Gostava de ter escrito isto


Paulo Sousa,

“O que os rankings revelam não é a diferença das condições socioeconómicas, essas não precisam de rankings para nada. O que os rankings revelam é o desprezo pelas condicionantes que essas condições geram. Não revelam a superioridade das escolas privadas, revelam a inferioridade das escolas do estado.”

 

Este é um excerto do texto de João Pires da Cruz, de ontem no Observador. Talvez seja de acesso público. Se não for o caso, quem ficar curioso, ou paga para ter acesso ou fica na ignorância a imaginar o que se passará nos espaços que não frequenta.

Quem não tem ADSE, nem frequenta escolas privadas, já está habituado a essa sensação.

23 comentários em “Gostava de ter escrito isto”

  1. ” e, pasme-se, as escolas privadas têm exatamente a mesma influência sobre o ambiente socioeconómico que as rodeia que as escolas do estado:”

    Uma flagrante mentira. Como podem escolher os alunos, recusando os que à partida terão mais dificuldades, as escolas têm uma grande influência sobre o seu meio ambiente socioeconómico. Uma influência tão grande que nem precisam de se preocupar por aí além com a qualidade do ensino que ministram. Basta-lhes inflacionar umas notas para compor o ramalhete.
    A contratação de professores à moda das escolas privadas é um bom indicador desse desinteresse. Estão tão preocupados em ter os melhores professores que pagam pior do que as escolas públicas.

    1. Então os bons resultados dos rankings da escolas privadas, devem-se ao inflacionamento das notas. É tudo tão simples. Como é que ninguém tinha pensado nisso.

      1. Não se devem somente a isso. Devem-se também ao facto de terem alunos de estratos socioeconómicos mais abonados e selecionarem alunos expulsando os alunos problemáticos. Talvez não saiba mas grande parte destas escolas recomenda aos seus alunos, que pagam muito bem, que procurem salas de estudo ou explicações pagas à primeira dificuldade. É um pouco como alguém ir ao restaurante de um chefe famoso e recomendarem-lhe para ir comer à tasca para não ter fome.

  2. 20% no ensino privado

    Blasfémias
    «A chamada “economia paralela” representa cerca de 35% do PIB nacional. É esta a conclusão de um estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto que estima em mais de 80 mil milhões de euros a actividade económica anual não registada pelas entidades oficiais.
    Esta estimativa é sempre dificil de calcular precisamente porque a actividade económica não é registada. Mas a acreditar nos números, isto representa o equivalente a seis orçamentos da Saúde ou a um terço do stock de dívida pública portuguesa
    … Isto, ao mesmo tempo que os serviços públicos de saúde estão um completo caos, o sistema público de educação de pantanas e em degradação constante, o sistema de justiça em desordem, as forças armadas um chavascal anedótico e muitos outros serviços públicos com prestação paupérrima, para não dizer tristemente ineficiente

  3. Como é que os rankings hão de revelar alguma coisa se estão a misturar alhos com bugalhos.
    Como é que uma escola num bairro social há-de ter o mesmo desempenho que uma escola num bairro de elite?
    Ponham uma escola privada em Chelas com miúdos de Chelas ou uma escola privada na Cova da Moura com miúdos da Cova da Moura e depois vejam o rating.
    É só demagogia da treta, querer comparar o incomparável. Vê-se mesmo que quem faz estes ratings está sentado num gabinete partidário e não percebe puto da realidade do país.

      1. Li o texto do João Pires e não proponho diferenças nenhumas na elaboração dos rankings.
        O que eu digo é que façam os rankings nas escolas públicas e façam os rankings nas escolas privadas, mas não misturem. As realidades são diferentes.
        Não se pode comparar uma escola cuja maioria dos miúdos provêm de famílias desestruturadas e baixo poder económico com outra cuja maioria dos miúdos vai para a escola de transporte próprio.
        Não percebo qual é a dificuldade de entendimento.

        1. Essa foi a mesma atitude que as universidades francesas tiveram. Depois disso abriram a pestana e arrepiaram caminho.
          O que diz, confirma o que já todos entendemos sobre a visão do governo sobre a escola pública, e que se resume na desistência desta como elevador social. Quem a frequenta está condenado e por isso não pode ser comparado com os alunos que em que os professores em vez de caricaturarem o PM, apenas dão aulas.

          1. Então mas eu também estou preocupado com o elevador social, por isso é que eu digo para meterem uma escola privada num bairro problemático. Talvez assim conseguissem perceber melhor a realidade do país.

          2. “por isso é que eu digo para meterem uma escola privada num bairro problemático”
            Em vez de problemático pode chamar-lhe: bairro estatal.
            As casas são o Estado ou da Câmara, os habitantes (não) pagam uma renda simbólica e são subsidiados com todo um leque de apoios.
            Só direitos, zero deveres.
            O que faria uma escola privada ali? E paga como? Com o dinheiro dos contribuintes, também?
            Qual a razão para o Estado não construir habilitação social na Quinta da Marinha ou na Comporta?
            Cada subsidiado no seu galho, talvez assim se consiga perceber a realidade social do país.

          3. Ora aí está, por isso é que eu digo que estão a comparar o incomparável.
            Isto é como os hospitais; públicos e privados. No público o foco é o doente. No privado o foco é o lucro.
            No público fazem-se os exames de acordo com o diagnóstico pessoal. No privado fazem-se os exames de acordo com a doença genérica.
            Tudo normal portanto.

          4. > meterem uma escola privada num bairro problemático.

            Com o governo a combater afanosamente “dar dinheiro aos privados” vai ser difícil.

            E enquanto as pessoas se lembrarem o que aconteceu às escolas que dependiam dos “contratos de associação” aqui há uns anos – falidas por capricho ideológico, embora fizessem melhor serviço por menos dinheiro – vai ser difícil arranjar patos para esfolar outra vez.

    1. “É só demagogia da treta, querer comparar o incomparável. Vê-se mesmo que quem faz estes ratings está sentado num gabinete partidário e não percebe puto da realidade do país.”
      Concordo com a primeira parte, não se pode comparar o incomparável. Mas discordo da segunda: “não percebe puto da realidade do país.” Acho que percebe e sabe onde quer chegar

    2. O erro parece estar na interpretação que os professores dão ao resultado, o ranking avalia a escola, conjunto dos alunos e professores, não só estes últimos.

  4. “..não revelam a superioridade das escolas privadas, revelam a inferioridade das escolas do estado.”
    “…revelam a inferioridade das escolas do estado”. Em relação comparativa entre elas ou com as privadas?
    As escolas privadas, ou outro serviço público feito por privados terá, sempre, de ser superior ao público, doutra forma não teria necessidade de existir, ou, ao contrário, ser tudo privado por não haver razão de ser o estado a pagar, p.ex. nos ricos emirados do golfo ou é tudo pago pelo emirado ou pela população ter poder financeiro para pagar educação, saúde e habitação, por não haver população carenciada. E mesmo nesses casos haverá privados mais ou menos baratos entre a oferta.
    Por cá, quando se apregoa ‘cada um escolhe o que quiser’ não é lembrado para os filhos dos milhares de casais que ganham o ordenado mínimo (que tem de ser assim por causa da competividade), é para os filhos da classe média alta que entende que os seus impostos são para seu beneficio e não para os carenciados.

    1. não é obrigatório que seja superior , terá de ser diferente. a escola pública falha em incutir certos valores valorizados por muitos pais como a disciplina e hábitos de trabalho. ou até valores religiosos.

  5. Visão extremamente demagógica. Ou melhor, compara o incomparável. Como se os alunos de classes favorecidas não estivessem sempre um patamar acima, mesmo quando frequentam a escola pública.

  6. Chegaram aqui várias opiniões, mas parece que o que se diz sobre este assunto é sempre o mesmo.
    O texto referido fala sobre as diferentes atitudes que se podem ter perante os rankings. Uns procuram descredibilizar o método, enquanto outros procuram mudar de método de forma a obter melhores resultados.
    Quem se conseguir libertar das grilhetas ideológicas, poderá chegar a conclusões diferentes.
    Ninguém discordará em que o ensino publico deverá permitir que quem tenha origens sociais menos favorecidas, consiga através da escola, interromper o ciclo de pobreza que actualmente não ocorre com a frequência desejada.
    Eu defendo o cheque-ensino, com a impossibilidade de recusa de alunos por parte das escolas com contrato de associação, concorrência entre escolas, com maior autonomia na definição dos seus programas e rankings universais, rigorosos e mais frequentes.
    As escolas que prefiram consumir as suas energias na defesa dos interesses dos professores, em vez de o fazer em relação aos alunos, acabarão por não amealhar cheques-ensino suficientes e terão de mudar de vida.
    São as forças conservadoras que impedem o enfoque do ensino sejam os alunos.

    1. Não compreendo muito bem porque terão se ser só as escolas com contrato de associação a serem obrigadas a aceitar qualquer aluno que traga o cheque ensino.
      Se o que queremos é dar uma nova oportunidade aos mais pobres e com maiores dificuldades, então esses é que terão de ter acesso prioritário às primeiras escolas do ranking.
      Não compreendo como se pretende dar maior autonomia às escolas na definição dos programas. Talvez haja um processo mas será um pouco confuso ninguém saber ao certo que conhecimentos tem quem termina a escola.

  7. Eu proponho o cheque ensino, assim todos teriam acesso às melhores escolas, mesmo as publicas, além de poderem escolher e obrigar as escolas a trabalharem para existirem.

  8. Englobar as escolas privadas como se numa entidade única é um absurdo. Há escolas privadas que escolhem os seus alunos, e esta escolha é feita sobretudo pelas características sócio-económicas do agregado familiar (não pelo desempenho escolar nem pela inteligência do aluno, como acontece nas universidades). O colégio S. João de Brito, o Colégio Moderno, o Colégio do Sagrado Coração de Maria, etc., são deste tipo de escolas. Para outras escolas privadas não é feita este tipo de selecção. Basta ter dinheiro para pagar a mensalidade e ter vaga. Mas quem paga uma mensalidade normalmente exige um mínimo de serviço, o que faz que as escolas privadas não tenham professores em falta nem sejam afectadas por constantes greves, ao contrário do que acontece na escola pública, o que lhes dá alguma vantagem. As escolas privadas com contratos de associação aceitavam crianças de diferentes extratos sociais, penso eu, ou seja, não era por serem privadas que se limitavam a uma determinada realidade sócio-económica.
    É claro na literatura que o melhor indicador do sucesso escolar das crianças é o nível de escolaridade da mãe (e não o do pai ou as condições sócio-económicas da família). É também claro para mim que os melhores alunos podem vir de qualquer extrato social. Por muitas explicações que se paguem não se consegue fazer um aluno mediano ter resultados excelentes. Não é assim que funciona.
    Um filho de engenheiros ou de médicos não é necessariamente um aluno de excelência. E há alguns casos de crianças de todos os extratos sociais que não são simplesmente capazes de reter a aprendizagem. Ou que simplesmente se recusam a aprender. Mas para a grande maioria que são os alunos médios, a escola e o ambiente social da mesma podem fazer a diferença. Um aluno mediano pode ser bom ou muito bom se tiver o ambiente certo, e pode ser fraco ou muito fraco se tiver o ambiente errado. E o ambiente certo ou errado podem estar na escola ou na família.
    Há turmas em que muitas crianças não falam português. Há turmas em que a indisciplina é de tal forma elevada que o professor não consegue dar matéria. Os alunos medianos estão basicamente condenados nessas escolas. E o estado enterra a cabeça na areia no que diz respeito a estas escolas.
    Resumindo esta conversa toda, os rankings são importantes para os pais perceberem quais são as escolas a evitar, mas não indicam quais são as melhores escolas. Uma escola que tem média de 12 pode ser equivalente ou superior a uma que tenha média de 14 para o grosso dos alunos. Já uma escola que tenha média de 5, será uma escola a evitar a todo o custo para a grande maioria das crianças.
    Para mim é óbvio que as crianças que não falam a língua portuguesa ou que têm graves problemas de indisciplina deveriam frequentar escolas especiais. Para o bem delas e dos outros.

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