Fora de série (9/2)


Ana Vidal,

Nota prévia: No último jantar do Delito, onde foi lançada a ideia da série colectiva “Fora de série”, eu e o Zé Navarro de Andrade declarámos ao mesmo tempo que escolhíamos “Les Galapiats” (“Os pequenos vagabundos”, na tradução portuguesa). O mais engraçado é que foi também num uníssono imediato que repetimos as palavras que retivemos na memória até hoje, e de alguma forma nos marcaram para sempre: “C’est féerique!”. O que quer dizer que escolhemos ambos esta série pelas mesmas razões: uma paixão assolapada pelos protagonistas. Por isso combinámos escrever ambos sobre ela.

 

 

Pois é, Zé, nesse tempo não falavam os animais mas falavam as hormonas, e como! Ou melhor, gritavam, impunham-se, passavam à frente de tudo sem dó nem piedade. No teu caso (e no de muitos outros rapazinhos, aposto) com efeitos imediatos, traduzidas em furores físicos descontrolados. No meu, e no de tantas outras adolescentes românticas e ingénuas como eu, traduzidas em paixões sofridas, tão arrasadoras como inconsequentes.

 

Mas atenção, isto não é assunto com que se brinque: Jean-Loup foi o meu primeiro grande amor, e nem sequer posso dizer que fosse um amor “ virtual” já que, para mim, era a pura realidade. Se querem saber, acho que nem fazia ideia do nome do actor. Só agora descobri que se chamava Philippe Normand ou Philippe Cantrel, diferentes apelidos que usava como actor ou como cantor. Talentoso, hein? Foi uma paixão que levei tão a sério que condicionou totalmente os primeiros anos da minha vida amorosa, a ponto de só me ter permitido cair de amores por um rapaz (finalmente tangível, aleluia) parecidíssimo com o meu herói. Jean-Loup, o parisiense de férias na Bélgica, tinha criado na minha cabeça sonhadora um padrão, o meu modelo de príncipe encantado. Mais tarde, na mesma linha, veio Alain Delon, quem sabe se porque eu o imaginava como uma espécie de Jean Loup em adulto. O meu namorado de carne e osso era realmente parecido com ambos, e só não ponho aqui uma fotografia do dito (a prova inquestionável do que afirmo) porque não sei se ele lê o Delito.

jean loup Philippe Normand ou Cantrel.jpg

Por outro lado, e como não podia deixar de ser, havia a Marion-des-Neiges, a protagonista, para o Zé o supra-sumo da perfeição feminina aos 12 anos e para mim a rival odiada, deslavada e débil mental, sempre a precisar da protecção do meu herói e incapaz de uma proeza por conta própria. Bah.

 

“C’est féerique!” (nessa altura aprendíamos francês, aquela frase ficou-me atravessada no coração como um dardo, ainda antes de ler a legenda), referia-se aos bosques mágicos do Canadá e era dita no último episódio pela delambida Marion ao meu Jean-Loup, no momento da despedida de ambos, convidando-o a ir visitá-la um dia ao seu país. A sonsa. E eu sem nada de feérico para a troca: nada de florestas mágicas, só uma vilória rural com meia dúzia de pinheiros quase milenários, é certo, tudo o que restou do histórico e outrora famoso Pinhal da Azambuja. Uma vilória sem castelos de pontes levadiças nem tesouros perdidos por resgatar, onde o mais excitante que acontecia eram as largadas de touros, na feira de Maio, pelas ruas em que se misturavam poeira, febras na brasa e mil bebedeiras. A vida não é justa.

 

Por isso, por favor, não me contem o que sucedeu com o passar dos anos a Jean-Loup na vida real. Não quero saber. Deixem-me recordá-lo assim, um galã imberbe e aventureiro, de melena nos olhos, com solução para tudo e uma esperteza ilimitada para desmascarar malfeitores e salvar vítimas inocentes. Deixem-me retê-lo na memória desses anos de todas as ilusões, na versão “retrato do artista enquanto jovem” que me incendiava a imaginação e me povoava a mente e o coração, mesmo durante as aulas. A não ser, claro, que tenha casado com a idiota da Marion e estejam ambos obesos, num sofá qualquer em Montréal, a comer pipocas e a ver reality shows. Isso sim, seria a minha vingança servida fria. Gelada.

 

(A despedida e o célebre “C’est féerique!” – ver min 22.27)

0 comentários em “Fora de série (9/2)”

  1. Tem graça, vendo agora o excerto da série que a Ana aqui postou, eu recordo-me perfeitamente de a ter visto, só que, não só ela não me excitou hormonas absolutamente nenhumas (provavelmente eu era ainda demasiadamente novo nessa época) como até achei aquela cena de amor completamente deslocada e arreliante num filme de ação e aventura.

    1. Não idade tem, mas provavelmente estava numa fase em que as suas hormonas estavam ainda em hibernação. Eu tinha 14 anos, o auge da explosão das ditas.
      Mas também achei muito arreliante aquela cena, embora por outras razões.

      1. Como é que sabe que tinha 14 anos?
        Eu recordo-me da cena mas não me recordo com que idade a vi. E, consultando a net, vejo que esta série foi exibida pela RTP por diversas vezes ao longo dos anos 70. Portanto pergunto exatemente quando a terá a Ana (e eu) visto.

        1. Sempre o mesmo Lavoura picuinhas, hein? Sei lá qual foi o ano EXACTO em que vi a série e sei lá se tinha EXACTAMENTE 14 anos! Deduzi a minha idade nessa altura por causa das contas do Zé Navarro, que afirmou ter 12 anos (provavelmente tão arredondados como os meus 14). Mas devo ter visto a série da primeira vez que passou, e digo-o pelo impacto fortíssimo que teve em mim.

          Quanto à sua idade, continuo na mesma.

  2. “A não ser, claro, que tenha casado com a idiota da Marion e estejam ambos obesos, num sofá qualquer em Montréal, a comer pipocas e a ver reality shows. Isso sim, seria a minha vingança servida fria. Gelada.”

    Que delícia de texto (na íntegra, ou, em resumo, c’est féerique!)

          1. Lembro-me da série, mas não me lembro do ano em que passou, alguém terá a amabilidade de mo recordar ?

            Um dos meus deslumbramentos foi a Jennifer O’Neil, do filme “Summer of 42”, que creio ter passado cá antes do 25…ai Jennifer…

          2. Ó senhor Fernando Antolin, é só fazer as contas, isto é, ir à Wiki. Se lhe digo aqui à frente de toda a gente ainda há quem se ponha a fazer contas quanto à minha idade.

          3. Caríssimo, se é só fazer as contas, não vou perguntar ao Guterres…

            Fui ver, parece que foi exibido entre 1971 e 72, andava eu pelos meus 16/17 anos. Já era crescido, não ligava a lamechices…

            Abraço

  3. E pronto !
    É que nem mais. Disse tudo aquilo o que eu pensava dizer, mas não disse, porque não me assiste tamanha fluidez des mots.

    Tenho os episódios num disco e de vez em quando vejo. Garanto que ainda sont féeriques

  4. Não sei por que motivo ficastes tão embeiçados com a palavra féerique.
    Parece-me uma palavra apropriada para descrever as florestas do leste americano no outono. São uma explosão de cor inacreditável, de uma beleza ímpar, devido à abundância de carvalhos americanos (Quercus rubra) cujas folhas nessa época se tornam vermelho-vivo. E de áceres (esses têm folhas vermelhas o ano todo). Quem puder dar um saltinho à Pensilvânia ou ao Québeque no outono, que o constate.

    1. Sim, é essa a explicação que a miúda dá para chamar “féerique” a essa época do ano nos bosques do Québeque. A palavra ficou-nos gravada por outras razões, como já deve ter percebido (ou não?) pelos nossos textos.

      1. Não, de facto não tinha percebido, e continuo a não perceber.
        De qualquer forma não me interessa muito. Só queria assinalar com o meu comentário que os bosques são de facto féeriques (= muito coloridos) e que vale muito a pena ir lá vê-los. E não são somente os do Quebeque – todo o leste dos EUA está coberto deles.

        1. Ninguém diria que não lhe interessa muito, mas ainda bem. Assim poupa-me a mais explicações.

          Por outro lado, nós já tínhamos percebido que a sua discrição dos bosques “féeriques” é a mesma da Marion.

    2. Lavoura, por uma vez estamos de acordo! Seja Indian Summer ou Été Indien , é coisa de beleza inesquecível. E Montreal , lindíssima, lindíssima cidade…

      Mas (voltemos à nossa “questãozinha”), veja lá se faz – se lhes faz -alguma falta uniformizar o francês e o québécois , o inglês da Albion e as abundantes variantes do mesmo na América do Norte…

      Costa

  5. Curioso, o impacto que esta série teve na minha vida, daria para um texto enorme. E ver que partilho um gosto destes com dois dos escribas do Delito de que menos gosto, não deixa de ser uma coisa engraçada.
    Tenho esta série em DVD, tive que a comprar assim que foi editada. E já a vi vezes sem conta, a Marion de Neiges continua lindíssima, e o ideal adolescente de então. A RTP transmitiu esta série algumas vezes, até me lembro de a ter transmitido, 4 episódios de cada vez, em duas tardes de cinema. O que uma série de apenas 8 episódios fez….incrível. Já agora, o meu herói era o Cowboy, e não o Jean Loup 🙂

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