Futebol surreal


Cristina Torrão,

Neuer WM 2022.jpg

O Mundial do Catar tem sido um fiasco em questão de audiências televisivas, na Alemanha. E, agora que a Mannschaft já deixou as arábias, até me pergunto se os canais estatais ARD e ZDF continuarão a transmitir os jogos.

Algo se passa na selecção alemã. Um tipo de futebol que deixou de funcionar? Falta de adaptação dos seleccionadores (sempre alemães) ao novo estilo de jogadores com origem migrante, como Serge Gnabri, Leroy Sané e Jamal Musiala? Enfim, nem sequer sou treinadora de bancada, não me compete dar respostas, muito menos, encontrar soluções. Mas a maneira como a Alemanha foi eliminada, desta vez, foi muito deprimente. O jogo de ontem teve momentos surreais.

A Alemanha tinha de ganhar. Mas estava, ao mesmo tempo, dependente de uma vitória da Espanha. Os primeiros golos foram marcados quase ao mesmo tempo: a Alemanha aos 10 minutos, a Espanha aos 11 minutos. Estava tudo a correr bem. Mas, aos 48, o Japão empatou e aos 51 pôs-se em vantagem. Logo a seguir, aos 58 minutos, a Costa Rica empatou. Aqui, o meu marido e eu passámos a torcer por uma vitória da Costa Rica. E note-se que o meu marido é alemão! Porquê? Se a Alemanha já não tinha praticamente hipóteses, que fosse a Espanha também eliminada. E não é que a Costa Rica marca o segundo golo aos 70 minutos?

Alegria efémera. Três minutos depois, Havertz empatou o jogo. Maldito Havertz! Ficámos numa situação muito ingrata, não me lembrava de já ter vivido semelhante, a assistir a um jogo de futebol. Deveríamos torcer pelo terceiro golo da Costa Rica? Mas: e se a Espanha ainda conseguisse virar o resultado?

O que veio a seguir foi surreal. A Alemanha começou a marcar golos e a Costa Rica desesperava. Tudo em vão. O marcador do Japão-Espanha congelara naquele fatal 2:1. Foi penoso ver a Alemanha a aumentar a sua vantagem, sabendo que tal vitória beneficiava apenas a Espanha.

Só nos resta esperar que “Marruecos” trate da saúde a “nuestros hermanos”.

E, de resto, viva Portugal!

Ronaldo WM 2022.jpg

12 comentários em “Futebol surreal”

  1. Go woke go broke. Foi o que aconteceu aos alemães. Quanto a Portugal é para ajudar Ronaldo a bater recordes senão ele zanga se .

  2. A questão de “..o novo estilo de jogadores com origem migrante..” não faz muito sentido e só pode ser para criticar os de origem africana.
    Então e selecção anterior com vários jogadores de origem turca?
    E as grandes equipas alemãs que ganham tudo com esses jogadores migrantes? Como por exemplo as equipas com esses jogadores agora “novo estilo..”.
    Essa desculpa nem tem razão de ser, A Alemanha poderia ter goleado a Costa Rica por 10-0 tal foram as jogadas que só não entrou o bola.

    1. Bem, os turcos não jogam como os africanos e adaptam-se melhor ao futebol alemão. Os alemães não são de fintas, não têm jeito para isso. Estou há trinta anos na Alemanha e, muitas vezes, ouvi comentários desdenhosos a jogadores latinos e/ou africanos na sua arte de fintar. “É bonito, mas nem sempre é eficaz” – era o que eu mais ouvia dizer. As coisas vão mudando, mas acho que a selecção alemã, com uma tradição de um futebol disciplinado, cerebral, apoiado em grande resistência física, se vê com dificuldades para se adaptar a um futebol mais dado ao instinto. Leroy Sané, por exemplo, foi, no início, desprezado, deixaram-no ir para Inglaterra, onde ele conseguiu desenvolver o seu talento. Agora, está no Bayern, mas não atinge aqui a notoriedade que alcançou em Inglaterra. E, sim, na Bundesliga há muitos estrangeiros, mas também alguns treinadores o são. Há mais diversidade, penso que falta ainda à selecção essa diversidade. Tudo isto não quer dizer que seja um caso de racismo; são, sim, diferentes estilos futebolísticos.

      É a minha maneira de ver a coisa. A selecção alemã tem de deixar o futebol “cerebral”.

      P. S. Sim, a Alemanha poderia ter goleado a Costa Rica. Mas não o fez. E os alemães desdenham de tal falta de eficácia. Como o meu falecido sogro (alemão) costumava dizer: “os portugueses querem levar a bola na mão até à baliza” (a criticar as fintas na grande área e um grande número de oportunidades perdidas).

      1. Então, e esses jogadores das fintas que ganham campeonatos em equipas da Bundeslig ?
        As equipas alemãs chegam quase sempre às finais/meias-finais das provas europeias

        1. As equipas são uma coisa, a selecção é outra. Mantenho que um dos problemas da selecção reside numa mudança de estilo e a adaptação está ser difícil. Mas hão-de conseguir, é uma questão de tempo.

          Quanto a campeonatos, uma única equipa ganhou, nos últimos dez anos: Bayern de Munique! A ver bem, há aqui uma falta de competição gritante. Talvez também isto esteja na base dos problemas.

  3. > Se a Alemanha já não tinha praticamente hipóteses, que fosse a Espanha também eliminada.

    Der Untergang. Já agora, que mal especial é que a Espanha lhes fez, para a preferirem nos eliminados em vez de um dos outros?

    1. Caro passante, pessoalmente, nada tenho contra a Espanha. Tive uma bisavó espanhola, já aqui falei dela (penso que duas vezes). Mas a rivalidade ibérica existe e existirá (de ambos os lados). Além da proximidade entre os dois países, há as conhecidas razões históricas. Historicamente, até podíamos discutir sobre a legitimidade de a Espanha ter esse nome. Mas não é isso que agora importa. Há uma outra razão para termos preferido ver a Espanha eliminada em vez dos outros, não a referi, porque a pensei subentendida e tento sempre ser económica nas palavras. Repare: num grupo com dois colossos como a Espanha e a Alemanha, era interessante serem as duas outras selecções a passar, coisa que a ninguém passava pela cabeça acontecer (e, de facto, não aconteceu).

      Para lhe dizer a verdade, da minha parte, talvez até existisse um pouco de receio nesse desejo. Se a Espanha não passasse, Portugal, por mais longe que fosse, nunca teria de a enfrentar. É que ainda não digeri bem a vitória da Espanha na Liga das Nações

      Por isso, não leve a mal. As palavras são um pouco duras, sim, talvez devesse ter utilizado outras. Mas é só mesmo rivalidade futebolística

      1. > não leve a mal

        De modo nenhum, estava só a entender a psicologia da coisa. Do Sansão ao Ragnarok há muito “não morrer sózinho”, a escolha de companhia é o busílis.

        Nem sequer tenho costado espanhol, mas com a idade ocorre-me que históricamente podemos ter feito mau negócio com os ingleses. Águas passadas.

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