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Um homem acossado num quarto que não é seu aguarda com crescente impaciência o desenrolar das horas. Terá um encontro com outro, integrado na mesma rede clandestina, quando a noite se abater sobre a cidade envolta em nevoeiro. Mas afinal aquela noite, aquela névoa densa, são mais que isso, como um leitor atento rapidamente perceberá: são poderosas metáforas de um país asfixiado por uma ditadura.
Nisto se resume Nevoeiro na Cidade, o conto inaugural de uma das mais notáveis obras portuguesas do género: O Dia Cinzento e Outros Contos (1944). Bastaria este livro para consagrar o seu autor, Mário Dionísio, entre os melhores prosadores do nosso século XX, tão fértil em efémeros valores literários – à época enaltecidos em função de simpatias ideológicas ou clubismos políticos – que hoje são simplesmente ilegíveis.
Como tantas vezes sucede com obras que acabam por transcender o contexto em que foram escritas, o livro foi acolhido com reservas e frieza pelos próprios cultores do neo-realismo, corrente estética em que Dionísio se integrava. Criticaram-lhe a prosa despojada, a economia de meios, o olhar quase fotográfico, a aparente ausência de estilo – «esse estilo que, para lembrar um dito célebre, rangia em muitas obras como as botas novas de um noivo de aldeia e que era preciso começar por destruir», anotava o autor em prefácio à quarta edição d’ O Dia Cinzento (Publicações Europa-América, 1977).
Todos estes críticos foram incapazes de captar o essencial: aquilo que contestavam em Dionísio era afinal o mais sólido e perdurável da sua obra.
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«Não havia sol há muitos dias. Uma luz fosca velava, por ali abaixo, a massa acidentada dos telhados, tufos de árvores, algumas ruas já com luz. Tudo impreciso e distante. Mesmo os telhados mais próximos, a torre da igreja, se esbatiam na névoa. E, dentro de casa, havia uma outra névoa que encobria as pessoas. As deformava, as isolava.»
Neste conto, como acontece em poucos outros, a atmosfera é tão forte e tão sugestiva que acaba por tornar-se o próprio motor da história. Em mais de um sentido da expressão, pois Nevoeiro na Cidade é um produto exemplar daquilo que noutros tempos se chamou literatura engagée – uma literatura comprometida com a sua época e que faz desse compromisso a sua causa justificativa acima de considerações estéticas. Como Dionísio admite no prefácio, o objectivo era contribuir para a transformação do mundo. «Entre escrever um livro e preparar uma manifestação, distribuir a imprensa clandestina e cumprir qualquer outra tarefa de organização ou agitação não havia diferença apreciável.»
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Vivia-se o auge da guerra, vivia-se o auge do salazarismo, lutar era um imperativo cívico, escrever sem esse fito era um luxo quase imperdoável. Para conferir um selo de urgência acrescida à sua escrita e contornar simultaneamente as malhas da censura, Mário Dionísio (1916-1993) atribuiu na versão original de Nevoeiro na Cidade nomes franceses às suas personagens: Edmond, Louis, Evelyne, Suzanne.
A ideia era ocultar sob os bastidores da resistência ao regime de Vichy na França ocupada a acção das redes comunistas clandestinas em Portugal. Augusto Abelaira viria a fazer algo semelhante quase década e meia mais tarde no seu romance A Cidade das Flores, ao utilizar Florença como disfarce da Lisboa de Salazar.
Dionísio desfez o ardil na segunda edição d’ O Dia Cinzento – datada de 1967, com alterações e ampliações de diversa ordem -, quando a censura se tornou menos severa. Sem deixar de se surpreender com o facto de alguns dos leitores supostamente mais inteligentes da primeira versão do conto mal tivessem entendido que a cidade nunca nomeada no original cenário francês era afinal Lisboa. Uma incompreensão que entroncava com outra das críticas que na década de 40 lhe fizeram à esquerda: enquanto a esmagadora maioria dos autores da primeira corrente neo-realista optava por temáticas rurais, também para melhor iludir os censores, em O Dia Cinzento não há marcas de ruralidade. Nisto Dionísio é precursor, como o é também na sua linguagem adaptada a um olhar cinematográfico, que viria a influenciar vários autores. Um deles, José Cardoso Pires, reconheceria sem rodeios que este livro contribuiu para a sua «formação de escritor».
Os neo-realistas como Mário Dionísio escreviam sobre um mundo a preto e branco que era o da sua geração. Talvez por isso, Nevoeiro na Cidade pode também hoje ser lido quase como um thriller: há nele ambiências de filme noir – a tal ponto que admira como é que este conto nunca foi transposto para um guião cinematográfico.
Os tempos alteraram-se, as correntes estéticas também. Mas confesso que é sempre com emoção que regresso a este livro, a esta história, a este parágrafo inicial: «Os dedos grossos passaram no trinco, no buraco da chave, na lingueta. Só depois empurraram a porta devagar. O fecho estalou.»
A política muda, a literatura subsiste. Haja nevoeiro ou haja sol.

Excelente esta tua série sobre um dos meus géneros literários de eleição. Quanto a Mário Dionísio, bastaria essa frase que citas “esse estilo que, para lembrar um dito célebre, rangia em muitas obras como as botas novas de um noivo de aldeia e que era preciso começar por destruir”, para defini-lo como um autor que sabe o que vale. A ausência de artifícios, em literatura, é o mais difícil de conseguir.
Obrigado, Ana. Essa frase, de facto, é tão expressiva. E tão certeira.
Depois dos atribulados dias que no Delito, aconteceram, é gratificante encontrar Mário Dionísio.
Os dias não são apenas literatura mas é, possivelmente, o tema que permite comentários serenos, mesmo que não se concorde com o que se lê, o que não é o caso do seu “post”.
A postura de Mário Dionísio em relação ao neo-realismo, problemática que, felizmente, digo eu, não alberga consensos, deixou-a sintetizada na sua “Autobiografia”:
“Creio ter contribuído alguma coisa para dotar o neo-realismo de uma nova dimensão, outra linguagem, na poesia, na ficção, na teoria (a ordem é arbitrária), como os pesquisadores, se os houver e forem capazes de, talvez confirmem. Que não esqueçam as datas por favor.
O problema principal, para mim, seria nunca escrever sobre camponeses que só se tinham visto da janela do comboio (…) não havia só camponeses e operários. Havia a sociedade inteira. (e foi o que fiz em quase todo o Dia Cinzento. Por isso terá sido tão mal compreendido quando apareceu.”
Um abraço
Agradeço as suas palavras amigas, Sammy. Confesso que esta série é a que mais gozo me dá, por ser intelectualmente muito estimulante e me forçar a revisitar contos que me perduraram na memória mas que em certos casos não lia há mais de vinte anos. Vou prossegui-la enquanto tomo balanço para outra série que há-de vir, desta vez dedicada a grandes romances (um deles ‘O que faz correr Sammy?’, a que sempre associo esse seu pseudónimo).
E a propósito lembro que a Casa da Achada está cheia de recordações de Mário Dionísio. Vale a pena ir até lá. 🙂 http://www.centromariodionisio.org/casa _da_achada.php
Obrigado pela dica, Ana. Não conhecia. Esta é uma das facetas que mais aprecio nos blogues: permitirem-nos alargar horizontes, saber sempre mais.
Uma das muitas coisas de que gosto em ti, Pedro Correia, é gostares de contos e de saberes falar muito bem sobre eles. O conto tem sido o tipologia mais desprezada da literatura.
Tens tanta razão: há um manancial cinematográfico no neo-realismo.
Obrigado pelas tuas palavras tão generosas, Ivone. De facto esta série nasceu por perceber a desconsideração de que o conto é alvo em Portugal – até por alguns dos nossos autores mais consagrados neste género, o que nunca cessou de me surpreender.
Tenciono manter esta série ao ritmo actual, sempre no último sábado de cada mês. E tenho um plano que vai além deste – sobre grandes romances. Mas gostaria que essa nova série fosse colectiva. Havemos de trocar umas ideias sobre o assunto.