Frases de filmes (32)


Pedro Correia,

 

“Sempre dependi da amabilidade de uns desconhecidos.”

Blanche DuBois/Vivien Leigh

em Um Eléctrico Chamado Desejo, de Elia Kazan (1951)

11 comentários em “Frases de filmes (32)”

    1. Agradeço-lhe a sugestão, mas quis evitar a tripla cacofonia (de-de-de), que soa pessimamente em português. Além de que o artigo indefinido vem aqui mesmo a calhar para acentuar uma nota de certa ambiguidade.

  1. Deixa-me perplexa: jamais me passaria pela cabeça traduzir “kindness” por “amabilidade” no contexto da peça, mas penso que é admissível. Quanto ao artigo indefinido, penso que, ao contrário da sua intenção, ele não deixa margem para qualquer ambiguidade.
    … esta coisa das traduções é uma dor de cabeca.

    1. As traduções são um excelente e muito estimulante desafio intelectual. Não há traduções perfeitas, mas há naturalmente umas mais justificáveis que outras. A sonoridade da língua portuguesa é um factor sempre a ter em conta. E nunca esquecer que, além da letra, há também o espírito do texto, como bem acentua.
      Já agora, fiquei curioso: qual seria a sua tradução desta frase tão conhecida de uma peça justamente célebre?

  2. “sempre dependi da bondade de estranhos” — é esta a tradução literal, que neste caso eu defendo porque: é mesmo de bondade que se trata; estranhos evita um terceiro de e soa, neste conjunto, melhor que desconhecidos; se acaso me decidisse por desconhecidos então utilizaria gentileza em vez de bondade: “sempre dependi da gentileza de desconhecidos”, evitando o terceiro de e o uso de uns.

    Mas o verdadeiro desafio é a primeira parte da frase: “Whoever you are –“. A economia do inglês é tramada.

    Costumo traduzir textos de que gosto pelo prazer do desafio, como muito bem diz. e com franqueza tenho tendência a fazer como o Jorge de Sena: sempre que possível, quanto mais perto do original, melhor.

    1. Nada mais ambíguo, por vezes, do que essa noção de estar “mais perto do original”. Uma atenção extrema à conotação semântica das palavras, quanto a mim, é a chave de uma boa tradução.
      Ainda há dias ouvi, numa notícia de política internacional emitida num telediário português, aludir à “resignação” de Fulano de Tal nos EUA. Havia ali uma tradução do original, em inglês: “resignation”. Pretendia-se dizer demissão. Claro que resignação, em português corrente, também significa demissão. Mas não é esse o significado imediato que colhemos deste vocábulo. Nada melhor do que eliminar as ambiguidades na linguagem corrente do jornalismo.
      Na frase do filme (e da peça) prefiro “amabilidade” por introduzir um fundo de ironia autodepreciativa no discurso de Blanche DuBois, em tudo consonante com o perfil da personagem. “Estranho” tem a desvantagem, em relação a “desconhecido”, a conotação com insólito e/ou excêntrico que neste contexto me parece descabida. Voltamos à história da resignação…
      Quanto ao Sena: conheço bem as traduções dele, aliás excelentes. Uma das traduções mais célebres que assinou é a do romance ‘The Sun Also Rises’, de Ernest Hemingway – que intitulou ‘Fiesta’, na edição portuguesa. Nada a ver com tradução literal, portanto. De onde se confirma que toda as regras têm excepção, mesmo por parte de quem as enuncia.

      1. Tenho estado ausente numa empreitada como aprendiz de carpinteiro e vim a casa rapidamente para uma sauna e para ler o correio electrónico. Inteiramente de acordo consigo no que respeita à semântica, aos disparates que o “à letra” implica. Por isso, disse “perto do original” sempre que possível, isto é, quando não se desvirtua o original e se respeita a língua para qual se transpõe. Quanto a “estranhos”, a sua conotação de “gente de fora, que não pertence ao círculo habitual” (sendo que este pode ser uma família, uma vila, etc.), sempre me foi usual. Será por ser nortenha?
        Acaba de me passar pela cabeça : “a bondade dos outros”.
        Ainda a propósito do Sena, a tradução dos poemas da Emily Dickinson é um exemplo do que afirmei, mas claro está que as excepções existem para serem usadas.
        E agora vou carpinteirar mais um bocado.

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