Fora da caixa (28)


Pedro Correia,

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«O PEV definiu um conjunto de prioridades que corresponde também a um conjunto de prioridades do PS.»

António Costa, ontem, na sede dos “Verdes”

 

De eleição em eleição, o Partido Comunista Português vai recuando. Já foi maioritário em largas parcelas do território nacional, que nas manhãs seguintes a cada escrutínio surgiam pintadas a vermelho nas páginas dos jornais. Hoje, em 308 concelhos, os comunistas estão confinados a dois: Avis e Mora, por sinal dos mais desertificados do País.

Tiveram os piores resultados de sempre nas presidenciais de 2016, nas autárquicas de 2017 e nas europeias de 2019. Acabam de registar novo recorde mínimo, desta vez em eleições legislativas: em quatro anos perderam 115 mil votos. Têm agora apenas cerca de 330 mil, correspondentes a uma percentagem de 6,5%. Se compararmos estes números com os que obtiveram no seu ponto máximo, em 1979, verificamos que os comunistas recuaram 150% em percentagem eleitoral e ficaram circunscritos a um quarto dos parlamentares então eleitos. Eram 47 em 250, agora são só 12 em 230. Há 40 anos, o PCP recolheu 1.129.322 boletins de voto, o que lhes proporcionou uma percentagem de 15,7%.

Tempos irrepetíveis.

 

Tudo se vai reconfigurando no reduto comunista, cada vez mais exíguo e acantonado.

Tudo? Tudo, não. Neste depauperado cenário eleitoral – que deixa de fora deputados como Carla Cruz, Bruno Dias, Rita Rato e Jorge Machado, além de Paulo Sá, que já não figurava na lista, e do reaparecido Miguel Tiago, remetido para um distrito de eleição impossível só para picar o ponto – há um partido que jamais recua. É o mesmo que nunca se submeteu a um teste eleitoral sem ser como muleta dos comunistas – essa fraude política chamada “Partido Ecologista Os Verdes”, existente desde 1982. Mantém dois deputados, chova ou faça sol. Desta vez, por obscuros motivos que escaparam ao escrutínio jornalístico, a gerência comunista decidiu excluir da eleição a “verde” Heloísa Apolónia, que passara metade da sua vida como deputada profissional – também ela remetida a um distrito de eleição impossível.

 

Vai iniciar-se outra legislatura. Lá surge de novo esta fraude política em todo o esplendor, funcionando como duplicação do tempo de intervenção dos comunistas no hemiciclo de São Bento, em organismos estatais como a Comissão Nacional de Eleições e o Conselho Nacional de Educação – e também no jornalismo burocrático que hoje predomina em vários circuitos informativos.

Foi o que voltou a suceder ontem, com a delegação socialista presidida por António Costa a visitar a sede do PEV, a manter “negociações” com os inquilinos daquela casa e alguém (não a desaparecida Heloísa, presumível dissidente) a falar em nome do partido-satélite do PCP, como se este tivesse um milímetro de autonomia estratégica. Um filme de ficção transmitido à hora dos telejornais.

Observo este lamentável teatro de sombras, caucionado por Costa, e questiono-me até quando a lei eleitoral portuguesa permitirá que uma agremiação partidária funcione durante mais de 35 anos sem nunca concorrer isolada às urnas. É uma pergunta que devia ser feita com insistência aos responsáveis políticos. Mas fica sempre por fazer. Infelizmente, também muitos jornalistas colaboram nesta farsa, fingindo levar a sério um partido que não existe.

21 comentários em “Fora da caixa (28)”

  1. até quando a lei eleitoral portuguesa permitirá que uma agremiação partidária funcione durante mais de 35 anos sem nunca concorrer isolado às urnas

    O problema não é esse. Não é a lei eleitoral que deve ser alterada. O problema, é a Assembleia da República (AR) permitir que atuem como partidos distintos partidos que concorreram coligados. Aquilo que deve ser alterado é o regimento da AR, por forma a que partidos que concorreram coligados não possam atuar como distintos.

    1. O problema é mesmo a lei eleitoral. Nenhum partido recém-estreado devia concorrer a mais de duas eleições consecutivas sem produzir candidaturas autónomas, É vergonhoso que o PEV tenha concorrido a DOZE eleições legislativas (já nem falo das autárquicas) sempre com o PCP a funcionar como barriga de aluguer.

      1. Curiosamente, a lei (segundo creio, posso estar errado) já hoje extingue automaticamente partidos que não concorram a, salvo erro, duas legislativas seguidas.
        No entanto, se concorrerem coligados, podem continuar a existir eternamente…

  2. Já tinha reparado que o PEV é uma fraude, mas escapou-me essa de nunca terem ido a eleições separados do PCP. Do ponto de vista dos resultados eleitorais é indiferente, quem vota PCP/PEV sabe ao que vai. No resto é realmente batota. O estranho é o PCP não aproveitar a tendência ecologista e desagregar o PEV – isolado talvez conseguisse um resultado razoável.

    1. Graças a esta batota, o PCP amplia os tempos de intervenção no parlamento, dispõe de mais espaço nos órgãos de informação e de mais assentos em organismos públicos, como a Comissão Nacional de Eleições e o Conselho Nacional de Educação.
      E muitos parecem achar normal esta flagrante e clamorosa anomalia.

  3. A Heloisa era uma belle toujour do parlamento.

    Para não ficar atrás, o be também tem o seu satélite agora (adorei a Mortágua limpar o passado do Rui Tavares. E ignorar o Ventura. O Bloco é no mesmo uma mistura de pulhice com criancice)

        1. Eu acho que A Polónia é um país completo, E Luísa é uma mulher completa.
          Porém, A Polónia tem a vantagem de não falar, E Luísa é uma esganiçada do caraças.
          Por isso, prefiro A Polónia, E Luísa não a quero para nada.

  4. O Partido Ecologista os Verdes nasceu em 1982 para proteger os mísseis nucleares SS-20 da União Soviética.

    Apontados entre outras cidades a Lisboa.

    lucklucky

  5. Na frase “Se compararmos estes números com os que obtiveram no seu ponto máximo, em 1979, verificamos que os comunistas recuaram 150% em percentagem eleitoral ” o que quer dizer com um recuo de 150%?

    Por exemplo se um partido tem 30% e recua para 10% eu diria que ele perdeu 20% (30%-10% foi a perda absoluta) ou então (20/30 ou 2/3)= 67% da percentagem inicial. Em qualquer dos casos o valor não pode exceder 100%. 150% segue que critério?

  6. “… lei eleitoral portuguesa permitirá …”.
    Os autores da Lei Eleitoral portuguesa não eram amadores. Sabiam muito bem o que estavam o “botar pela boca abaixo” dos ingénuos portuguêses de Abril. Tudo com a prestimosa colaboração de uns deputados constitucionalistas que ainda praí andam feitos democratas.

    Entretanto essa Lei Eleitoral, nada justa e com aspectos caricatos, geradora de falhas de representatividade política, mantem-se e mantem esta dita democracia, que de democracia pouco tem.
    Basta ver a inrepresentatividade rampante naquela Assembleia da República.

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