
Natural do Cercal (Alentejo), passou uma boa parte da vida fora do seu país.
Licenciado e Mestre em Sociologia pela Universidade de Paris III (Sorbonne-Nouvelle), com diploma de Estudos Aprofundados da Universidade de Paris VIII, doutorou-se em 1988 com uma tese que tinha por título “I república portuguesa: questão eleitoral e deslegitimação”. Leccionou em Portugal e no estrangeiro e foi um dos fundadores da Associação Portuguesa de Ciência Política.
No início deste século, foi ele quem me introduziu nas questões do clientelismo e do caciquismo, mas creio que os seus trabalhos sobre os partidos políticos são o melhor que nos lega. Deu-me a conhecer Panebianco, ajudou-me a melhor compreender Michels, Ostrogorsky, Pareto, Mosca e tantos outros.
Mais tarde viria a ser meu orientador durante o mestrado, tendo-me chegado a propor, com o vasto material que eu na altura possuía, que prosseguisse logo para o doutoramento, o que por razões profissionais e económicas não pude fazer.
Aqui há uns anos, já reformado, estando eu então a fazer o prometido doutoramento, ainda tive o privilégio de o reencontrar, de participar e de o ver conduzir um pequeno seminário na Universidade Nova de Lisboa. De novo sobre os partidos políticos.
Na minha memória, para além das aulas que me deu e de tudo aquilo que me ensinou e deu a ler, ficam as manhãs passadas à mesa da Frolic, no Estoril, quando eu ia do Algarve para com ele me encontrar, aos sábados de manhã, e entre dois cafés me lia as notas que tinha deixado à margem dos meus textos e discutíamos as questões relacionadas com as elites e a minha dissertação. Não me esquecerei do seu sorriso e do abraço que me deu quando os Professores Costa Pinto e Tavares de Almeida anunciaram o resultado da sua paciência.
E também da satisfação que lhe deu a orientação do meu trabalho nessa fase inicial, bem como os resultados que entretanto obtive, mas já não irei a tempo de lhe dizer que também hoje dou aulas numa universidade, do outro lado do mundo, fazendo uso e transmitindo aos outros, o melhor que posso e sei, o que com toda a bondade deste mundo me ensinou.
Soube esta manhã da sua partida por uma curta e sentida nota do Prof. André Freire, também este seu discípulo e colega, a quem daqui envio um abraço solidário, extensivo aos seus familiares, colegas e amigos.
Se 2019 terminou triste, 2020 não podia começar pior. Mas espero que ao Professor Fernando Farelo Lopes, lá por onde agora andará, não lhe faltem os livros, nem o sorriso de sempre, nem a disposição para continuar a ver o que por cá vamos fazendo. Pelo meu lado, grato como sempre estou aos meus mestres, continuarei a divulgar a sua obra, onde quer que esteja.
E que descanse em paz.


Natural do Cercal
Há muitas terras com o nome “Cercal” em Portugal. A qual se refere?
Pois há.
As mais conhecidas serão a do Cercal, no Cadaval, e a de Cercal do Alentejo que na estrada de Sines emendaram a placa para Cercali pra não haver confusão.
Eu não conheço nenhuma dessas duas terras, mas conheço um lugar da freguesia de Oliveira do Bairro.
E ainda deve haver muitos mais lugares com o nome “Cercal”.
Talvez o Lavoura conheça o “Cercali” no cinema. O filme A Casa dos Espíritos, com o Jeremy Irons, Meryl Streep, Glen Close e muitos outros, foi filmados nos belos campos de Cercal do Alentejo.
O Cercal era paragem obrigatória quando se ia de Sines para o Algarve, para tomar café e comer uns bolinhos muito bons que eles lá faziam.
Tem razão. Já lá está que se trata do Cercal alentejano.
Lamento imenso saber que faleceu. Também foi meu professor e dos melhores que tive na vida , uma capacidade de síntese fantástica, nada dado a palha. Gostava imenso dele.
Obrigada pelo belo texto que muito me comoveu. Conheço _o, de tanto ter ouvido falar de si, e sei o quanto o meu marido lamentou a sua interrupção de estudos. Ele achava que o Sérgio era muito bom intelectualmente e muito bem formado.