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Um dos mais belos contos de todos os tempos em língua portuguesa tem como cenário Baltimore, a cidade portuária norte-americana onde viveu e morreu Edgar Allan Poe, e decorre na noite de Natal. O autor, José Rodrigues Miguéis, sabia bem do que falava nesta extraordinária peça de ficção ambientada no Novo Mundo mas repassada da velha nostalgia lusitana: ele é um dos nossos autores da diáspora, que tão fértil tem sido às letras portuguesas. Como outros dos seus contemporâneos, designadamente Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva e Jorge de Sena, Miguéis viveu largos anos num desterro voluntário, longe do sufoco salazarista.
Mais até do que sucedeu com Sena, o autor de Páscoa Feliz deixou as marcas do exílio bem espelhadas nas páginas dos seus livros – designadamente nas short stories de Nova Iorque, a cidade onde permaneceu décadas sonhando com a Lisboa natal que só subsistia na sua transbordante imaginação de ficcionista, plasmada nos capítulos de romances como A Escola do Paraíso ou O Milagre Segundo Salomé.
O conto a que me refiro intitula-se O Viajante Clandestino e tem reminiscências de Conrad ou MacOrlan, aliás autores citados neste relato de um homem sem identidade que desemboca na América após vários dias de viagem no porão de um decrépito cargueiro em busca de dias melhores na terra de todos os sonhos.
Quis o destino que o velho barco atracasse na noite de Natal a Baltimore, «cidade algo sombria, pacata e ordeira», com os seus cais «soturnos, caóticos, confusos», semeados de hangares em ruínas e «barracões grisalhos».
Miguéis, hábil construtor de atmosferas, serve-nos de guia: «Há cidades que parecem viver na intimidade dos dramas e segredos do mar, onde este está sempre presente, em convívio com os homens. E nada fala tanto ao coração do errante solitário como este apelo eterno do mar, junto aos cais.»
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Véspera de Natal: o molhe estava quase despovoado. Os tripulantes do cargueiro desembarcaram rapidamente, sumindo-se nos dédalos citadinos. Só o clandestino permaneceu horas esquecidas no porão, aguardando o momento de saltar para terra.
«Tinha entrevisto na noite, ao chegar ali, os perfis dos barracões do porto, mais longe fábricas, prédios, o clarão mortiço da cidade. Estava na América, a dois passos do trabalho e do pão, a um salto do seu destino. E o coração batia-lhe de anseio.»
Repetia-se um quadro experimentado durante séculos por marinheiros portugueses na eterna demanda de novos rumos. Mas este marujo improvisado, de quem apenas ficamos a saber que se chama Tomé, não visa dilatar a fé ou o império – só pretende conseguir emprego na costa leste dos Estados Unidos da América. Nada tem, excepto a sua força de trabalho.
Miguéis, por convicção ideológica e afinidade geracional, foi compagnon de route dos neo-realistas portugueses, embora com uma mundividência muito mais alargada do que a generalidade dos representantes desta escola. Era um escritor que se identificava profundamente com o destino amargo ou trágico das suas personagens, geralmente de condição humilde, várias delas também marcadas pelo desterro, como se verifica nas pequenas ficções incluídas em Gente da Terceira Classe (1962), o livro do qual é extraído este conto.
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Tomé acaba por se escapulir do barco rumo à malha urbana. Mas esbarra com um agente da polícia, bem capaz de lhe cortar as asas ao sonho. Valeu-lhe o facto inesperado de ser noite de Natal: nesta quadra, até a autoridade mais empedernida afrouxa um pouco.
«Merry Christmas», atira-lhe o polícia, com bonomia, enquanto ele se afasta, fundindo-se na noite, «com a garganta apertada, a rir e a chorar».
À hora a que milhões de americanos consoavam, no conforto burguês das suas habitações calafetadas, este português apátrida renascia como cidadão do Novo Mundo no frio nocturno das inóspitas ruas de Baltimore.
Exilado e despojado, como o menino-deus nazareno: a eterna magia da noite de Natal.

Nem tenho palavras para o que sinto quando leio textos destes, como me sinto presa da primeira à última palavra.
Mais um milagre de Natal, de um livro que irei certamente comprar, por culpa do autor do post.
Parabéns pelo post, pela magia das suas palavras, qualquer que seja o assunto.
E, já agora, Boas Festas e um Ano Novo muito, muito feliz, com todos os que lhe são queridos, com muita saúde e com muitos Delitos ….
Um abraço, Pedro!
Obrigado, cara amiga. Ainda bem que gostou. Esta é uma série que tentarei manter todos os meses no Delito.
Aproveito para lhe desejar um feliz 2011.
Miguéis é um autor injustamente esquecido e que por esse motivo é sempre oportuno recordar. Gostei muito de voltar a este conto, um belo conto de Natal.
É de facto um belíssimo conto. De Natal e não só. Recomendo-o. E recomendo o livro inteiro.
Quanta qualidade na bonita homenagem feita ao escritor:). Se ele o sabe de algum lugar, decerto ficou contente. Se não, o Pedro ficou contente.
Agradeço-lhe as suas generosas palavras, Bea.