
A Mulher
Mal entrei, reparei que na sala – uma pequena sala de cinema de Lisboa – a plateia era quase exclusivamente feminina. Eram quinze mulheres para um homem. Sorri do presumível efeito dissuasor que um filme chamado “A Mulher”, no original “The Wife”, terá nas audiências masculinas. Se o título fosse “O Homem”, no original “The Husband”, o efeito no público feminino não seria igual, por razões culturais que curiosamente viriam a ser afloradas, minutos depois, na tela.
“A Mulher” é a adaptação cinematográfica da obra homónima de Meg Wolitzer e conta a história de uma mulher que nos idos de 60 desistiu de uma promissora carreira literária por acreditar que no mundo editorial, dominado por homens, jamais conseguiria vingar. Em vez de arriscar, escolheu ser a sombra do marido, um homem que não se inibe de lhe predar o talento. Cliché? Pode ser, mas Glenn Close – o filme é ela – consegue passar de uma forma tão intensa e todavia tão subtil a frustração, a dor do recalcamento, que não é possível vê-la apenas na pele daquela personagem. Ela encarna o mal larvar que anulou gerações de mulheres, soterradas pelo sexismo e pelos seus efeitos nas suas escolhas de vida. Conheci, conheço ainda hoje casos similares. Quem não conhece? Mulheres de asas cortadas rentes, presas ao estereótipo de cuidadoras, não raras vezes acabando a ser mães dos próprios maridos, eternas crianças ineptas, incapazes de tratar das minudências da vida. Visto assim o filme transmuta-se num comovente tributo a essas anónimas senhoras, pilares de pesadas arquitecturas familiares, musas exclusivas de génios, fazedoras de reis. Porém fá-lo sem pieguices, ou vestígios de demagogia e com Glenn Close em estado de graça.
Será desta que ela leva o oscar para casa?
Título original: The Wife
Realização: Bjorn Runge
Com: Glenn Close, Jonathan Pryce, Christian Slater

desistiu de uma promissora carreira literária por acreditar que no mundo editorial, dominado por homens, jamais conseguiria vingar
Esta decisão talvez fizesse sentido nos anos 60 do século passado, mas hoje em dia não faria sentido. Hoje em dia a maior parte dos leitores são mulheres e os editores têm que se focar nos gostos delas. Atualmente boa parte, se não mesmo metade, dos escritores são mulheres.
maridos, eternas crianças ineptas, incapazes de tratar das minudências da vida
Muitas mulheres também são incapazes de tratar de muitas minudências. É tudo uma questão de divisão de tarefas. Geralmente num casal o marido trata de algumas minudências e a mulher trata de outras; cada um deles é incapaz de tratar das minudências da qual o outro trata.
Geralmente num casal o marido trata de algumas minudências e a mulher trata de tudo o resto. Não sei citar estatísticas de cor, mas se se der ao trabalho de procurar o que sai todos os anos nos media a propósito do Dia Internacional da Mulher, está lá tudo explicadinho. A carga horária de trabalho, somando tarefas domésticas com emprego é muito superior no caso das mulheres, portanto não vale a pena tapar o sol com a peneira, Lavoura.
As estatísticas focam-se em trabalhos diários, repetitivos, como lavar a louça e a roupa, etc.
Nas depois há outros trabalhos, que não são repetitivos e diários mas que também contam, como levar o carro à oficina, limpar o carro, levar o carro à inspeção, preencher o IRS, fazer reparações na casa, tratar das propriedades fundiárias (se o casal as tiver, muitos têm, na província), tratar do computador, etc. Também são trabalhos que beneficiam ambos os membros do casal e que são as mais das vezes desempenhados pelo homem.
Luís Lavoura, aqui para nós que ninguém nos ouve. (Elas é que fazem tudo. Nós só fazemos aquilo que nos interessa. Fica-lhe bem, em nome da irmandade masculina essa sua defesa, mas não vale a pena forçar muito a nota que elas percebem porque soa a falso. Esperemos ambos que elas não leiam isto. Fica só entre nós! No fundo, no fundo, o que elas não querem é ver-nos muito cansados, if you know what I mean!)
Xico, gimme a high 5!
… quase hilariante.
Parece-me errado apostar da maneira que o fez. Primeiro porque as tarefas de que fala são também realizadas pelas mulheres (não por todas é certo, mas por muitas); segundo, porque, e ainda que haja mulheres que as não fazem, a periodicidade é diferente e muitíssimo menor. Qualquer dessas tarefas quantas vezes se faz por mês ou por semana?! Há as anuais, as que são casuais mas raras, as que são semanais ou quinzenais como lavar o carro.
Há ainda demasiados homens a pensar assim. Mas eu aposto nas novas gerações para mudarem o estado das coisas. Não me parece justo que as mulheres carreguem nos ombros a vida familiar.
Podemos ainda perguntar porque é que os homens morrem mais cedo se claramente trabalham menos…
Ou porque na época de discriminação sexual de cultura Marxista em que vivemos porque é que as idades de reforma não variam conforme ser homem ou mulher?
Sim claro as contas da casa historicamente tratadas pelos homens são minudências…e é só para começar, depois podemos ir à canalização, instalação eléctrica…
“Media” – ah esse fidedignos representantes da propaganda…
Tudo uma cambada de marxistas encapotados, é o que é…
Sim. Veja-se como nenhum jornalista alguma vez perguntou porque é que milhão de Vietnamitas “boat people” fugiram do Vietname quando chegou a “Paz”.
Ou porque nunca uma criança Cubana afogada com os pais a fugir da ilha foi notícia e símbolo de “causas”…
O ataque Marxista ao Ocidente incluí todos os pontos que podem ser “pièce de résistance” incluíndo simbólicos.
Obviamente incluí o ataque à masculinidade como símbolo de individualismo e autonomia. Algo que o Marxista vê como uma ameaça a sua ideologia totalitária Como o totalitarismo quer controlar tudo por definição uma cultura de individualismo representado na masculinidade desde tempos imemoriais não pode existir.
Sempre esperei que ela ganhasse a célebre estatueta
com a sua genial performance no filme Albert Nobbs.
Não aconteceu e fiquei um pouco triste por ela .
Já é a sexta vez que fica a ver navios. Seria mais que justo ganhar desta vez.
Teresa,
será tão necessário/importante assim, a estatueta do careca dourado, aquele que já em vida/filme se aturou?…
🙂
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(lamento – mentira! 🙂 – mas sou absolutamente contra quadros de honra, medalhas, prémios, etc., em afins)
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(no tempo em que tanto desejei ser realizadora de cinema, entre os 15-26/19 anos, principalmente, nunca me ocorreu a realização de documentários, mas é interessante o quanto estes, bem como as curtas, se tornaram importantes, para mim: o filme sobre o qual a Teresa escreveu, fora uma curta ou um documentário, mereceria, ok, mantendo a actriz, que é magnífica, um prémio? – eu tenho uma resposta, que não apresentarei :))
a anónima sou eu (neurónios em estado liquido dão nisto… 🙂
O filme vale por ela, como aliás sublinhei no post. No resto cumpre a função e decerto não fica para a história.
Teresa,
eu tinha feito um comentário anterior que não ficou registado.
Basicamente, e ultrapassando a questão, tos filmes made in the US of A privilegiam o género masculino, a celeuma já foi lançada, felizmente com o apoio de actores do género masculino (vários).
Sabemos que é excelente (é!). Ela, todos elementos que constituem a equipa de qualquer filme em que entre, sabem-no, também.
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(sempre ouvi dizer que a maior dificuldade – sociedades, meios fechados, etc.) – está na mudança de mentalidades, mas, por muito que ainda aconteça, estou certa de que gradualmente as situações terão que mudar, e nem considero que sofra de um estúpido optimismo, antes de um optimismo baseado nos factos, lentos, mas factos, ainda assim 🙂
Oxalá, é óptima actriz. E já é tempo.
Alguém leu “Os Interessantes ” ?
Está na minha lista de livros para ler em 2019 🙂