Já não se viola apenas o pacote de promessas eleitorais sufragado em Setembro e o programa do Governo: agora viola-se abertamente a Constituição da República. Cavaco Silva, o “supremo garante” da lei fundamental, a tudo assiste sem soltar uma exclamação. A “cooperação estratégica” traduz-se nisto: faça o Governo o que fizer, contará sempre com o silêncio reverente e cúmplice do Presidente da República.
Faça o Governo o que fizer
Pedro Correia,

As promessas eleitorais são feitas (quando honestamente), com base nos pressupostos em que se acredita. Se esses pressupostos se não verificarem, as medidas a tomar terão que ser outras. Isso não quer dizer que se esteja a faltar à palavra.
Essa faz-me lembrar o Groucho Marx: “Se os meus princípios não vos agradam, arranjo outros.”
Mas lembra-lhe mal. Não se alteraram princípios, mas sim medidas perante uma situação imprevista e que não controlamos.
Uns dirão que sim, que tinham previsto. Mas isso são os iluminados, e os governos democráticos são constituídos por gente mediana, escolhidos entre a nossa mediania.
As promessas emblemáticas de 2005 e – muito pior – as de 2009 foram deitadas para o lixo. Lembra-se dos 150 mil empregos? Temos a maior taxa de desemprego de sempre e a quarta maior da União Europeia. Lembra-se das SCUT? Acabaram as SCUT e querem que os utilizadores as paguem com ‘chips’ nas matrículas dos carros. Lembra-se dos impostos que não aumentavam? Aumentaram todos. Lembra-se do crescimento económico anual a 3%? Temos “crescimento” negativo. Lembra-se do combate às injustiças e assimetrias sociais? Portugal é hoje um país mais injusto e mais assimétrico.
Meu caro, é possível enganar todos durante algum tempo e alguns durante todo o tempo. Mas não é possível enganar todos todo o tempo. Palavras de Lincoln, que bem se aplicam ao Portugal actual.
o senhor tem a certeza que se alterou alguma coisa?
o facto de terem aldrabado sistematicamente o valor do deficit só por si é revelador da baixeza moral deste governo, a acrescentar a isso, o aumento de 2,9% aos funcionários públicos com fins eleitorais cheira a criminoso
a única coisa que os governos de sócrates têm mantido é a cara de pau com que mandam as urtigas tudo aquilo que prometem
dá raiva ver gente desta escapar impune a justiça
O problema é quando “os pessupostos em que se acredita” são um conto de fadas. no-congelou-valor-do-defice-de-2009-cont ra-as-previsoes-da-dgci_1437462
Maquilhar pressupostos à la carte é pura demagogia política.
Veja-se o suplemento económico do Público:
Governo “congelou” valor do défice de 2009 contra as previsões da DGCI.
De Maio a Novembro de 2009, o Governo foi repetindo que a cobrança fiscal estava “em linha com o previsto” quando a DGCI ia, mês após mês, afirmando o contrário.
Está tudo aqui:
http://economia.publico.pt/Noticia/gover
Seriam talvez “pressupostos” eleitorais…
Deve haver aqui algum engano, Pedro.
Ainda há uma semana, a retroactividade estava totalmente fora de questão e uma equipe estava a estudar o fraccionamento do IRS para o próximo ano.
É por estar em causa a economia, o emprego e o futuro de todos nós …, diz o ministro.
Quem é o todos nós?
É que o presente e o futuro de alguns de todos nós, está deveras assegurado ….
Um revelador lapso de língua do ministro. O menor dos lapsos dele. Mas de facto é o emprego dele que também já está em causa. Com outro Presidente da República já estaria certamente.
Não duvido.
Mas esse futuro dessa pequena parte de todos nós está seguramente garantida.
Provavelmente até com muito menos trabalho e exposição pública.
Ah, pois.
Estabilidades destas, promovidas por Cavaco Silva, são perfeitamente dispensáveis.
O senhor Presidente tem mais que fazer do que preocupar-se com as violações da Constituição assumidas pelo Governo. Gostava de saber o que os «pais» da Lei Fundamental -designadamente Jorge Miranda e Vital Moreira – acham disto.
A atitude de Cavaco Silva demonstra não só como é mau presidente da república como também o quão mau primeiro-ministro foi. A única coisa que fez ao longo dos seus 10 anos como chefe de governo foi gastar os dinheiros europeus, sem se preocupar com o crescimento ou com a aplicação desses dinheiros de forma que garantissem um verdadeiro desenvolvimento do país. Cavaco Silva para a História foi como o rei Salomão, um homem que beneficiou de um período de benesses para as quais não contribuiu (o Salomão histórico terá beneficiado de períodos em que os inimigos dos hebreus estariam ocupados com outros assuntos).
Além disso não esqueçamos que Cavaco também não se coibiu de aumentar os encargos para muita gente. Aquilo que o safou nessa altura foi o facto de haver tanto dinheiro pelo país: ninguém se preocupou.
Alguns cavaquistas ainda pensam que as próximas presidenciais serão um passeio triunfal. Estão muito enganados.
Há coisa de um ano, por altura da comunicação do PR ao país por causa das escutas, apostei um jantar em como Cavaco Silva seria reeleito, tudo porque as pessoas nem sempre têm uma memória longa. Com as asneiras atrás de asneiras que Cavaco tem vindo a fazer, penso que até a memória de uma formiga poderia bastar. Cada vez mais me parece que terei que pagar o tal jantar. Por outro lado, saber-me-à bem.
É melhor ir pondo algum dinheiro de parte, João.