Felizmente temos o Nuno


Sérgio de Almeida Correia,

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Se pudéssemos dominar as palavras como

se domina um cavalo, com a rédea da retórica

a puxar os impulsos do sentimento e as esporas

da emoção a fazerem correr a frase até

ao fim do verso, o poema seria como a planície

por onde a imaginação cavalga sem freio nem destino,

liberta de cavaleiro e sela.

 

Ou então, se tivéssemos pela frente o oceano

da página e aí lançássemos a barca da estrofe, sem

antes ter perguntado qual o tempo que iria fazer

durante a viagem, veríamos nascer o temporal

 de dentro de um céu de substantivos escuros

como nuvens, e o medo do naufrágio pesar-nos-ia

no ritmo de uma queda de sílabas.

 

Mas se estivesses aqui, com o teu olhar

pousado num campo de palavras, não apenas

as que designam flores ou aves mas outras

como a terra, a lama, a erva, o verde sombrio

de um arbusto próximo, eu faria do poema

a raiz desse tronco que os invernos não arrancaram,

e alimentá-la-ia com a seiva do amor; e sentiria

nas suas folhas os cabelos da tua noite,

as nervuras da tua mão, o fruto dos teus lábios.

 

(Nuno Júdice, A Inspiração Nocturna, in O fruto da gramática)

Um comentário em “Felizmente temos o Nuno”

  1. Extraordinário, é como estar a ler um ensaio que, para fingir que é um poema, foi quebrado em pedaços:

    “Se pudéssemos dominar as palavras como se domina um cavalo, com a rédea da retórica a puxar os impulsos do sentimento e as esporas da emoção a fazerem correr a frase até ao fim do verso, o poema seria como a planície por onde a imaginação cavalga sem freio nem destino, liberta de cavaleiro e sela.”

    Isto não é destoaria nada num ensaio de poesia; daria um óptimo parágrafo. Só não dá é poesia, porque não o é. Ou melhor, é triste pensar que a poesia hoje em dia não é mais do que pegar em blocos de prosa e quebrar as linhas antes de chegarem à ponta da margem direita da folha.

    É como o Antonio Tabucchi contou numa entrevista a Carlos Vaz Marques; um dia Alexandre O’Neill pediu-lhe para escrever um poema para uma revista; Tabucchi respondeu-lhe que não sabia nada sobre escrever poemas; O’Neill explicou que era muito fácil, bastava mudar de linha antes de chegar ao fim dela. Uau!

    Que saudades que eu tenho de sonetos e sextinas e vilancetes e quadras e rimas e aliteração e métrica; mais de um século de vers libre já começa a feder.

    Ah, e depois sempre a mesma choça de temática: poesia a reflectir sobre poesia; ah, que original! Linguagem a reflectir sobre linguagem; oh, que espantoso! Não há nada mais urgente sobre que escrever? O mundo não oferece temas mais interessantes e nobres do que umbigologia de pacotilha? E inesperadamente passa de meta-ficção para o tema do amor, porque um poema tem de falar sobre amor, caso o leitor comece a ficar aborrecido; como nós adoramos enfiar o amor e o sentimento fácil em tudo, como se redimissem a má escrita.

    A sério, está na hora dum Eça voltar a escrever uma paródia chamada “A Aia,” convém é que não a tirem do contexto desta volta para perceberem o que está a parodiar.

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