Futebol e política.


Luís Menezes Leitão,

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Ainda para aí uma enorme polémica com o facto de, no interessantíssimo jogo Sérvia-Suíça, que os suíços venceram por 2-1, dois jogadores suíços de origem kosovar terem festejado os golos da Suíça fazendo com as mãos o símbolo da águia das duas cabeças, no intuito de insultar a Sérvia. A intenção pode ser essa, mas o acto parece falhado. O símbolo da águia das duas cabeças é extremamente comum e não exclusivo da Albânia. Tendo sido o antigo brazão do Império Bizantino, foi depois adoptado pelo Sacro Império Romano Germânico e pelo Império Russo, constando hoje das bandeiras da Rússia e da própria Sérvia. Por outro lado, os dois jogadores são de origem kosovar, que não tem qualquer águia bicéfala na sua bandeira, embora a esmagadora maioria da população seja albanesa. Se a intenção do gesto era insultar a Sérvia, acho que podia ter sido escolhido um gesto mais elucidativo.

 

Em qualquer caso, acho que o gesto demonstra duas coisas. A primeira é que o conflito dos Balcãs continua bem vivo, como aliás sempre esteve e sempre continuará a estar. Quando lhe sugeriram que a Alemanha interviesse nos Balcãs, Bismarck limitou-se a responder que os Balcãs eram uma terra horrível que não valia o sangue de um único soldado alemão. Imagine-se por isso o que será a União Europeia com a entrada da Sérvia, do estado artificial do Kosovo (onde a população se sente albanesa), da própria Albânia e da Macedónia, agora “do Norte” para não ofender a Grécia. A União Europeia vai passar a ter como membros uma série de países muito amigos. Não admira por isso que o Reino Unido se tenha querido pôr a milhas.

 

A segunda é que a actual configuração dos países europeus como “melting pots” é perturbadora para as suas selecções nacionais. Não consigo conceber que um jogador da Suíça queira festejar com o símbolo da Albânia (ou do Kosovo, ou do que quer que seja), países que nem sequer foram apurados para o Mundial, em lugar de utilizar o símbolo da cruz helvética, que é o país a que pertence e cujas cores é suposto defender. Acho que mais do que um insulto à Sérvia, isto foi um insulto à Suíça. E deveria ser a própria Suíça a punir exemplarmente os seus jogadores por esta triste figura. Se querem reproduzir no futebol o conflito nos Balcãs, vão jogar para os Balcãs.

18 comentários em “Futebol e política.”

  1. Estando de acordo também me parece vergonhoso dar a nacionalidade quando o único motivo para tal é “reforçar “as equipas da bola.

    1. A Suíça não deu nacionalidade a ninguém para reforçar a equipa de futebol. Todos os jogadores de origem estrangeira que jogam na seleção suíça ou nasceram na Suíça ou foram para lá levados pelos pais ainda quando crianças pequenas. Vá ver à wikipedia as histórias desses jogadores e facilmente confirma isto. Trata-se de pessoas nascidas e criadas na Suíça e que, como tal, têm direito à nacionalidade suíça.

        1. Pois, mas a nossa seleção é um caso totalmente diferente do da seleção suíça.
          No caso da nossa seleção, demos nacionalidade portuguesa a três jogadores brasileiros adultos. A nacionalidade foi concedida de acordo com todas as regras (eles tinham o direito legal de se tornarem portugueses, não foi nenhum favor especial que lhes foi feito), mas é um facto que se tratava de pessoas nascidas e criadas no Brasil.
          No caso da seleção suíça é totalmente diferente: há lá muitíssimos jogadores de origem estrangeira, mas todos eles nasceram e/ou foram criados na Suíça. São cidadãos suíços porque nunca conheceram outro país desde pequenos.

  2. Estou em crer que o LML em sua análise falha por não querer ver que os Balcãs transferiram-se para a UE. É uma realidade social, como bem aborda, e não geográfica.
    A segunda questão coloca-se ao nível dos símbolos, isto é, os jogadores usaram a águia das duas cabeças por desconhecerem o manguito do zé povinho português.
    Significa isto que Costa e a Catarina Martins andam a promover bastante mal o país. Eu sabia que as quotas não dariam bom resultado. O que é importante é saber fazer.

  3. Nao estou de acordo com a vossa opiniao, pelo facto de acharem que os jogadores estao a insultarem a Sérvia ou a Suiça. Foi simplesmente uma resposta aos insultos e assobios que os jogadores de origem Kosovar sofreram durante o jogo. Sou Português e sou Suiço e nao aceito que se insulte alguem pela origem da pessoa seja ela qual for.

  4. Na verdade Luís, não haveria muito melhores maneiras de insultar sérvios. O símbolo não é apenas o da Albânia, mas do conceito da Grande Albânia (como os sérvios têm o conceito da Grande Sérvia). Como escreves, o Kosovo (Kosovo i Metohija no seu nome original) é um estado artificial e que vive da relação com a Albânia e da protecção internacional. Ninguém lá se sente “kosovar”, todos são albaneses ou sérvios. É a diferença na região entre nacionalidade e cidadania. O mesmo com a Macedónia e outros “países” da região.

    Mas enfim. Se querem de facto fazer o símbolo, que o façam. Venceram e pelo que noto, os sérvios estão mais danados por não terem vencido o jogo que por símbolos feitos com mãos…

  5. Uma nota sobre a inferência dos motivos do Brexit – errada quanto às coordenadas mas bem metida, afinal “tudo igual” para quem votou pela saída.

    Sublinho a última frase. Mas discordo sobre a punição: a nacionalidade é mais do que um passaporte, e quem a atribui devia pensar no que está a fazer, se a reconhecer nacionalidade ou a competir por resultados.

    Sobre a amizade dos povos, bom… Povos ibéricos, bretãos, saxões, germanos, francos… tudo malta historicamente amiga, como se vê ainda hoje.

  6. O autor não atinge a capacidade necessária para compreender que numa sociedade globalizada, de fronteiras abertas, é natural e normal que hajam cidadãos com várias nacionalidades, que se sintam com o coração dividido entre os vários países constantes do seu BI.

    É tão normal um Suíço de origem Kosovar fazer o gesto da águia Albanesa ao festejar um golo contra a Sérvia, como um Português de origem Brasileira festejar um golo a dançar o samba.

    Não é insulto, é multiculturalismo. Não deve ser punido, deve ser compreendido. Algo, como disse, fora do alcance de mentes mais tacanhas e autoritárias, como é costume da direita radical que escreve propaganda neste “Avante” ora mais NeoLib, ora mais NeoCon (como é o caso), todos os dias…

    Aquilo que não é normal, e isso sim é assunto sério e que vos devia preocupar, é que o vosso querido PSD faz agora parte do grupo político NeoFascista da UE, tendo como camaradas os rapazes da Polónia que acabaram com o Estado de Direito, e os fofos da Hungria que aprovaram recentemente leis anti-imigração que só fazem lembrar as leis Nazis contra os Judeus.

    O PSD e o CDS ainda não abriram a boca contra os regimes Polaco, Húngaro, Austríaco (neo-Nazis no poder que celebraram o novo “Eixo” entre Baviera, Áustria e Itália…), e Eslovaco (também camarados do PSD e CDS, que gostam muito daquilo que Orbán, e mesmo Salvini, fazem).

    Eu sei de que lado estou, estou do lado de quem não se preocupa com futulidades como os gestos comemorativos de futebolistas, e de quem condena o que tem de ser condenado, independentemente da ideologia do regime em causa.

  7. > vão jogar para os Balcãs.

    Como disse o outro, os Balcãs produzem mais história do que consomem … é um produto de exportação.

  8. 1 – A águia bicéfola não é exclusiva da Albânia (que usa como herança… ou de qualquer “país” artificial). Para a Rússia representa(va) a imensidão do império russo.
    2 – Os dois jogadores estão naturalizados helvéticos e é a Suiça que representam no mundial. Deve(ou deveria) ser a Federação Helvética que deve assumir as consequências do acto dos jogadores.
    3- O seleccionador suiço é bósnio (ou melhor, bosno-croata) e vive na Suiça há muitos anos, primeiro como jogador e depois seleccionador. Tem nacionalidade Suiça.
    4 – A própria FIFA, quando da distribuição das selecções participantes por potes, colocou algumas impossibilidades, de entre elas a de que A Sérvia e a Croácia não podiam vir a ficar no mesmo grupo.

    João Moreira

    1. Os jogadores suíços não estão naturalizados suíços e o treindor suíço não é bósnio. Tanto os jogadores como o treinador são suíços porque, ou nasceram na Suíça, ou foram para lá levados em crianças pelos pais e foi lá que foram educados e cresceram como homens. Têm nacionalidade suíça por direito próprio e porque a Suíça é o país deles, não porque se tenham naturalizado.

      1. Peço desculpa, o que disse é verdade para os jogadores mas não para o treinador. O treinador suíço é efetivamente um bósnio naturalizado; foi para a Suíça como 24 anos de idade. Mas já vive na Suíça há 30 anos; será que ainda não tem direito a ser considerado 100% suíço?!

        1. Esclarecendo:
          1) A família destes jogadores é albanesa de origem – emigraram (isto é: mudaram de país) para o Kosovo, quando Tito abriu as fronteiras da antiga Jugoslávia para permitir que os albaneses fugissem da miséria do regime de Hosha. Ocuparam o Kosovo- Metohija, parte do Montenegro e da Macedónia.

          2) Escreveu: “A Suiça não deu nacionalidade a ninguém para reforçar a equipa de futebol.” Não?!
          Vejamos os 23 convocados (e bastam estes!):
          Dos 23 convocados para o Mundial da Rússia, oito nasceram em outros países: Yvon Mvogo, François Moubandje, Johan Djourou, Valon Behrami, Blerim Dzemaili, Gelson Fernandes, Xherdan Shaqiri e Breel Embolo. E quatro são filhos de imigrantes: Denis Zakaria, Mario Gavranovic, Manuel Akanji, Granit Xhakha e Haris Seferovic. Nesta relação, estão alguns dos principais jogadores da equipa de Vladimir Petkovic.

          3) Escreveu (…) “as provocações do adeptos sérvios (..)
          Na eliminatória do Euro 2016, Portugal fazia parte do mesmo grupo da Sérvia e da Albânia. A Sérvia comandava o grupo, antes do jogo Sérvia vs Albânia. Um drone lançado por albaneses interrompeu o jogo. A UEFA averbou derrota à Sérvia(???) deturpando a classificação e penalizou a Sérvia a ter de realizar jogos à porta fechada e retirar pontos. A classificação foi alterada e deturpada. Portugal e Albânia viriam a classificar-se.

          4) Num Mundial, um jogador representa um país (real! e não artificial). As manifestações de outro carácter que não o desportivo, são proibidas e penalizadas.

          João Moreira

  9. Algo me diz que o tom do post seria bem diferente se um qualquer outro actor da bola tivesse exibido uma estelada…

  10. a actual configuração dos países europeus como “melting pots” é perturbadora para as suas selecções nacionais

    O LML está a imaginar perturbações que na prática não se observam. Ninguém deixa de apoiar a sua seleção e ninguém deixa de apoiar todos os jogadores da sua seleção. As seleções continuam a gozar de amplo apoio mesmo quando grande parte dos seus jogadores são de origem estrangeira. Observa-se com as seleções o mesmo fenómeno que com os clubes, que continuam a gozar da mesma paixão mesmo quando trocam de jogadores como quem troca de camisa.

  11. Não encontro nenhuma águia bicéfala (ou águia de Springfield como lhe chama o meu filho) na bandeira da Sérvia. Encontro sim na do Montenegro.
    Sobre os Balcãs, e após várias visitas, concluo que o que lhes sobra em história falta-lhes em vogais.

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