Férias em família


Maria Dulce Fernandes,

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Quando o meu neto nasceu, estava eu para sul. Apressado como tudo neste mundo açodado, apresentou-se uma semana mais cedo, embaralhando um bocado os planos a toda a gente.
Este ano, e pela primeira vez, decidimos levar a neta mais velha de férias para aliviar os futuros pais da grande pressão (e peso, e inchaço, e…) das esperanças.
A neta mais velha tem quatro anos, uma personalidade vincadíssima, o discurso de um político, uma imaginação espantosa e uma esperteza impressionante, já para não referir a memória auditiva, que armazena tudo o que capta e reproduz depois, tantas vezes fora de contexto, para nosso grande embaraço. Está decididamente na idade do não. Não vou. Não quero. Não faço. Não como. Difícil.
A ultima vez que fui de férias com uma criança pequena foi seguramente há mais de 20 anos, altura em que a mobilidade psicossomática ainda se encontrava no auge. Confesso que estou totalmente destreinada e que apesar de nunca ter sido grande pedagoga (o meu primeiro casamento, o pacto não de obrigação mas de dever que assinei com o trabalho, deixou-me sempre aquele amargo de boca de ser mãe em part time), tinha a firme convicção de que seria como andar de bicicleta… também nunca fui grande ciclista.
Após acurada pesquisa, decidimo-nos por um “resort” na nossa zona de eleição, conceito tendência, que tende a substituir o all inclusive, que por sua vez substituiu a pensão completa, muito em voga nas zonas balneares nos anos 60 da minha meninice.
Espaço bem aproveitado, com cerca de treze vilas, doze quartos ou suites por vila, restaurantes, restaurantes temáticos, bares, auditório, excelente animação diurna e nocturna a cargo do Chapitô, cinco piscinas e o Kids Club.
O Kids Club é um conceito giro para dar algum descanso aos pais ou avós com crianças. Algum descanso traduz-se, no meu entender, por um par de horas. Uma tarde, pontualmente, vá lá.
Eu que nunca fui uma mãe muito presente nem uma avó disponível, mas que sou galinha o suficiente para ser até considerada um tanto sufocante, não consigo entender o conceito de férias em família de quem deixa os filhos por conta de outrem desde que o espaço abre até que encerra, preocupando-se mais com a carta de bebidas à descrição, em aterrar numa espreguiçadeira, comer, beber e dormir, do que em saber se os filhos estão bem, quem os cuida, se se alimentam… Tal e qual largar um acessório enxovalhado na 5 a Sec e ir recolhê-lo no último minuto do expediente.
É a festa da vida levada ao exagero… que o vinho escorra pelas gargantas e a festa dure até às tantas. E mais duraria se não fosse imposto um contacto telefónico que obrigava os progenitores extremosos a irem levantar os rebentos descartados, bastas vezes horas depois do encerramento do espaço infantil.
Podem achar que são coisas de velha, concepções e juízos retrógrados, mas será que pode haver sossego se há cuidados? Pode, desde que exista uma noção clara dos direitos e dos deveres. Um filho é um bem precioso e não uma obrigação mensal, como a factura da luz. As crianças são cansativas, insanas e exasperantes? Sem dúvida, mas há lá melhor coisa nesta vida?

8 comentários em “Férias em família”

  1. As crianças, em dada altura, são insuportáveis, na maioria da vezes, por culpa dessas novas politicas educativas, nas quais os pais se poem à altura dos filhos.
    Sobre o ciclo da vida, após a fralda, vem a fase das certezas, do eu é que sei, de fazerem merda. E no final, poderá vir a fase de porem nos pais a culpa da merda que fizeram. Mas sejamos sinceros, esta fase é ulterior àquela em que os sonhos dos pais fizeram da vida dos filhos um sono sem sonhos.

    Temos filhos, por esse instinto ser o primordial e o principal. Fossemos nós puramente lógicos e não os teríamos.

    Mas não me posso queixar…ainda E não, os meus não são especiais, não compuseram a primeira sinfonia aos 6 anos. Têm defeitos e virtudes, como os pais e os demais….mas, confesso, terem mais virtudes, que defeitos, diga-se. Mau, estarei, agora, a ser parcial!!!

    Dulce, de vez em quando sabe bem partirmos os dois, amantes, livres, sem os pequenos compromissos das grandes responsabilidades. Não parece mal, pois não?

    1. Não parece nada mal. Até parece muito bem. Fui para o Brasil, para Cabo Verde, para a USSR , etc. com as minhas filhas pequenas, que deixei excelentemente entregues aos meus pais. Não obstante telefonava religiosamente 3 vezes por dia nem que fosse apenas para sossegar a alma de as ouvir respirar.

      Outros tempos, outras formas de encarar a vida, quem sabe?

  2. Tenho uma filha de 8 anos e um filho de ano e meio e ainda estas férias falamos sobre isso, também num resort com esse tipo de eventos para os miúdos.
    As férias são provavelmente a única altura onde estamos todos juntos 24h por dia e apercebemo-nos do quão difícil é partilhar o mesmo espaço.
    Férias em família são férias em família – aproveitar para falar sobre os projectos de família, ouvir sem pressa o que eles querem dizer, brincar com eles, beber litros de água da piscina, enfim… Estarmos juntos!

    1. Concordo em absoluto Trigueiros. Não quer dizer que não lhe possamos dar umas horas por dia para poderem ser crianças com as outras crianças da mesma idade.
      Sendo a vida de quem trabalha a correria que é, todo o tempo é pouco para podermos todos estar todos juntos. Há que aproveitar o melhor possível.

  3. Com os meus rapazes enquanto crianças, aprendemos rapidamente que não tinham paciência para férias com grandes deslocações e para locais que lhes fossem estranhos à sua habitação diária, por isso cedo vimos que os melhores locais de férias para eles eram as praias mais próximas da nossa casa, onde passavam os verões felizes e tranquilos. Saídas a restaurantes, também deixamos prontamente de fazer porque a despesa em louça partida era um incómodo para os pais. O meu filho mais velho, agora com 27 anos, um homem sossegado e tranquilo, só começou a falar quase aos 3 anos, mas de forma completamente fluente e de vocabulário completo, mas com uma irreverência alarmante, a tal ponto que algures entre os 3 e os 4 anos, quando com a varicela e cheio de comichão exasperante na pele, virou-se para os pais e disse: “sois incompetentes para tratar de um filho doente”. Netos ainda não tenho. Aguardo serenamente a sua vinda, na certeza de que serei seguramente melhor avô do que fui e sou pai.

    1. Eu só tive raparigas, Vitor Augusto. Calhou serem sossegadas. Os meus irmãos eram umas pestes , mas muito engraçados, com traquinices que não lembram ao diabo.
      Como o Vitor, espero um dia vir a ser uma boa avó. Exceptuando nas férias de Verão, nunca fui uma mãe muito presente. Sempre me recriminei por isso, mas o compromisso do trabalho ainda hoje me limita.
      Penso que me redimi um pouco nos anos que antecederam e durante os tempos das faculdades.
      Está nos meus planos poder dedicar-me mais aos meus netos assim que me reformar. Aguardo ansiosamente que o tempo possa passar a tempo de lá chegar.

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