a frente e atravessou rapidamente a superfície branca e lisa. De repente ela cedeu, deslizou de lado, mas o animal conseguiu alcançar terreno mais firme. Tinha molhado as patas dianteiras e as pernas, e a água que as cobria gelou quase de imediato. O cão fez esforços frenéticos para lamber o gelo das pernas, depois tombou na neve e começou a morder o gelo que se lhe formara entre os dedos. Era uma questão de instinto. Permitir que o gelo se instalasse era magoar as patas. Não sabia disso, limitava-se a obedecer ao impulso misterioso que surgia das profundezas do seu ser. Mas o homem sabia, por ter reflectido sobre o assunto, e retirou a luva da mão direita para o ajudar a libertar-se das partículas de gelo. Não expôs os dedos mais do que um minuto, e ficou surpreendido com a súbita rigidez que se apoderou deles. Estava mesmo frio. Calçou depressa a luva e começou a golpear furiosamente a mão contra o peito.» (Tradução de Ana Barradas, A Fogueira e Outros Contos, Antígona, 2004).
Eles caminham sem cessar. E nós, leitores, caminhamos com eles, guiados pela sedutora prosa de Jack London, incomparável narrador de pequenas e grandes odisseias do ser humano. À medida que avançam, vamos sentindo frio também. E passamos fome. E sentimos a silenciosa opressão desse vasto oceano de neve que é o Alasca. E percebemos, como só nestas circunstâncias extremas se percebe, como é frágil a nossa condição e desigual a nossa luta contra os arbítrios da natureza.
Ainda há tempo para acender uma fogueira que lhes permitirá o aconchego de um breve repouso acompanhado de uma refeição destinada a restaurar-lhes as forças. O homem guarda os fósforos como se de um tesouro precioso se tratasse: sem eles a condenação à morte está garantida.
Mas havia que retomar o trilho.
«O cão, desapontado, não queria abandonar a fogueira. Aquele homem não sabia o que era o frio. Possivelmente todas as gerações dos seus antepassados desconheciam o frio, o frio verdadeiro, o frio a cento e sete graus abaixo de zero. Mas o cão sabia o que isso era; todos os seus antepassados sabiam e ele herdara esse conhecimento. E sabia que não era boa ideia expor-se à intempérie num frio tão intenso. Era a altura de se anichar num buraco na neve e esperar que uma cortina de nuvens se entrepusesse entre a terra e o espaço exterior de onde vinha aquele frio.»
Nós, privilegiados, testemunhamos tudo.
Testemunhamos aquela trepidante luta pela sobrevivência em que cada minuto conta. Testemunhamos o diálogo mudo entre o indivíduo que trava o seu primeiro e talvez último combate longe das rotas da civilização e o descendente de lobo cujos ancestrais haviam trocado o amparo solidário da alcateia pelas incertezas do convívio com a espécie humana. Testemunhamos a humilde sabedoria do cão contrastada página após página com a arrogante intrepidez do homem nesta travessia iniciática que simboliza afinal a nossa frágil jornada à superfície da terra.
Nenhum escritor como Jack London (1876-1916) soube escrever tão bem sobre animais em contos e novelas que cruzaram a infância e adolescência de sucessivas gerações de leitores — inesquecíveis são obras como O Filho do Lobo, Colmilhos Brancos e O Apelo da Selva (cito os títulos portugueses das editoras Civilização e Publicações Europa-América, pioneiras na divulgação entre nós deste notável autor californiano, que tanto influenciou a literatura norte-americana do século XX).
A Fogueira — To Build a Fire, no título original — teve uma versão inicial, mais sucinta e destinada a um público juvenil, publicada em The Youth’s Companion, a 29 de Maio de 1902. Mas a que passou à posteridade, dotada de inegável força alegórica, surgiu apenas em Agosto de 1908, impressa em dez páginas da revista The Century Magazine. É mais longa, mais rica em detalhes e com um desfecho diferente.
Este conto — que ganha em ser lido no Inverno — condensa todas as virtudes de London como prosador: o poder de recriar atmosferas com um vigor descritivo incomparável, a capacidade de captar a atenção do leitor desde as primeiras linhas e o sortilégio de uma escrita fluida, capaz de articular na perfeição conteúdo e forma.
Herman Melville rasgou estradas na prosa de ficção norte-americana, Mark Twain abriu-lhe cruzamentos e Jack London traçou-lhes múltiplas veredas com projecção universal. Como fica bem patente neste conto — assombrosa parábola do homem no confronto ritual com a natureza, herói anónimo num combate sempre desigual, Sísifo condenado a erguer-se a cada adversidade mesmo com a certeza antecipada de que a morte será o fim.
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Anteriores contos desta série:
Missa do Galo, de Machado de Assis
Uma Simples Flor nos Teus Cabelos Claros, de José Cardoso Pires
Circe, de Julio Cortázar
Natal, de Miguel Torga
Desatolado, de John Updike

Na versão chinesa o homem sobrevive e é o cãozinho que acaba na fogueira.
Como se chama esse conto? Cachorro quente?
«Testemunhamos a humilde sabedoria do cão contrastada página após página com a arrogante intrepidez do homem nesta travessia iniciática que simboliza afinal a nossa frágil jornada à superfície da terra» – excelente frase, Pedro! Linda!
Nunca dominaremos a Natureza! E ainda bem…
Muito obrigado pelas suas palavras, Cristina. Este é um belíssimo conto – obra-prima a vários níveis e também pela originalíssima perspectiva da psicologia animal (ainda mais para a época em que foi escrito, há mais de cem anos).
Faz hoje 20 anos que Adolfo Correia da Rocha, com o pseudónimo de Miguel Torga, faleceu.
Ficámos, todos mais pobres.
É verdade. Faz hoje 20 anos dediquei-lhe um pequeno texto de homenagem póstuma num jornal onde então escrevia. 29963.html
E cá está este também, aqui do DELITO, evocando o grande escritor transmontano de que sempre gostei:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/59
Em 2006 tive ocasião de visitar a humilde casa onde nasceu e viveu Torga, em São Martinho da Anta, concelho de Sabrosa. Foi um momento emocionante conhecê-la por dentro depois de a ter conhecido primeiro através dos largos fragmentos que nos foi revelando na sua obra.
Há vinte anos!! Lembro-me!! Torga foi um personagem singular, e sempre superior ao escritor, que era um gigante com mãos de pedra!! Resgatou Eurídice, não por bondade ou justiça, mas, e apenas, por disputa com Hades e Orfeu. Recolheu o ninho de vicente e, desde então, teimaram juntos. Servos um do outro e, em conjunto, de toda a criação!!
As últimas coisas que lhe li, os diários, tinham um registo algo desencantado, mas esse é, porventura, o peso da realidade que acresce ao peso das pernas. E muito mais e tudo. Torga e London, bichos e homens. Apenas aos primeiros se pode permitir o que será pecado aos segundos!!
Ficámos, caro Fernando Torres, todos, na minha aldeia, mais ricos!! (não estou certo de qual o mais traduzido escritor português, mas julgo ser entre Torga e Lobo Antunes…curiosidades, da aldeia)
Um bem haja e de boa memória,
Torga é autor de um dos mais belos livros da literatura portuguesa relacionados com animais. Um livro de contos chamado ‘Bichos’. Não sei se consta actualmente dos currículos escolares: julgo que não, mas devia constar. É um excelente livro de contos – de “histórias”, como se diria numa apressada tradução do inglês, mas neste caso com pleno cabimento.
Outro livro excelente – também de contos, também com animais – é a ‘República dos Corvos’, de José Cardoso Pires.
Sem dúvida, caríssimo Pedro Correia, e por isso, precisamente por isso, um gigante com mãos de pedra. Há determinadas revelações do sensível que apenas estão ao alcance de gigantes com mãos de pedra.
Eu presumia que bichos ainda fazia parte do curriculum escolar, se assim já não for lamento por todos os alunos!!
Também muito apreciei a República dos Corvos, mas Torga é um Helenista, as suas circunstancias são as de sempre, da grande história universal, razão pela qual, arrisco, os seus contos perdurarão por mil anos. O José Cardoso Pires viveu mais constrangido pelas circunstancias do seu tempo.
Um grande bem haja,
Eu é que agradeço as suas palavras tão bem fundamentadas, caro Justiniano.
Ler estes textos faz-me bem. São como aquele aperitivo que funciona realmente e deixa a boca a aguar pela sequência de pratos descritos com requinte no menu apresentado.
Um tanto embaraçada, confesso que só li três livros do autor e há já muito tempo. Sei também que o Contos Fantásticos, que me deliciou, ainda é um dos meus livros de eleição sempre que quero dar um presente especial.
Sou um leitor de Jack London desde que me lembro, Dulce. E as obras dele sempre tiveram um lugar de destaque na minha biblioteca. andes-romances-13-6523861
Não hesito em considerá-lo um dos melhores escritores norte-americanos de todos os tempos. E um autor fundamental da literatura do século XX.
Também já lhe dediquei um texto na minha série Grandes Romances:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/gr
“A solidão, naquelas paragens, pode significar uma condenação antecipada à morte.”
E pode mesmo. Aconteceu em 1992 a Christopher McCandless, também no Alasca, e pode ser lido e visto no ‘Into the Wild’, de Jon Krakauer e Sean Penn, respectivamente.
Vai ser muito difícil arranjar este livro do Jack London, mas vou tentar…
🙂
Antonieta
Lembra muito a propósito esse filme de Sean Penn que tanto me deslumbrou, Antonieta. Esquecemos demasiadas vezes, no ilusório conforto da nossa “civilização”, que no limite estamos à mercê da natureza – e que esta tanto pode ser mãe como madrasta.
Uma lição que não tem data, daí a força alegórica deste conto: é sempre actual.
Este livro é uma edição irrepreensível da Antígona, com excelente tradução (mais uma) de Ana Barradas, que também seleccionou os contos, todos publicados originalmente em jornais e revistas (havendo um póstumo, de 1919). Há outro, neste volume, que bem merece também a designação de obra-prima. Talvez ainda venha a mencioná-lo nesta série.
Mas o próximo é de uma senhora de que muito gosto: Rosa Montero. Felizmente viva. E bem viva.
Espero que seja aquele em que estou a pensar, mas se for outro não faz mal: gosto de tudo o que ela escreve.
Que não demore muito, por favor, Pedro.
🙂
Antonieta
Não vai demorar, Antonieta. Só tenho de o reler. Estes textos exigem dois pontos prévios: a sedimentação na memória e uma releitura para confirmar (ou contrariar) impressões antes recolhidas.
É um exercício intelectual estimulante. E mais fácil, obviamente, do que na série Grandes Romances, que exige a releitura do livro inteiro.