Grande Sporting, o nosso Sporting (carta de um adepto)


Pedro Correia,

 

Bruno de Carvalho devolveu a esperança aos sportinguistas. Há que dizê-lo, com a naturalidade de quem se limita a reconhecer uma evidência. De tal maneira que — vejam bem a diferença — há um ano afundávamo-nos sem remissão na tabela classificativa, caindo para o décimo lugar, e agora damo-nos ao luxo de discutir qual o modelo mais eficaz para pôr a nossa equipa a marcar ainda mais golos.

Há um ano tínhamos nas nossas fileiras um só ponta-de-lança, apesar de se tratar do plantel mais caro de sempre na história do clube: bastaria uma lesão para se acenderem todos os sinais de emergência na equipa; hoje discutimos quantos homens-golo o treinador deve fazer alinhar no onze inicial.

Há um ano, descobríamos alguns jovens da nossa formação, promovendo-os em desespero de causa à equipa principal para colmatar as lacunas das pseudo-vedetas pagas a peso de ouro para se arrastarem em campo, com salários chorudos e exibições paupérrimas; hoje os jovens oriundos da nossa academia constituem a espinha dorsal da equipa por opção deliberada dos responsáveis técnicos, algo já com reflexos ao nível da selecção nacional (basta reparar na recente entrada de William Carvalho no decisivo jogo Suécia-Portugal que nos qualificou para o Campeonato do Mundo).

Há um ano, discutia-se por toda a parte a intromissão do Braga no grupo dos chamados “três grandes” e não faltava quem condenasse o Sporting a discutir com os bracarenses a terceira posição desse pódio simbólico; hoje, com o Braga a 14 pontos e nove lugares atrás de nós no campeonato, esse debate parece quase surreal.

 

À cultura da tolerância perante um Sporting coitadinho que se arrastava penosamente nos relvados nacionais sucedeu-se a cultura da exigência perante um Sporting que todos já apontam como candidato ao título. E, curiosamente, alguns dos que agora mais falam nisso, entre os sportinguistas, são precisamente os mesmos que num passado recente suplicavam que a equipa não fosse sequer pressionada para objectivos menos ambiciosos, como um lugar de acesso à Liga dos Campeões.

Não pode haver maior contraste entre o que o Sporting era e o que este Sporting de Bruno de Carvalho é. Este Sporting da cultura da exigência em boa hora regressada ao nosso clube.

 

Sim, há que assumir tudo: temos uma das equipas mais fortes do campeonato.

Sim, somos candidatos a qualquer título nas competições que disputamos.

Sim, o Sporting jamais deixará de ser um dos grandes, por mais candidatos que uns tantos imbecis procurem inventar para o lugar que nos cabe por mérito próprio no desporto nacional e como traço de união entre milhões de portugueses.

 

Este Sporting que sempre conhecemos. Um grande Sporting. O nosso Sporting.

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20 comentários em “Grande Sporting, o nosso Sporting (carta de um adepto)”

  1. Bem vindo este Sporting, que fazia falta. Espero, claro está, que não vença o campeonato, mas este (até ver) sucesso demonstra que há mais caminhos que o dos agentes e dos investimentos de risco no mercado sul-americano.

    Há no entanto que não embandeirar em arco. O FC Porto está mais fraco que nos últimos anos (parcialmente por falta de Moutinho, parcialmente por causa de um treinador que não encontra o melhor caminho) e Jesus continua a demonstrar que tem certas qualidades em grande dose (desenvolvimento individual dos jogadores, busca de bom futebol) mas faltam-lhe outras (equilíbrio da equipa, compreender a necessidade das pausas no futebol, saber fechar a equipa em certos momentos, etc). Bruno de Carvalho e Leonardo Jardim têm enorme mérito, sem dúvida, mas é preciso que este desenvolvimento seja sustentado. Um clube pode apostar na formação (como o Sporting fez durante tanto tempo) mas precisa ou de uma boa fornada ou de complementar certas áreas com outros jogadores. Este bom momento é em boa medida por mérito próprio, mas a celeridade com que os problemas foram ultrapassados também sugerem uma boa dose de sorte.

    Seja como for, que venham os jogadores da academia que a selecção bem precisa. Que se invista em Tiago Illori que os ingleses já o andam a farejar (é elegível para a selecção inglesa) e que se veja se Dier não gostaria de fazer de Portugal a sua casa, já agora.

    1. Tenho de elogiar-te o ‘fair play’, João. Não é vulgar, infelizmente, ver em Portugal adeptos de um clube reconhecer mérito em clubes rivais. Temos uma cultura futebolística demasiado apegada a chavões de tribo: quanto mais radicais parecermos, mais acarinhados somos.
      Bem sei, como advertes, que ainda não é tempo de embandeirar em arco: ainda só decorreu 40% do campeonato. Mas apeteceu-me escrever estas linhas por motivos óbvios: há quase nove anos (ou seja, há 357 jornadas) que o Sporting não liderava o campeonato isoladamente. E é preciso recuar a 2001/02 para lembrar a última vez que liderou duas semanas consecutivas.

      1. “Temos uma cultura futebolística demasiado apegada a chavões de tribo: quanto mais radicais parecermos, mais acarinhados somos”. O que dá um jeitão para as estações de televisão e rádio, apostadas em manter programas de verdadeira ordinarice, onde gente da direita à esquerda, e por norma todos doutores ou engenheiros, faz gala em perder o seu verniz social ou académico, e descer ao nível da chinela na mão, no que creio ser um argumento e uma encenação cuidadosos, ainda que informais (sê-lo-ão?), parte de uma estratégia de embrutecimento geral.

        Afinal, se os “doutores” podem ser e são mal-educados, reles, grosseiros, básicos e asselvajados, ao comentar futebol, com direito a palco nacional (há não muito tempo era só ao domingo à noite; agora haverá um, dois no máximo, serões por semana, em que os canais “generalistas” nos não brindam com essas cenas de lupanar em desordem), porque o não há-de ser o cidadão médio, sem mais do que a instrução básica (já uma distante e nada saudosa memória), bruto e metodicamente embrutecido?

        É o futebol acima da lei, onde tudo é impune, tudo se pode fazer. Desde arruinar espaços e bloquear acessos com o estacionamento selvagem nas imediações dos estádios, caricatamente “ordenado” por uma polícia que em vez de o reprimir, como devia (e a receita que faria…), legitima-o sujeitando-se ao ridículo, até desfazer “áreas de serviço”, a partir de autocarros que regurgitam bárbaros intoxicados que deveriam estar trancados até lhes passar o que seja que lhes tolda o raciocínio (conceito que lhes não será muito familiar, creio, mesmo quando alegadamente sóbrios).

        Tudo isto dá muito jeito, muito jeito ao poder (qualquer que ele seja). Um povo que só pensa na bola, deixa-se pontapear; um povo que destrói em nome da bola, não destrói por outras razões.

        Se alguma vez este foi o país dos três F, essa vez é agora. Estremecidamente cultivada por quem tanto criticava tudo isso, há uns quarenta anos apenas.

        Costa

      2. Claro que é de celebrar (para os sportinguistas, pelo menos ;)).

        Quanto ao fair-play, confesso que se deve em grande medida à distância. Não ter ninguém por perto que me provoque (ou que eu possa provocar) acaba por me deixar mais capaz de ver as coisas de forma racional, sem as emoções que de outra forma estariam certamente presentes. O lado mau é a falta de entusiasmo, da qual sinto saudades. As provocações entre amigos são sempre divertidas.

        1. Sim, as provocações são sempre divertidas. E estimulantes, pois aguçam o engenho verbal. Já o fanatismo clubístico é perfeitamente dispensável. Cada vez mais detesto os fanatismos – incluindo no futebol.

    2. Faço minhas as tuas palavras, caro João. Por mais sorte que o Sporting esteja a ter nesta fase (no último jogo viu-se, nos dois golos; mas, lá está – é um jogo, toca a todos), e por muito “forçada” que tenha sido a opção nos jovens talentos da academia, os resultados estão à vista. Pode até não ganhar nada no final, mas demonstrou garra e qualidade. Que diferença do ano passado.

      (para além de esta aposta ser fundamental se queremos uma Selecção nacional com futuro)

      Enquanto benfiquista, invejo o percurso escolhido: quem me dera que a equipa de futebol do meu clube apostasse num plantel que equilibrasse jogadores portugueses promissores com estrangeiros de qualidade. Enfim, despachamos o Nelson Oliveira para cascos de rolha, andámos uma época com um peru na baliza, nunca arranjámos ninguém para substituir Coentrão desde que o vendemos hiper-inflaccionado aos madrilenos e jogamos – se é que se pode chamar ao que a equipa hoje em dia faz em campo “jogar” – com um plantel importado, caríssimo e sem chama. Diria que precisamos de um milagre, mas quando Jesus é problema e não solução, viramo-nos para quem? Para Buda?

      Por isso, sim, Pedro, parabéns ao teu Sporting, que bem merece!

      1. Obrigado, João, também pelo teu ‘fair play’. Oposto à atitude de um fanático encarnado como o ex-ministro Gomes da Silva, que quando o Sporting derrotou em casa o Arouca por 5-1 se pôs aos berros na SIC Notícias a dizer que aquilo não tinha valor nenhum pois os arouquenses acabavam de subir de divisão. Os mesmos, por sinal, que foram empatar 2-2 à Luz – resultado que o fez meter a viola no saco.
        Só certos palradores do esférico me fazem sentir saudades da chamada “análise política”. O pior é que alguns acumulam. Estão com um pé na política e outro a pisar a bola.

  2. Caros Leões

    Parabéns.

    Temo que o nosso mais perigoso e directo adversário seja o “APAF”…
    O resto está no papo.

    Leão Sempre

  3. Um boa :

    Classificação do campeonato segundo o Jornal Record

    1º Benfica 27 pontos
    2º Sporting 29
    3º Porto 27

    in 31 Armada

    1. Já no outro dia na TVi anunciavam que “o Benfica partilhava a liderança com o Sporting”. O Benfica estava em 2o lugar. Ainda querem simpatia e desportivismo com esta gente? Eu não. Eu quero é que desapareçam. Querem partilhar o quê com estas bestas?

      1. Cá estão os primeiros a embandeirar em arco. “Essas bestas”, caso não tenha reparado, estavam realmente empatadas pontualmente com o Sporting, e caso o campeonato acabasse nesse dia, ficariam à frente, porque tinham vantagem no confronto directo.

        1. Não, não ficavam à frente. Ficavam atrás porque estavam em 2o lugar por causa da diferença de golos embora com os mesmos pontos. Estavam em 2o. São as regras. “Bestas” são os adeptos cegos como os imbecis suburbanos (falta-me aqui adjectivos mais incisivos, estes são demasiado óbvios) da TVI que nem uma notícia correcta conseguem dar tal é a neurose encarnada; não me estava a referir às equipas sul-americanas que representam os clubes nacionais.

  4. Mais uma prova que no futebol e não só a moral e vontade é tão ou mais importante que as credenciais.

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