Gitanes


tralhasdavida,

Quem deu cabo do coração ao meu pai não foi a minha mãe. Foi uma mulher vestida de sevilhana que dançava de braço alçado com uma castanhola no ar, toda ela envolta em névoa misteriosa.

Despedaçou-lhe a aorta, o raio da mulher. A pontos de lhe provocar enfartes, fanicos, nós no peito, desmaios e palpitações,

Tinha ginete a senhora. Temperamento forte, aroma almiscarado. E era tão perigosa que um dia houve um médico que aconselhou o meu pai a mandá-la porta fora.

Depois disto, nunca mais vi o meu pai fumar.

12 comentários em “Gitanes”

  1. Enquanto fumei, Gauloises e Gitanes foram dois dos preferidos. Sem filtro. E o Gitanes papier maïs eram um must… cachimbo foram dez anos, todas as marcas. Em 2003 parei. Sinto-me muito bem, mas por vezes há uma saudade…

    1. O meu pai era sua alma gémea: também variava entre os Gitanes e os Galoises, muitas vezes sem filtro e, aquando das idas a Ayamonte, trocava de bom grado os caramelos por uns Ducados.
      Faz parte das minhas memórias de infância ir enfiada dentro do carro para o Algarve com os meus quatro irmãos, todos a morrer de enjoo com a fumarada dos Gitanes.
      Eu ia no banco da frente, ao colo da minha mãe, e o meu pai fumava pelo caminho. Lá atrás, os 4 adolescentes à molhada. Obsoletismos, é o que é. Que disto já ninguém vê.

      1. Obrigado pela sua resposta. Como terá reparado, Antolin não é um apelido muito português ou até servo-croata…é bem castelhano, da zona de Valladolid. Isto para dizer que, além dos mencionados Gitanes e Gauloises, também explicados pelo outro apelido, Hourmat, ali da zona de Bayonne, cada ida a Espanha era o pretexto para orgias de Ducados, Celtas e Bisontes, tudo tabaco bem negro. Tal como os nossos saudosos Antoninos. Do cachimbo, o que recordo com mais nostalgia, além do ritual do fumo, é um tabaco extraordinariamente suave e aromático, o Erinmore.

        Boas Festas, do Fernando Antolin

  2. Os pobrezinhos como eu,nem Ducados, Antoninos com e sem filtro.
    Revoltei-me contra todos e todas há trinta anos,sem peso na consciência.

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