gracq, Julien et al


Bandeira,

 

 

Procuro em ROM ROM-EST um livro de Gracq, Julien que o Sistema Informático jura disponível. Como o faceto leitor provavelmente imagina, não sou capaz de dar com ele. Uma vez que a namorada não está aqui e eu, como de costume, me sinto meio perdido, peço ajuda à funcionária. Não me vêm sentimentos de culpa porque o livro é para ela, a namorada, bem entendido, e de qualquer modo não existe química entre nós, eu e a funcionária, bem entendido, não que ela seja desinteressante, bem entendido, sei lá se é, eu nem reparei, ok?

A funcionária, que – em termos estritamente profissionais – é muito eficiente e simpática, passa revista às prateleiras. O meu espanto deve parecer-lhe algo exagerado quando ela confirma que o livro não se encontra ali. Conhecendo-me como conheço, eu esperava que fosse logo, sei lá, o primeiro da prateleira e que a sua lombada verde fluorescente contasse uns vinte e cinco centímetros de largo, para além de, por meio de um pequeno altifalante incrustado e um emissor de luz invisível, emitir o nome “Gracq, Julien” de cada vez que alguém passasse em frente.

E no entanto, é a profissionalíssima funcionária quem o garante, o livro não está ali. Talvez o Sistema Informático dê pistas: passamos à secretária onde se encontra o computador. “Afinal está”, suspira a desolada funcionária. O Sistema Informático não pode enganar-se, como é possível subsistir o Erro onde só existem ligado e desligado, zeros e uns? O livro há-de estar ali, algures, naquele pedacinho do paraíso dela.

“Será que algum utente o deixou noutra prateleira?”, sugiro com o maior respeito, “Isso deve acontecer bastante, as pessoas são tão desleixadas”. A funcionária encolhe os ombros em sinal de impotência. “Às vezes sucede, se bem que passemos revista às prateleiras todas as semanas”, responde. “Acontece até esconderem os livros para que ninguém mais os possa requisitar. Ou deixam-nos em ordem alfabética em prateleiras de outras secções para que não detectemos a falha. Mas com romances é raro isso acontecer.”.

Tento imaginar que tipo de leitor seria capaz de semelhante pulhice taxionómica. “Ensaio? Filosofia?”. Ela corrobora a minha hipótese. “Exactamente, por aí”. “São os piores, a escória da Terra”, solidarizo-me eu, enquanto a já não tão desanimada funcionária anota o meu número de cartão para me contactar se e quando o Gracq, Julien se dignar aparecer por ali.

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Foto: Libreria Piccolomini, Duomo de Siena.
Nota: este é o meu primeiro poste no Delito de Opinião. Sinto-me muito contente por estar aqui. Obrigado a todos pela carinhosa recepção. E agora, à Crise, à Crise.

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