Se pudéssemos dominar as palavras como
se domina um cavalo, com a rédea da retórica
a puxar os impulsos do sentimento e as esporas
da emoção a fazerem correr a frase até
ao fim do verso, o poema seria como a planície
por onde a imaginação cavalga sem freio nem destino,
liberta de cavaleiro e sela.
Ou então, se tivéssemos pela frente o oceano
da página e aí lançássemos a barca da estrofe, sem
antes ter perguntado qual o tempo que iria fazer
durante a viagem, veríamos nascer o temporal
de dentro de um céu de substantivos escuros
como nuvens, e o medo do naufrágio pesar-nos-ia
no ritmo de uma queda de sílabas.
Mas se estivesses aqui, com o teu olhar
pousado num campo de palavras, não apenas
as que designam flores ou aves mas outras
como a terra, a lama, a erva, o verde sombrio
de um arbusto próximo, eu faria do poema
a raiz desse tronco que os invernos não arrancaram,
e alimentá-la-ia com a seiva do amor; e sentiria
nas suas folhas os cabelos da tua noite,
as nervuras da tua mão, o fruto dos teus lábios.
(Nuno Júdice, A Inspiração Nocturna, in O fruto da gramática)


Extraordinário, é como estar a ler um ensaio que, para fingir que é um poema, foi quebrado em pedaços:
“Se pudéssemos dominar as palavras como se domina um cavalo, com a rédea da retórica a puxar os impulsos do sentimento e as esporas da emoção a fazerem correr a frase até ao fim do verso, o poema seria como a planície por onde a imaginação cavalga sem freio nem destino, liberta de cavaleiro e sela.”
Isto não é destoaria nada num ensaio de poesia; daria um óptimo parágrafo. Só não dá é poesia, porque não o é. Ou melhor, é triste pensar que a poesia hoje em dia não é mais do que pegar em blocos de prosa e quebrar as linhas antes de chegarem à ponta da margem direita da folha.
É como o Antonio Tabucchi contou numa entrevista a Carlos Vaz Marques; um dia Alexandre O’Neill pediu-lhe para escrever um poema para uma revista; Tabucchi respondeu-lhe que não sabia nada sobre escrever poemas; O’Neill explicou que era muito fácil, bastava mudar de linha antes de chegar ao fim dela. Uau!
Que saudades que eu tenho de sonetos e sextinas e vilancetes e quadras e rimas e aliteração e métrica; mais de um século de vers libre já começa a feder.
Ah, e depois sempre a mesma choça de temática: poesia a reflectir sobre poesia; ah, que original! Linguagem a reflectir sobre linguagem; oh, que espantoso! Não há nada mais urgente sobre que escrever? O mundo não oferece temas mais interessantes e nobres do que umbigologia de pacotilha? E inesperadamente passa de meta-ficção para o tema do amor, porque um poema tem de falar sobre amor, caso o leitor comece a ficar aborrecido; como nós adoramos enfiar o amor e o sentimento fácil em tudo, como se redimissem a má escrita.
A sério, está na hora dum Eça voltar a escrever uma paródia chamada “A Aia,” convém é que não a tirem do contexto desta volta para perceberem o que está a parodiar.