Fazer política como quem brinca na areia


Pedro Correia,

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A importância maior dos canais televisivos de informação reside na comunicação instantânea, colhida em directo. Nenhum político fica indiferente a isto. Os mais competentes aproveitam estes momentos a seu favor: qualquer tempo de antena é precioso para marcar a agenda numa actividade que tem horror ao vácuo.

Os menos talentosos, pelo contrário, encontram nos directos não um precioso aliado mas um incómodo adversário. Porque intervir em directo implica falar sem válvula de segurança. Neste cenário, um político mediano ou medíocre expõe em larga medida as suas fragilidades.

Na semana passada, Rui Rio surgiu duas vezes em directo. Com 24 horas de intervalo. Nunca para fazer marcação cerrada ao Governo, mas para visar alvos internos. Nisto, nada de novo: as declarações mais duras do actual presidente laranja foram sempre dirigidas a figuras do próprio partido.

A diferença, desta vez, é que pareceu imitar aqueles jogadores a que no futebol chamamos brinca-n’areia: gostam tanto de ter a bola que evitam passá-la aos companheiros, prejudicando a equipa. Querendo driblar outros, acabam por se fintar a si próprios.

As televisões estavam lá, mostrando um Rio brinca-n’areia. Na tarde de quarta-feira, manda dizer que no dia seguinte levará ao Conselho Nacional uma proposta para a convocação de eleições directas em 4 de Dezembro. Procurando confundir adversários por antecipação. Horas depois, porém, parece ele o confundido: em vez de antecipar, adia. Afinal vai propor que sejam congeladas as eleições até à votação final do Orçamento do Estado.

«Se [o Orçamento] não for aprovado haverá eleições legislativas. Não vejo como é que o partido pode fazer eleições internas e legislativas ao mesmo tempo. (…) Sou o líder do partido, fui o candidato a primeiro-ministro em 2019, liderei todo este tempo… Se amanhã houver eleições, quem é que é o candidato? Obviamente.»

Clareza no discurso? De forma alguma. Perceptível, a mensagem? Nem por sombras. Eis o risco dos directos: passou a ideia de que o presidente do PSD é inseguro e receia o confronto. Quem lidera a sério jamais precisa de lembrar que é líder.

Se esteve mal na quarta, pior andou na quinta. À entrada do Conselho Nacional, face aos jornalistas, de novo sucumbiu à vertigem do directo. E lá voltou a perder-se em reviengas.

«Como se está a ver que o PSD está a subir, que o PSD até pode ganhar eleições legislativas, há um assalto ao poder daqueles que põem o seu interesse pessoal à frente daquilo que é o interesse do país e o interesse do PSD. (…) Parece que perderam o sentido das coisas e de repente estão meios loucos.» Com este surpreendente desabafo: «Lamento profundamente que o partido tenha chegado a este estado.» Como se o presidente do partido não fosse ele. Há quase quatro anos.

Faria melhor Rio em imitar Jerónimo de Sousa. Raras vezes o secretário-geral do PCP fala em público sem estar de olhos fixos num papel. Goste-se ou não, ali não há lugar para improvisos políticos. Quem quer brincar na areia que vá para a praia.

 

Texto publicado no semanário Novo

34 comentários em “Fazer política como quem brinca na areia”

  1. Tantos anos a ouvir , ler advertências:
    Tenham cuidado que eu avanço. Não me obriguem a avançar. Eu não quero mas se for preciso
    avanço mesmo.
    Anos depois avançou e o resultado está à vista.

  2. Costa brinca connosco como faz um matulo no recreio da primária, e age convicto que ninguém será capaz de lhe arrancar as rédeas do mando. Será verdade que Jerónimo vai falhar com a palavra dada ao cair do pano, e vai dar um avante marche ao intocável parceiro de estrada? Rio cometeu o erro infantil de pretender lidar com uma raposa manhosa num patamar de seriedade e transparência.

  3. A Madeira é o símbolo do Portugal colonial. Independência já!

    O Rio finta-se a ele próprio, já o Costa marca golos em fora de jogo e passa rasteiras, mas o árbitro nunca vê e o VAR está distraído.

  4. Ou seja, temos uns (pseudo responsáveis) eleitos que vivem numa bolha egóica (mais vale usar uma placa a dizer “favor não incomodar) que se entretém a dar cabo da economia de um país, brincando ao “faz de conta que sou imensamente responsável”. De nada valem os discursos e as poses, quando na verdade não estão minimamente interessados em levar a bom porto, o país. Fazem lembrar os administradores das empresas públicas que quando entram a serviço, cortam tudo a eito e fecham-se numa bolha de intocáveis e quando saem culpam sempre os que lá estão e os inimigos imaginários. Gostava de saber se estas pessoas têm o mínimo de ética, quando agem como agem. Vamos passar mais um ano terrível, porque uns quantos se entretém a gozar connosco. Era uma passagem aérea sem regresso para a Atlântida (ah, mas é imaginária) Tal como a visão que eles têm do que é governar, respeitar e ser democrata. Incapazes de uma autocrítica, de visão humanista. Vamos brincar com a vida dos outros que tem imensa piada. Vamos ver como se rebenta com a pequena economia, vamos ver gente passar fome, vamos ver gente a perder a casa…e depois vamos culpar o outro, pela minha intransigência. Porque até parece que não tenho outra forma de mostrar ao outro o desagrado…Mas isso não é importante. O que importa sou eu, o chefe. O presidente da junta.
    Maria Lopes

    1. “Gostava de saber se estas pessoas têm o mínimo de ética,” Claro que não. Nós, eleitores, nunca votamos em pessoas com ética.

  5. “…Nunca para fazer marcação cerrada ao Governo, mas para visar alvos internos…. “
    Será talvez um seguidor do Churchill: mais desconfiado dos inimigos (internos) do que dos adversários.

  6. Nem uma palavrinha sobre as autárquicas!!!?? É o omo a funcionar… Rui Rio teve excelentes resultados para quem dizia que não fazia oposição… Rui Rio fez implodir a geringonça!!! Ainda por cima querem impor ao PSD um cegueta, quando Rui Rio disse cuidado que se aproxima aí uma grave crise política, Paulo Rangel com o seu blabla dizia que era bluf do PS, jornalistas e comentadores acusaram Rui Rio de querer dar um golpe no PSD… A xuxaria depois de ter levado porrada nas autárquicas, colocou os seus Boys e os idiotas úteis da direita, a fragilizar os partidos da direita!!! Ganda vitória do PSD nas autárquicas!!! Força Rui Rio!!!

    1. Rio perdeu as autárquicas, ganhas por Costa.
      Em Lisboa, houve uma vitória pessoal de Moedas. Com Rio ausente: virou costas à capital, que seria sempre o troféu mais apetecido, e optou por cumprir a recta final da campanha nos Açores. Vá-se lá saber porquê.

          1. E eu sou o Pai Natal e não percebo que distorce sistematicamente os factos para fazer política ou defender o seu clube.
            Em momento nenhum a escolha dos Açores constitui falta de apoio ao candidato e o Pedro Correia sabe tão bem como eu que Moedas nem percebeu bem como ganhou a Câmara.

          2. A Isabel escreve que Moedas “nem percebeu bem como ganhou a câmara” e eu é que distorço os factos?
            Então a vitória de Moedas deveu-se a quem? A quem não fez campanha?
            A Rio, que na recta final das autárquicas voou para os Açores, virando costas a Lisboa e recusando comparecer no comício de encerramento na capital?

          3. A lógica de que o encerramento tem que ser feita na capital explica bem a mentalidade pequenina de quem vê o mundo a partir do umbigo lisboeta.

            Nenhuma novidade para os que acham que renovar um partido é afastar o velho que está na liderança. E para os foram incapazes de admitir qualidades ao longo destes quatro anos, por puro desdém e provincianismo.

          4. Fui eu que escrevi velho. [<)]
            No geral não penso em velho em idade como um pejorativo. Admiro imenso a sabedoria que muitas vezes se refina com a idade. Não é, infelizmente para todos nós, o caso de Rui Rio. Uma alternativa ao socialistas que se proclama igual, não é verdadeiramente uma alternativa.

          5. Desculpe-me Susana, naturalmente tem todo o direito a pensar da forma como pensa. Eu é que cansei de assistir uma vez mais a esta encenação, onde jornalistas e comentadores e demais vips deste desgraçado país criam ladainhas que entranham no ouvido dos portugueses através da retórica e da manipulação da informação e do pensamento de terceiros. Usam os políticos como marionetas para destruir o país. Triste sina a nossa.

            Mas como se usa dizer, quem está mal, muda-se. É o que vou fazer.
            Felicidades para si, Susana. Gostei muito de ler os seus comentários ao longo destes tempos.

          6. Isabel, não estará a levar estas discussões demasiado a peito? Quer dizer, nós vimos para aqui escrever umas opiniões. Muitas vezes somos mal interpretados, outras escrevemos irreflectidamente. Às vezes interpretamos os outros erradamente. Mas não deixa de ser interessante ler outros pontos de vista. Eu acho que nunca concordo em tudo com nenhum dos autores ou comentadores. Mas gosto da pluralidade.

  7. Não sei o que se passou com o Rui Rio, mas as capacidades de liderança dele parecem ter-se esvaído. Tornou-se num velho. Não apenas velho de idade (apesar de já ter a sua dose) mas um velho de mentalidade. Medroso, acanhado e sem rasgo nem ambição. Patético, resolveu que iria governar em bloco central, e essa ideia ninguém o conseguiu demover, nem mesmo os sucessivos repúdios de António Costa.
    Quanto a mim, partilha as culpas do estado a que chegámos com a Geringonça e com o Presidente por nunca ter feito a devida oposição.

      1. As vitórias aconteceram apesar de Rui Rio e não por causa do Rui Rio. No caso de Moedas, que segui de perto, foi seguramente assim.

        1. Sim, teve praticamente os mesmos votos do CDS +PSD das últimas eleições autárquicas e… Blablablabla…

  8. “Na semana passada, Rui Rio surgiu duas vezes em directo. Com 24 horas de intervalo. Nunca para fazer marcação cerrada ao Governo, mas para visar alvos internos. Nisto, nada de novo: as declarações mais duras do actual presidente laranja foram sempre dirigidas a figuras do próprio partido.”
    Rui Rio fez tão pouca oposição ao PS que a oposição interna do PSD julga que ele é do PS e por isso dedica todas as forças a fazer-lhe oposição – esquecendo-se do PS.
    Temos de tomar em consideração que houve uma ala de notáveis do PSD que não avançou contra Rui Rio e ficou a fazer oposição interna à espera de o substituir pouco antes das eleições. O problema é que as eleições vieram mais cedo do que eles esperavam.

      1. Para o PSD, que passa o aspeto de uma futura liderança constituída por indivíduos que estarão cá para as horas boas, enquanto cospem em quem fica nas horas más. Que capacidade é que gente desta tem para gerir o país fora da intriga política e do marqueting vasqueiro?
        Em abono da verdade isto não é exclusivo do PSD, mas não deixa de ser triste.

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