Festa na RTP


José Meireles Graça,

António Costa não percebe e acredito que, contra os seus hábitos, esteja a ser sincero: não percebe mesmo. A ideia de que não compete ao Estado sustentar artistas, oferecendo ao público aquilo a que o público pode aceder, se quiser, pagando do seu próprio bolso, não lhe ocorre. E menos ainda lhe passa pela cabeça que o Estado nunca oferece nada: o que gasta com uns deixa de gastar com outros; e não pode nunca dar sem cobrar primeiro ꟷ com juros, se for depois.

Dos artistas a inaugurar a série (Fernando Tordo, Marisa Liz, Ricardo Ribeiro e Rita Guerra) só conheço o primeiro, mas não foi pelo ardente desejo de não ouvir os seus gorjeios que assinei a petição para cancelar o deboche. Para isso bastava-me não ligar o canal ou canais onde ele tivesse lugar, coisa que aliás faço quase sempre que a música seja ligeira.

A simpática e desnorteada ministra da Cultura deve ter ficado varada com a reacção. Porém, uma petição que recolhe num dia mais de 20.000 assinaturas não a deveria impressionar por aí além se estivesse a fazer alguma coisa que coubesse dentro das atribuições do seu ministério e correspondesse a alguma política consistente de cultura.

Uma petição é uma manifestação na internet, que tem duas vantagens sobre as de rua: agrega quem dificilmente se daria ao trabalho de se misturar com os profissionais do ramo do berreiro; e diz claramente ao que vem, como as outras, mas explica porque vem.

Sucede que o artigo do Público para que remete o link acima abunda nas tradicionais queixas dos que ficaram de fora e na discussão dos critérios a que deve obedecer a distribuição de subsídios. Quaisquer que sejam os critérios, ou a falta deles, seja para pôr uns maganos a gemer a um microfone, para juntar uma troupe para realizar um filme que ninguém quer ver ou encenar uma peça a que ninguém quer assistir, para ajudar uns futuros génios a borrar umas telas, ou para desfear o espaço público com esculturas ou instalações de consagrados como Cabrita Reis, a quem sobra em lata e influência o que falta em talento, há sempre quem discorde.

Os que discordam acham que deviam ser eles os beneficiados, ou a seita deles. Compreendo os queixumes, de mais a mais agora que haverá artistas que estão a passar mal e a ver a vida a andar para trás; e, na verdade, não me incomodo excessivamente com a caridade pública de não os deixar morrer de fome.

Mas uma coisa é ocorrer a desvalidos; e outra, muito diferente, coonestar este negócio obsceno, que dura há demasiado tempo, de comprar o apoio da gente dita da cultura com o expediente de a sustentar com dinheiros públicos.

Entendamo-nos: o Estado gasta pouco com o ensino musical, na minha discutível opinião, mas isso é um assunto de educação, e logo doutra pasta; o mercado não sustenta, só por si, orquestras sinfónicas ou teatros, mas nem por isso os conservatórios ou os teatros nacionais devem ser encerrados, mas isso não tem directamente a ver com o passadio de A ou B.

O ideal seria que o ministério da cultura tratasse dos monumentos em ruínas, das bibliotecas sem condições, dos museus sem acervos que prestem, ou mal conservados, ou ocultos; e que, em suma, se tiver de apoiar a cultura, na ausência de outros mecenas que não a Gulbenkian, porque em Portugal até os ricos são pobres, subsidie organizações sólidas e com tradição segundo critérios objectivos compreensíveis, não circo para a populaça nem bodos para grupos de amigos muito lá de casa.

18 comentários em “Festa na RTP”

  1. Mas os monumentos também comem? E têm filhos? Deixe ver se percebi,os que assinaram foram contemplados?? Tipo…Salvador Sobral? Pois…

    1. Olhem logo quem. Salvador Sobral.
      Deviam estar todos bêbedos, ou os astros todos alinhados para a estupidez colectiva quando votaram nele.

    1. Quando eu concordo ou discordo seja do que for, escrevo e assino.
      Nunca precisei de mandar dizer nada por ninguém – nem sequer de putativos porta-vozes que assinam por extenso, quanto mais dos que só “assinam” com iniciais.

  2. A malta artista tem de ser uns para os outros. Isso do artista só ser artista se passasse fome era no tempo do van gago, o pintor mouco.
    Portanto, os artistas da política ajudam os artistas da rádio, TV e disco.

  3. Concordo, aprovo e aplaudo!
    Só não assinei a petição porque não dei conta que andava por aí.
    Complemento dizendo que muito me apraz ainda ver gente ajuizada neste país de tolos. Pensem mais no trabalho e menos em cantorias, que música que chegue já nos vai dando o bicho.
    Uma excelente Páscoa

  4. O problema, segundo me apercebi da reação entusiástica e cínica do Tordo, é que eles vão receber na mesma as chorudas esmolas que constavam dos contratos..se é que houve, ou seja, daquilo que esses seres parasitários iam receber se houvesse lá a tal Fest.

    Isto é um verdadeiro insulto ao contribuinte…..

  5. É uma reflexão que este sector (entre outros) terá de (novamente) fazer. Sobretudo depois da “falência” da indústria discográfica, foi nos espectáculos e apresentações ao vivo que a maior parte dos músicos encontrou o seu ganha-pão. Que agora se encontra comprometido, a médio prazo: mesmo com o fim do confinamento, continuarão por bons meses as restrições aos grandes aglomerados e a imposição da distância social.

    Os bardos vão ter de rever e recriar o seu emprego. Uns investirão e sobreviverão no mundo internáutico, outros voltarão à apanha da pêra rocha. Mas temo que a maior parte se encoste a chorar pela teta do Estado, ao descobrir que não servem nem para pregar um botão.

  6. Na realidade também eu não percebo estas merdas. O ser divino como eu também tem o direito democrático de não entender tudo o que vem destas almas humanas.

    Misturar uma iniciativa que a meu ver, tendo em conta as circunstâncias, deve partir do governo e mesclar questões assistências e culturais para impugnar a mesma é de bradar aos céus; e é natural que um ser divino como eu estremeça que nem um tsunami perante tanta, digamos, o que se quiser entender.

    Porra, a iniciativa é para o público e não para os cultores da cultura; e esta iniciativa que envolve verbas tinha que manter um critério de entretenimento que até era ou é liderado por alguém que percebe da matéria: Júlio Isidro.

    Dito isto, como promotor musical divino que sou, deixo aqui uns rasgadores excepcionais do jazz mainstream:
    https://www.youtube.com/watch?v=OMO4X6e7FFI

  7. O Sr. Costa, do alto da sua coerência e convicção de um líder que aponta o caminho às toscas massas, não entende tantas críticas à ideia, mas mesmo não convencido, manda cancelar a coisa. As rolhas também são assim.

  8. O ideal seria que o ministério da cultura tratasse dos monumentos em ruínas, das bibliotecas sem condições, dos museus

    Mas porquê? Porque há de o ministério da Cultura tratar de um museu, e não do Fernando Tordo? Quem nos diz que o povo não prefere o Tordo ao museu? Se o autor do post reclama que o Tordo deve ser pago pelo povo, e não pelo Estado, então eu também reclamo o mesmo, que o museu e a biblioteca devem ser pagos pelo povo, e não pelo Estado!

    Este post é de uma incoerência brutal, ao exigie que o ministério da Cultura não dê dinheiro aos autores atuais, mas ao mesmo tempo a pedir que ele o dê aos monumentos, aos museus e às bibliotecas. Se o autor do post acha que o Estado não deve dar dinheiro, então seja coerente e diga que não o deve dar a ninguém – nem aos artistas, nem aos museus, nem aos monumentos, nem às bibliotecas!

  9. Mas então porque é que o Estado subsidia orquestras sinfónicas e, até, uma Companhia Nacional de Bailado? Não deveria ser o público, exclusivamente e totalmente o público, a pagar esses artistas?

    Eu vejo nos liberais de direita uma grande, enorme incoerência nesta coisa da cultura. Não querem que o Estado financie música ligeira nem teatro – os seus ódios de estimação. Mas acham ótimo que o Estado financie música clássica, bailado, museus, bibliotecas e monumentos.

    Pá, sejam coerentes. Querem que o Estado financie aquilo de que gostam e que veneram, então aceitem que o Estado financie também aquilo de que não gostam ou que, até, desprezam.

  10. ” Mas então porque é que o Estado subsidia orquestras sinfónicas e, até, uma Companhia Nacional de Bailado? Não deveria ser o público, exclusivamente e totalmente o público, a pagar esses artistas?”
    Não! Não deveria ser o público a pagar e deve ser mesmo o Estado a arcar com o investimento da coisa/s.
    Porque orquestra sinfónica é arte, bailado é arte e arte é cultura, cultura é educação, educação é civilização e civilização torna um povo mais capaz, considerado e respeitado por outros povos.
    Musiquinha tipo Ti Jacinta quem quiser ser ouvido que a promova.
    Aluga a sala, – a expensas próprias, obviamente, – arca com os custos da publicidade, se a quiser, depois abre a porta, sobe ao palco e cobra os bilhetes de quem quiser ir ouvi-lo.
    Tudo isto sem incomodar ninguém nem prejudicar o Estado que somos nós, porque como eu sempre disse, emitir um som é, por si, saudável conquanto não incomode ninguém.

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