António Costa não percebe e acredito que, contra os seus hábitos, esteja a ser sincero: não percebe mesmo. A ideia de que não compete ao Estado sustentar artistas, oferecendo ao público aquilo a que o público pode aceder, se quiser, pagando do seu próprio bolso, não lhe ocorre. E menos ainda lhe passa pela cabeça que o Estado nunca oferece nada: o que gasta com uns deixa de gastar com outros; e não pode nunca dar sem cobrar primeiro ꟷ com juros, se for depois.
Dos artistas a inaugurar a série (Fernando Tordo, Marisa Liz, Ricardo Ribeiro e Rita Guerra) só conheço o primeiro, mas não foi pelo ardente desejo de não ouvir os seus gorjeios que assinei a petição para cancelar o deboche. Para isso bastava-me não ligar o canal ou canais onde ele tivesse lugar, coisa que aliás faço quase sempre que a música seja ligeira.
A simpática e desnorteada ministra da Cultura deve ter ficado varada com a reacção. Porém, uma petição que recolhe num dia mais de 20.000 assinaturas não a deveria impressionar por aí além se estivesse a fazer alguma coisa que coubesse dentro das atribuições do seu ministério e correspondesse a alguma política consistente de cultura.
Uma petição é uma manifestação na internet, que tem duas vantagens sobre as de rua: agrega quem dificilmente se daria ao trabalho de se misturar com os profissionais do ramo do berreiro; e diz claramente ao que vem, como as outras, mas explica porque vem.
Sucede que o artigo do Público para que remete o link acima abunda nas tradicionais queixas dos que ficaram de fora e na discussão dos critérios a que deve obedecer a distribuição de subsídios. Quaisquer que sejam os critérios, ou a falta deles, seja para pôr uns maganos a gemer a um microfone, para juntar uma troupe para realizar um filme que ninguém quer ver ou encenar uma peça a que ninguém quer assistir, para ajudar uns futuros génios a borrar umas telas, ou para desfear o espaço público com esculturas ou instalações de consagrados como Cabrita Reis, a quem sobra em lata e influência o que falta em talento, há sempre quem discorde.
Os que discordam acham que deviam ser eles os beneficiados, ou a seita deles. Compreendo os queixumes, de mais a mais agora que haverá artistas que estão a passar mal e a ver a vida a andar para trás; e, na verdade, não me incomodo excessivamente com a caridade pública de não os deixar morrer de fome.
Mas uma coisa é ocorrer a desvalidos; e outra, muito diferente, coonestar este negócio obsceno, que dura há demasiado tempo, de comprar o apoio da gente dita da cultura com o expediente de a sustentar com dinheiros públicos.
Entendamo-nos: o Estado gasta pouco com o ensino musical, na minha discutível opinião, mas isso é um assunto de educação, e logo doutra pasta; o mercado não sustenta, só por si, orquestras sinfónicas ou teatros, mas nem por isso os conservatórios ou os teatros nacionais devem ser encerrados, mas isso não tem directamente a ver com o passadio de A ou B.
O ideal seria que o ministério da cultura tratasse dos monumentos em ruínas, das bibliotecas sem condições, dos museus sem acervos que prestem, ou mal conservados, ou ocultos; e que, em suma, se tiver de apoiar a cultura, na ausência de outros mecenas que não a Gulbenkian, porque em Portugal até os ricos são pobres, subsidie organizações sólidas e com tradição segundo critérios objectivos compreensíveis, não circo para a populaça nem bodos para grupos de amigos muito lá de casa.

Muito boa noite
Assino por baixo.
Tenha uma Páscoa o melhor possível.
Saúde.
António Cabral
Mas os monumentos também comem? E têm filhos? Deixe ver se percebi,os que assinaram foram contemplados?? Tipo…Salvador Sobral? Pois…
Olhem logo quem. Salvador Sobral.
Deviam estar todos bêbedos, ou os astros todos alinhados para a estupidez colectiva quando votaram nele.
O Pedro Correia não concorda consigo.
WW
Quando eu concordo ou discordo seja do que for, escrevo e assino.
Nunca precisei de mandar dizer nada por ninguém – nem sequer de putativos porta-vozes que assinam por extenso, quanto mais dos que só “assinam” com iniciais.
Estive para dizer aqui ao WW, Pedro, que somos muito diferentes, desde logo porque eu sou muito mais bonito e tu muito melhor em inúmeras coisas, mas achei que não valia a pena.
Eheh. Não vale a pena, meu caro: fica só entre nós.
Boa Páscoa, com saúde e a alegria possível, para ti e os teus.
“… em Portugal até os ricos são pobres..” de espírito, principalmente.
E aqui temos a xenofobia Marxista aceite.
lucklucky
A malta artista tem de ser uns para os outros. Isso do artista só ser artista se passasse fome era no tempo do van gago, o pintor mouco.
Portanto, os artistas da política ajudam os artistas da rádio, TV e disco.
Concordo, aprovo e aplaudo!
Só não assinei a petição porque não dei conta que andava por aí.
Complemento dizendo que muito me apraz ainda ver gente ajuizada neste país de tolos. Pensem mais no trabalho e menos em cantorias, que música que chegue já nos vai dando o bicho.
Uma excelente Páscoa
O problema, segundo me apercebi da reação entusiástica e cínica do Tordo, é que eles vão receber na mesma as chorudas esmolas que constavam dos contratos..se é que houve, ou seja, daquilo que esses seres parasitários iam receber se houvesse lá a tal Fest.
Isto é um verdadeiro insulto ao contribuinte…..
É uma reflexão que este sector (entre outros) terá de (novamente) fazer. Sobretudo depois da “falência” da indústria discográfica, foi nos espectáculos e apresentações ao vivo que a maior parte dos músicos encontrou o seu ganha-pão. Que agora se encontra comprometido, a médio prazo: mesmo com o fim do confinamento, continuarão por bons meses as restrições aos grandes aglomerados e a imposição da distância social.
Os bardos vão ter de rever e recriar o seu emprego. Uns investirão e sobreviverão no mundo internáutico, outros voltarão à apanha da pêra rocha. Mas temo que a maior parte se encoste a chorar pela teta do Estado, ao descobrir que não servem nem para pregar um botão.
Na realidade também eu não percebo estas merdas. O ser divino como eu também tem o direito democrático de não entender tudo o que vem destas almas humanas.
Misturar uma iniciativa que a meu ver, tendo em conta as circunstâncias, deve partir do governo e mesclar questões assistências e culturais para impugnar a mesma é de bradar aos céus; e é natural que um ser divino como eu estremeça que nem um tsunami perante tanta, digamos, o que se quiser entender.
Porra, a iniciativa é para o público e não para os cultores da cultura; e esta iniciativa que envolve verbas tinha que manter um critério de entretenimento que até era ou é liderado por alguém que percebe da matéria: Júlio Isidro.
Dito isto, como promotor musical divino que sou, deixo aqui uns rasgadores excepcionais do jazz mainstream: FFI
https://www.youtube.com/watch?v=OMO4X6e7
O Sr. Costa, do alto da sua coerência e convicção de um líder que aponta o caminho às toscas massas, não entende tantas críticas à ideia, mas mesmo não convencido, manda cancelar a coisa. As rolhas também são assim.
O ideal seria que o ministério da cultura tratasse dos monumentos em ruínas, das bibliotecas sem condições, dos museus
Mas porquê? Porque há de o ministério da Cultura tratar de um museu, e não do Fernando Tordo? Quem nos diz que o povo não prefere o Tordo ao museu? Se o autor do post reclama que o Tordo deve ser pago pelo povo, e não pelo Estado, então eu também reclamo o mesmo, que o museu e a biblioteca devem ser pagos pelo povo, e não pelo Estado!
Este post é de uma incoerência brutal, ao exigie que o ministério da Cultura não dê dinheiro aos autores atuais, mas ao mesmo tempo a pedir que ele o dê aos monumentos, aos museus e às bibliotecas. Se o autor do post acha que o Estado não deve dar dinheiro, então seja coerente e diga que não o deve dar a ninguém – nem aos artistas, nem aos museus, nem aos monumentos, nem às bibliotecas!
Mas então porque é que o Estado subsidia orquestras sinfónicas e, até, uma Companhia Nacional de Bailado? Não deveria ser o público, exclusivamente e totalmente o público, a pagar esses artistas?
Eu vejo nos liberais de direita uma grande, enorme incoerência nesta coisa da cultura. Não querem que o Estado financie música ligeira nem teatro – os seus ódios de estimação. Mas acham ótimo que o Estado financie música clássica, bailado, museus, bibliotecas e monumentos.
Pá, sejam coerentes. Querem que o Estado financie aquilo de que gostam e que veneram, então aceitem que o Estado financie também aquilo de que não gostam ou que, até, desprezam.
” Mas então porque é que o Estado subsidia orquestras sinfónicas e, até, uma Companhia Nacional de Bailado? Não deveria ser o público, exclusivamente e totalmente o público, a pagar esses artistas?”
Não! Não deveria ser o público a pagar e deve ser mesmo o Estado a arcar com o investimento da coisa/s.
Porque orquestra sinfónica é arte, bailado é arte e arte é cultura, cultura é educação, educação é civilização e civilização torna um povo mais capaz, considerado e respeitado por outros povos.
Musiquinha tipo Ti Jacinta quem quiser ser ouvido que a promova.
Aluga a sala, – a expensas próprias, obviamente, – arca com os custos da publicidade, se a quiser, depois abre a porta, sobe ao palco e cobra os bilhetes de quem quiser ir ouvi-lo.
Tudo isto sem incomodar ninguém nem prejudicar o Estado que somos nós, porque como eu sempre disse, emitir um som é, por si, saudável conquanto não incomode ninguém.