Lembrei aqui há dias, a propósito da morte de José Saramago, um gesto de Mário Bettencourt Resendes enquanto foi director do Diário de Notícias: convidou o Nobel português a regressar à redacção do jornal onde trabalhara em 1975, pondo fim simbólico a um longo desencontro entre o escritor e o jornal por motivos que são do conhecimento público. Fez isto à esquerda, com Saramago. Fez o mesmo à direita, com João Coito. Os grandes jornais devem funcionar como instituições, assumindo o seu passado – feito de luzes e sombras – e cada momento da sua história. O Mário estava certo ao pensar assim. Mas os gestos a que me refiro são também particularmente significativos por revelarem uma faceta essencial deste homem bom que na madrugada de ontem morreu após um tenaz combate contra a doença que o atingiu demasiado cedo: ele sabia ser um traço de união entre pessoas das mais diversas tendências e sensibilidades. E fazia isso com gosto, calor humano e uma certa grandeza natural que se coadunava em absoluto com a sua personalidade.
Trabalhei diariamente com ele no DN durante sete anos, entre 1997 e 2004, e guardo do Mário a melhor das recordações como director. Mantinha a porta do gabinete aberta, em comunicação permanente com a redacção, e nunca regateava uma palavra de incentivo e estímulo a todos no jornal, particularmente aos jornalistas mais jovens. Gabava-se – e com razão – de ter um raro instinto para descobrir talentos e percebia como poucos a importância da motivação nas empresas jornalísticas modernas embora jamais se esquecesse de recomendar aos recém-chegados que não basta a competência técnica: é igualmente necessária a qualidade humana.
Sentia natural orgulho por ter conduzido o DN a líder do mercado, no seu segmento de audiência, depois de anos de duro despique com o Público, o concorrente mais directo. Isso, porém, nunca o fez perder de vista o essencial: no cerne da actividade jornalística existe uma insubstituível missão social que não deve ser confundida com guerras de audiências destinadas a angariar uns quantos anúncios a qualquer preço ou a atrair uns tantos leitores através da manchete que berra em vez da manchete que informa e esclarece.
Há pouco, ao regressar do velório na igreja de São João de Deus, enquanto percorria a pé a avenida de Roma, ia pensando como o Mário sabia coleccionar amizades enquanto outros, nesta profissão por vezes tão ingrata, vão coleccionando inúteis rancores e incompreensíveis agravos. Pela vida fora encontramos dois géneros muito diferentes de pessoas: aquelas que gostam de se rodear de muros e as que preferem construir pontes em direcção aos outros. A natureza vital do Mário levava-o a construir essas pontes – nas mais diversas direcções e nas mais diversas circunstâncias. Casos como o dele vão sendo cada vez mais raros neste pequeno mundo cheio de desencontros que é o da “comunicação”. Onde hoje afinal se comunica tão pouco e de forma tão deficiente. Onde a tendência imediata é ver adversários onde apenas deveria haver interlocutores.
Trabalhar com o Mário Bettencourt Resendes foi um privilégio. Não só pelas lições profissionais que dele recebemos mas também pelas lições de vida que soube transmitir-nos naqueles anos tão estimulantes para o jornalismo português. Há poucos meses, com a convicção que sempre punha nas grandes causas relacionadas com a profissão, deixou bem claro em entrevista ao i: “Quando um jornalista é confrontado com uma situação em que seja óbvio que o interesse público manda violar a lei, o jornalista deve fazê-lo.”
Vai fazer-nos falta. Mas o exemplo dele fica.
LER:
Sobre o Mário. Do Pedro Rolo Duarte.
Uma pessoa de categoria. Do Duarte Calvão.
Mário. Do Luís Naves.
O Mário deixou-nos. Do João Severino.
Mário Bettencourt. Do Francisco José Viegas.
Mário Bettencourt Resendes. De José Pimentel Teixeira.
Mário Bettencourt Resendes – um longo abraço. De José Medeiros Ferreira.
Foto: Alexandre Almeida (jornal i)


Excelente registo, Pedro.
Limitei-me a conhecê-lo pelo que li e pelo que ouvi. E foi quanto bastou para o seguir e admirar.
De alguns homens poder-se-á dizer com propriedade que não será preciso conviver com eles para se perceber a sua dimensão. O Mário Bettencourt Resendes foi seguramente um deles.
Concordo inteiramente, Sérgio. Também não convivi com ele mas sempre lhe admirei a verticalidade, ao mesmo tempo delicada e firme.
Muito bonita a tua homenagem, Pedro.
Sábias palavras, meu caro Pedro. Gostar de gostar das pessoas, acolhê-las com alegria, eis uma arte a acalentar. Toda a afabilidade e paciência que usemos para com os outros, mesmo quando maltratados e perseguidos, um tesouro acumulado e imperecível algures.
Ainda há momentos Luís Delgado, de cujo “comentário” nem gosto muito, relatava com simplicidade, na SICN, a saga das últimas semanas.
No limite, o Mário sentiu o desejo da Extrema Unção, que é um Sacramento de Cura integral e não de desengano. Mas desejava-o ministrado pelo seu amigo de infância Padre Rego, o que se conseguiu.
Como relatava o Luís, chamando-lhe um milagre (coisa tão luminosa e absolutamente transcendente como discreta para quem o viva) no dia seguinte, o Mário estava assombrado por estar ainda vivo.
Interrogou a enfermeira sobre se estava de facto. Contra as suas expectativas, pôde prolongar o convívio com os que amava por mais algum tempo e depois partir, como partiu, em total serenidade.
Abraço.
TUDO ISSO SE PASSOU DIA10 DE JULHO, A mim , dia 11 disse… Ressuscuitei !….Vem ver a final do mundial comigo. Fui , vimos , comentamos e ele que queria a Espanha vencedora ficou feliz.
Querido MÁRIO que saudades já tenho de ti!Se puderes vem passar mais um serão comigo…. Fazes-me muita falta!
Depois de ler tantas referências a este triste acontecimento (todas elas com apreciações positivas sobre o homem que agora desapareceu) é bom ler a opinião de alguém que com ele lidou de perto para reforçar aquilo que já sabíamos: perdeu-se uma referência do jornalismo. Esperemos que nas escolas onde se formam os futuros jornalistas não se esqueçam de falar do seu exemplo e ler textos ou visionar debates onde a correcção da sua postura perante as situações deverá sempre ser salientada.
Infelizmente, Ana, nas escolas onde se ensina hoje jornalismo rejeitam jornalistas da têmpera do Mário.
Caro Pedro,
Obrigado pela partilha de tão nobre e belo testemunho.
Um grande abraço.
Obrigada Pedro pelas suas palavras.Hoje perdi muito mais que um amigo…. TALVEZ um filho! Durante mais de 40 anos ELE foi um “brinde” que a vida me deu….
A si não o conheço, e por isso não o identifiquei na igreja, porque se o tivesse feito, seria um enorne prazer abraçá-lo.Comigo o MÁRIO deestará sempre embora saiba que NUNCA MAIS VOU VÊ-LO, CONVERSAR, APRENDER , MIMÁ-LO. Grande parte de mim desapareceu hoje!
Uma nobre homenagem a um homem de referência na área do jornalismo e na tão difícil área do relacionamento humano. Uma perda. Um exemplo.
Bela homenagem, Pedro.
Olá Pedro 🙂
Fiz link deste texto…
… com um abraço grato e sentido.
Bonita homenagem a um homem que todos nos habituamos a respeitar e admirar, mesmo aqueles que, como eu, e sem nos apercebermos, afinal apenas o conhecíamos do que dele líamos e ouvíamos. Do muito que já vi e ouvi sobre o desparecimento deste homem bom, deixo aqui a imagem que, entre todas as que encontrei, melhor me parece identificá-lo: o homem que não construía muros mas apenas pontes!
Pedro, uma homenagem tocante, este teu texto. Eu não conhecia o Mário Bettencourt Resendes, mas tinha uma excelente imagem dele, pelo que escrevia, pelo que o ouvia dizer. Vi-o apenas uma vez, quando fui ao DN a pedido de uma jornalista que queria recolher umas declarações minhas. Passei por uma sala com muitos jornalistas e ao fundo vi uma porta aberta que dava para um pequeno gabinete, onde o Mário Bettencourt Resendes estava a trabalhar.
Bem hajas, Pedro, por texto tão merecido. Obrigado pela referência.
Mutio bonito o teu texto, tão triste a partida.