
«A lógica pode de facto ser inabalável, mas não pode resistir a um homem determinado a viver.”
Franz Kafka, O Processo
Pode ser visitada na Cordoaria Nacional (Avenida da Índia, Lisboa). É uma das melhores exposições do ano na capital. Com trabalhos visuais de todo o tipo – desenho, gravura, escultura, filme, fotografia – de Ai Weiwei, o mais célebre artista chinês contemporâneo. Perseguido, preso, diabolizado e expulso pela ditadura chinesa, de que é firme opositor. Nestes dias de exílio forçado, sem perspectiva de regresso, radicou-se no Alentejo, onde se sente como nunca se sentiu no seu país: cidadão livre.
Esta exposição é um grito de revolta contra a tirania de Pequim. E contra todos os sistemas totalitários. Com remadores de galés retratados em cerâmica. Quadros de repressão que podem aplicar-se a diversas latitudes, inspirados na estética da banda desenhada. A reprodução espantosamente realista da cela onde ele próprio esteve detido e foi submetido a duros interrogatórios só por querer dar livre expressão ao seu talento fora do cânone definido pelo partido único que governa a China desde 1949.



Filho do grande poeta Ai Qing, censurado e torturado durante a chamada “Revolução Cultural”, nas décadas de 60 e 70, declara-se artista de dimensão política, assumido opositor ao regime comunista. Nasceu em 1958 e passou cinco anos com a família num campo de trabalhos forçados – facto que o marcou para sempre. E bem se reflecte no seu trabalho, eloquente grito de revolta contra a opressão, simbolizado na frase de Kafka citada acima e destacada na exposição. «A arte salvou-me da crueldade da vida», confessou numa entrevista recente.
Ai Weiwei, até domingo que vem na Cordoaria, bem merece uma visita. Ter escolhido Portugal para viver é motivo de orgulho para todos nós.

