Sou amigo do Filipe Verde há quase trinta anos (como custa escrever estas quantidades) e é também por isso, por esta minha fidelidade à ideologia do amiguismo, que aqui venho divulgar este “Exploradores Portugueses e Reis Africanos” (editado por A Esfera dos Livros), o livro que agora escreveu com Frederico Rosa. O qual será apresentado ao público no próximo dia 22 (terça-feira) em Lisboa, na livraria Bertrand no Chiado, por aquela hora do fim da tarde. Acontece ainda que o Filipe é o tipo com a mente mais brilhante que eu conheço (sim, sei do piroso que isto soa), opinião que já bloguei a propósito do lançamento do seu luminoso livro “O Homem Livre”, o qual deveria ser presença constante nas estantes mas que me parece meio esgotado, e que continuo a recomendar como obra máxima do pensamento actual em Portugal. O Filipe Verde tem ainda a rara capacidade de pensar denso e escrever leve (entenda-se: muito bem), tornando acessível o seu pensamento de Homem Livre, nada sujeito a modismos e a obrigações de lojas, clubes ou capelas. Com tudo isto até parece que quero desmerecer o co-autor Frederico Rosa, mas não é o caso, é apenas eco de o desconhecer, apenas o ouvi uma vez, há anos, numa informadíssima comunicação, daquelas que denotam um intelectual de mão-cheia.
O livro destes dois antropólogos intenta uma releitura das viagens portuguesas em África durante XIX, visitando o calcorrear de Lacerda e Almeida, António Gamito, Rodrigues Graça, Silva Porto, Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Henrique de Carvalho, cruzando o olhar da antropologia, da história e da literatura. Coisa pensada não para especialistas mas sim para quem se possa e queira interessar, seja sobre o período histórico, seja sobre África, seja sobre essa coisa da construção dos discursos sobre o longínquo (e quantas vezes tornado exótico). Em termos de apelar a um repensar da história começa muito bem, logo com o título, nisto de “…Reis Africanos“, pontapeando o velho olhar sobre o caos (apolítico) africano, o primitivismo sempre presente, com várias roupagens …
Enfim, o lançamento é daqui a uma semana. E se alguém daqui (do in-blog) parta para assistir (os tipos falam bem, já agora) peço para ir lá ao Filipe Verde e entregar um abraço ido do jpt, qu’isto de viver longe tem recompensas mas também tem destas coisas, o perder os bons momentos dos nossos.
Para quem não tiver disponibilidade fica o desafio, o de folhear o livro a deixar-se tentar, a ver se gasta os quase vinte euros (em podendo, e pelo que já li, justificar-se-á).


Não vendo citado, e estando mergulhado no esquecimento das explorações do Séc. XIX, deixo aqui como complemento uma citação do Cardeal Saraiva (que morreu bem antes da viagem de Capelo e Ivens):
Finalmente, no ano de 1807, sendo Governador e Capitão-General do Reino de Angola (…) António Saldanha da Gama, Conde de Porto Santo, se realizou, de mandado dele, a primeira expedição de Luanda à contra-costa, a qual voltou no ano de 1809, trazendo a embaixada dos Molluas, nação que já comerciava com Moçambique. Imediatamente enviou o digno Governador outra expedição com ordem expressa de ir até Moçambique, o que efectivamente se executou, voltando esta expedição a Luanda com cartas de Moçambique estando já a governar Angola José Oliveira Barbosa.
Destaquei “de Luanda à contra-costa”, porque Capelo e Ivens vão apelidar o livro e a expedição de forma similar “de Angola à contra-costa”…
Aliás, Capelo e Ivens reconhecem a viagem anterior, sem cuidados científicos (o que seria motivo então para ser considerada inválida, após a conferência de Berlim) feita pelo promotor Saldanha da Gama, a cargo de dois “pombeiros”:
Amaro José e Pedro Baptista.
Já mesmo em 1663 o Padre Manuel Godinho dizia que:
“o caminho era sabido, mas não descoberto”…
Mais informações: e-luanda-e-de-angola-contra-costa.html
http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/01/d
Muito obrigado por este seu (interessantíssimo) comentário. Espero que os autores passem por aqui e o possam ler, decerto que lhes será precioso. Quanto a mim lá terei que, quando em Lisboa, ir às estantes avoengas onde há um prateleira dedicada a não-sei-quantos (12?15?mais?) tomos das “obras do cardeal Saraiva”.
Obrigado pelo interesse. tor%3A%22S.+Luiz%2C+Francisco+de%2C+1766-1 845%22
É bom sinal os seus avós terem deixado esse legado conhecedor, porque o Cardeal Saraiva não faz parte da lista de “autores recomendados” às gerações vindouras.
Aqui fica um link que contém uma boa parte das suas obras:
http://archive.org/search.php?query=crea
Não esquecendo o toque de actualidade no seu texto, é ainda de salientar como foi certeiro na forma como anteviu uma posição sobre os exploradores portugueses na perspectiva de um rei africano.
Fui agora “ali ao google” e descobri as obras do Cardeal Saraiva acessíveis [ http://archive.org/details/obrascomplet asdo01sluiuoft ] (é fantástico, isto da interneta). 10 volumes, editados em 1872 (quer com isto dizer que me vêm do trisavô, do lado patrilinear)
Obrigado, mesmo, por me ter alertado o interesse
Takhuta maningue (muito obrigado), JPT.
Espero que venha a gostar 1B
Um tema decididamente interessante. Por acaso sabe se o livro está em português? É que em abortês não dá para ler.
Respondo em postal