“Graças a Deus nunca tive medo”


Pedro Correia,

«Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.»

«Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.»

«Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor. Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.»

Trechos do último artigo de Maria José Nogueira Pinto, escrito poucas horas antes da sua morte e hoje publicado no DN. Um impressionante testemunho. De força, de fé, de carácter, de vida.

24 comentários em ““Graças a Deus nunca tive medo””

  1. O texto é extraordinário, todo ele. Estive a lê-lo à hora do almoço e fiquei comovida uma vez mais, sobretudo por saber que foi escrito pouco tempo antes de morrer. E há um pormenor (ínfimo, mas significativo) que te escapou na transcrição desta declaração corajosa: “(não tenho medo) Nem da vida, nem NA morte”. Mostra bem a lucidez de quem sabe que está muito perto do fim.

    1. É verdade, Ana, eu já tinha lido o texto de Maria José Nogueira Pinto transcrito noutro lado e, primeiro, supus que fosse gralha de transcrição, depois comovi-me porque vi que o uso daquela proposição era intencional. Sem palavras.

    2. Um extraordinário testemunho e,que me seja permitido, uma tocante prova de Vida.

      Sei o que é encarar o cancro,pessoalmente. Tive mais sorte(à custa de uma supra-renal e dum rim).
      E porque ainda “cá” estou, agradeço a Maria José Nogueira Pinto esta lição que me ajudará a retemperar a minha fé.

        1. Agradeço o teu reparo, Ana. Tratou-se de uma gralha minha, de transcrição, quando o texto ainda não estava disponível em linha. O que já tinha muita força torna-se ainda mais forte e ganha um novo e mais amplo significado.

  2. Pedro,

    Ainda bem que o trouxeste até aqui. Já tinha andado esta manhã à procura do link e não o tinha encontrado.

    Independentemente de quaisquer outras razões, uma mulher que escreve isto na hora da partida e faz questão de publicá-lo merece que todos os homens lhe tirem o chapéu.

  3. “Com coragem, lucidez e paz de espírito conseguiu fazer um texto em jeito de resumo de vida. Em poucas linhas juntou tudo o que lhe foi importante, a família, o país, os valores e a fé.
    Seríamos nós capazes de escrever um texto assim? O que é que lá escreveríamos?”

    Excerto do Vale do Anzel

  4. Comovente e duma fortaleza do tamanho do mundo!
    Reparei de imediato na sua consciência de mortal, pelas palavras que utiliza, na aceitação lúcida do presente, principalmente na frase “Nem da vida nem na morte“.
    Extraordinário testemunho de quem sabe que está no fim, mas de uma fé inabalável.
    E que extraordinário resumo da sua vida passada, de uma lucidez notável, escrito nos seus últimos dias.
    É preciso ser-se muito Grande!
    Que descanse em Paz!

    1. Sem retirar um milímetro de valentia a MJNP, tenho para mim -por experiência bem recente – que se calhar somos todos muito maiores do que pensamos no momento limite. Mas que nunca a vida nos teste (e a essa grandeza desconhecida), antes do tempo.

  5. Sobre o texto tocante e derradeiro de Maria José Nogueira Pinto está tudo muito mais bem dito do que eu conseguiria.

    Sobre as tuas próprias palavras, compadre, também nada consigo acrescentar: «Um impressionante testemunho. De força, de fé, de carácter, de vida.»

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