Faz sempre falta uma voz livre


Pedro Correia,

 

«Los problemas que hemos tenido no han sido nunca por mentir sino por decir la verdad.»

Pedro J. Ramírez

 

Amanhã de manhã — talvez ainda mais cedo do que é costume –, repetindo um hábito que tenho enraizado há longos anos, comprarei o habitual exemplar de domingo do El Mundo. Não será, no entanto, um domingo como os outros: esta é a última vez em que o nome do seu fundador e director, Pedro J. Ramírez, surge impresso sob o cabeçalho do jornal, um dos meus preferidos desde sempre.

Pedro ‘Jota’, como é conhecido em Espanha, é afastado da direcção do segundo matutino generalista de maior circulação em Espanha, a poucos meses de cumprir um quarto de século nestas funções, pelos proprietários italianos, detentores de larga parte da estrutura accionista do jornal. Um afastamento ditado, segundo circula em Madrid, pela pressão conjunta do Governo conservador de Mariano Rajoy e da Casa Real, com o aplauso implícito dos socialistas, que há muito tinham El Mundo sob ponto de mira.

 

Escreveu Fitzgerald que não existem segundos actos nas vidas americanas. Pedro ‘Jota’ não pode dizer o mesmo: já lhe havido sucedido algo muito semelhante em 1989, ao ser afastado do cargo de director do influente Diario 16, devido a pressões do executivo socialista de Felipe González, na sequência da investigação pelo jornal do maior escândalo de sempre da democracia espanhola: o caso GAL – o “terrorismo de Estado” movido contra a ETA nos anos iniciais do felipismo.

Ramírez não se resignou. Meses depois do despedimento, fundava El Mundo que teve sucesso desde o início por apostar decisivamente no jornalismo de investigação: a autópsia jornalística ao caso GAL foi retomada, levando em 1995 às primeiras condenações a penas de prisão de governantes espanhóis.

Por contraste, na etapa pós-Ramírez o Diario 16 foi-se afundando, acabando por fechar.

 

El Mundo manteve-se fiel ao seu código genético, desvendando o escândalo Filesa (financiamento ilegal do PSOE), as escutas ilegais que levaram à queda do vice-primeiro-ministro Narcís Serra e do ministro da Defesa, e o caso Faisán, de que resultaram condenações de responsáveis policiais com laços de cumplicidade à ETA. Apostando, por outro lado, na reportagem de guerra — outra das suas marcas de origem — e na crítica sem rodeios à violência terrorista no País Basco. Alguns dos seus mais competentes repórteres foram tombando pelo caminho, como Julio Anguita Parrado (filho do ex-líder comunista Julio Anguita), morto durante a invasão de Bagdad, ou José Luis López de Lacalle, assassinado pela ETA. Outro grande repórter do jornal, Javier Espinosa, permanece sequestrado na Síria desde 16 de Setembro.  

Ramírez reuniu também alguns dos melhores colunistas da imprensa espanhola, que leio com interesse e proveito há vários anos. Colunistas como Francisco Umbral, Pedro G. Cuartango, Lucía Méndez, Manuel Hidalgo, Arcadi Espada, Santiago González e David Gistau. O que ajuda a explicar o facto de, mesmo em tempo de quebra de circulação de jornais devido à grave crise económica e à drástica alteração de hábitos de consumo, El Mundo continua a ser o segundo maior periódico de informação generalista em Espanha, com tiragens próximas dos 200 mil exemplares diários e mais de um milhão de leitores, mantendo-se líder mundial na imprensa on line em língua espanhola.

 

 

Personalidade controversa, que não deixa ninguém indiferente, Ramírez recomendou o voto no Partido Popular de Rajoy nas legislativas de Novembro de 2011. Mas algumas das investigações mais incómodas para o Governo continuaram a partir do seu jornal. Com destaque para o caso Bárcenas, o ex-tesoureiro do PP que durante anos montou um esquema de financiamento ilegal do partido — nenhuma outra notícia causou tanto dano ao Executivo conservador como esta, forçando Rajoy a comparecer duas vezes no Parlamento para prestar esclarecimentos, que aliás não convenceram praticamente ninguém. E também para o caso Noos-Urdangarin, que teve repercussões inéditas na Casa Real, com a imputação de uma filha e um genro do Rei de Espanha, acusados de evasão fiscal e branqueamento de capitais.

A investigação destes casos, em fidelidade à marca de origem do diário, traçou o destino de Pedro ‘Jota’, levando em 2014 à repetição do que lhe sucedera em 1989. Esta semana, o director mais célebre e mais polémico da imprensa espanhola despediu-se da redacção com frases emocionadas que podem ser acompanhadas aqui.

Amanhã lerei a última das suas Cartas do Director — sempre tão apreciadas, sempre tão discutidas. Algumas delas ficar-me-ão para sempre na memória. Como a de 27 de Outubro de 2013, intitulada “Oa, oa, oa… Mariano a la Moncloa!” Um dos mais brilhantes textos jornalísticos que já li, sátira corrosiva ao actual chefe do Governo, atribuindo-lhe todas as características negativas do antecessor, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero.

 

Outros jornais têm directores anódinos e cinzentos: singram durante anos nas redacções sem quase ninguem saber quem são. Pedro ‘Jota’, pelo contrário, pagou o preço de uma irreverência que nunca deixou de ser exuberante até para os padrões de Espanha e da militância no jornalismo acima de tudo o resto.

Não chegará a cumprir 25 anos como director do jornal que fundou. Mas tenho a certeza de que se saberá reinventar, como sucedeu naquelas horas amargas de 1989 quando enfrentou a razão da força de empresários timoratos munido com a força da razão. Os jornalistas como ele deixam sempre rasto e são sempre necessários. Porque dispõem do mais precioso dos trunfos: uma voz livre.

 

Leitura complementar:

Un relato modesto y sentimental, de Lucía Méndez

El segundo naufragio, de Pedro G. Cuartango

El Mundo de ayer, de F. Jiménez Losantos

Pedro J. qué les das?, de Santiago González

A minha carta a Ramírez, André Macedo

12 comentários em “Faz sempre falta uma voz livre”

  1. O jornalismo nunca há-de morrer, porque felizmente há sempre alguém que diz “não”. Mas não está nada fácil resistir à força bruta dos vários poderes. A falta que nos fazia ter por cá um Pedro Ramirez!

  2. Muito boa tarde. Acabo de ler este post. Sou suspeito quanto ao que adiante vou dizer, pois tenho o seu autor em grande consideração, pelo que me parece legítimo retirar do que ele vai escrevendo/ afirmando. Refiro-me a valores que dos textos se podem retirar. Quanto ao post em si mesmo, que considero uma “peça” de grande qualidade sob qualquer prisma, faz-me pensar ainda mais no triste quadro que se vive no meu desgraçado País no que aos OCS respeita. Os escassos jornalistas que procuram investigar a sério têm sido invariavelmente sujeitos a pressões “esquisitas”. Para só dizer isto. António Cabral

    1. Os tempos não são nada propícios ao jornalismo de investigação, caro António Cabral. Sobretudo quando os alvos são detentores do poder político ou nomes sonantes do poder económico. Os responsáveis dos jornais, em regra, sabem resistir às pressões. Mas essas pressões tornam-se quase insustentáveis quando o poder político e o poder económico se conjugam para decapitar uma direcção editorial.
      Também por cá já aconteceu. Infelizmente, creio que voltará a suceder. Mas o caso de Pedro J. – enxotado das funções que ocupava por uma administração medíocre e obediente ao poder político – é especialmente escandaloso. Porque ‘El Mundo’, com todos os seus defeitos e as suas inúmeras virtudes, sempre teve o rosto dele. O jornal não existiria sem ele. E resta ver se conseguirá sobreviver sem ele.

  3. Ó Pedro estou de acordo com o que escreveu, mas como acompanho a situação política espanhola diariamente permita-me acrescentar uma causa mais que se chama ibex35, que foi determinante para esta acção já que a actuação dos representantes das outras duas estão mais próximo de Mortadelo Y Filemón que de representantes dignos da chefia do Estado e do executivo.

    1. Admito que sim, Sérgio, mas as debilidades financeiras das empresas jornalísticas costumam funcionar como pretexto quando se quer despedir uma direcção incómoda. Um ‘El Mundo’ amorfo e reverente, sem leitores, terá maior sucesso financeiro do que teve com o irreverente Ramírez ao leme? Tenho as maiores dúvidas. De resto, quase todos os grandes títulos da imprensa espanhola são deficitários – por culpa de sucessivas administrações, que quiseram engordar as empresas, expandindo-as noutras direcções, com mais olhos que barriga. O mesmo acontece em Portugal: da nossa imprensa generalista, praticamente só o ‘Correio da Manhã’ é auto-sustentável.

    1. Não pode haver pior sintoma para uma empresa jornalística do que silenciar um director por “excesso” de posições críticas ao poder de turno, André.
      Vale a pena escutar com atenção o vídeo da despedida de Pedro J. na redacção do ‘El Mundo’, ocorrida na tarde do dia 30 – ocasião aproveitada pelo director cessante para lembrar algumas das principais capas do jornal que dirigiu ao longo de quase 25 anos.
      Uma aula viva de jornalismo.
      http://www.youtube.com/watch?v=-I7HURhui0c

  4. o caminho que os leitores começam a ter que seguir -apoiar os bons onde eles estejam pode melhorar a qualidade e fidelidade da informação. Sem dúvida que posts como este ajudam a quem ainda não era familiar a saber da qualidade e seriedade dos varios jornalistas mencionados. E sãoeles quem merece a nossa atenção e respeito e não um nome ElMundo que até já pode ser marca duma empresa de eventos sociais. A web até nos ajuda a seguir quem o bem merece como Pedro J(ota) Ramirez. Ao ver os mais mediaticos soa-me como os ibericos são tão parecidos (Já leram o relatorio do FMI sobre o endividamento excessivo?) se tivessemos aqui um ElMundo estaria lá.

    1. Faz falta um ‘El Mundo’ em Portugal: há muito que penso nisto. Mas um ‘El Mundo’ concebido como Pedro J. o idealizou e concretizou: um jornal com linha editorial assumida mas fiel, acima de tudo, ao seu compromisso de raiz com os factos. Tornando-se assim incómodo para governos de todas as cores. Sem nunca esquecer portanto que o “proprietário” mais legítimo de um órgão de informação são os seus leitores.

  5. E Caso el Mundo venha por aí abaixo, ficará politicamente vazio um espaço importante do jornalismo espanhol, ocupado sobretudo por pessoas de centro e centro-direita que mantêm uma relação de prudência face ao PP (e ainda mais do PSOE). Entretanto, e para juntar ao rol de colaboradores ilustres, creio que Arturo Perez-Reverte também já escreveu para o jornal.

    1. O ‘El Mundo’, em meados da década de 90, chegou a vender mais de 700 mil exemplares diários. São tempos irrepetíveis nestes dias em que o “direito à informação”, por via da Rede, se tornou uma mercadoria desvalorizada por ser gratuita. Os grandes jornais também são vítimas disto, João Pedro. Muitos deles estão agora a pagar um preço muito elevado por terem sucumbido ao canto de sereia da Net sem perceberem que ninguém volta a estar disponível para pagar por algo que se habituou a consumir sem custos.
      Pedro J. Ramírez tentou remar contra esta maré: foi dos primeiros a perceber que nenhuma imprensa livre subsiste apenas com conteúdos “gratuitos”. ‘El Mundo’ tem hoje mais de cem mil assinantes digitais. Quase um caso de sucesso, embora insuficiente para as necessidades actuais de um jornal de qualidade. Porque o jornalismo de investigação cujas virtudes tantos apregoam não é barato. A reportagem de guerra é muito cara: são cada vez menos os periódicos que investem nesta modalidade de jornalismo que produziu alguns dos melhores profissionais de sempre.
      Estes problemas estruturais, somados às pressões do poder político que transforma em seu braço instrumental as empresas representadas no Ibex 35 (e cujas campanhas publicitárias são vitais para a sobrevivência de qualquer jornal na Espanha de hoje), ditaram o destino de Pedro J., a escassos meses de completar um quarto de século como director do jornal que fundou em Outubro de 1989.
      Não podemos enaltecer as virtudes da imprensa – sem a qual não existe uma democracia adulta, esclarecida e sólida – sem estarmos dispostos a pagar por este bem. Estou convencido que Pedro J. Ramírez continuará a ser uma figura de referência na comunicação social espanhola. Noutra tribuna qualquer.

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