Há dias, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, afirmava o seguinte: “Let me reiterate that the sovereignty, independence and territorial integrity of any country should be respected and safeguarded because this is a basic norm of international relations. It is consistent with the purposes and principles of the UN Charter and is the consistent position of the Chinese government. Ukraine is no exception.”
Na recente Conferência de Segurança de Munique, Wang Yi reafirmou que deveria haver um regresso aos Acordos de Minsk (Minsk 1 e Minsk 2), embora sem esclarecer em qual da suas interpretações, se na ucraniana, se na russa. Certo é, também, que tanto num caso como no outro a Ucrânia estava numa posição de fraqueza, pelo que, recuperando como boa a tese chinesa, esses também terão constituído “tratados injustos”.
Todos sabemos que a situação no leste da Ucrânia se agravou a partir de 2014, após a ocupação da Crimeia, e que o conflito militar que desde então se desencadeou foi patrocinado por Moscovo e seus mercenários. Tal como sucedeu antes na Abecásia e na Ossétia do Sul. Os pretextos são muitos e não vou aqui discuti-los.
O que neste momento me importa questionar, e não só por razões de segurança nacional russa, ucraniana e europeia, é apenas o seguinte:
1. Se a China vai reconhecer as novas “repúblicas” independentes de Lugansk e Donetsk?
2. Se os documentos assinados entre Putin e os independentistas do Donbass constitui uma intromissão nos assuntos internos da Ucrânia?
3. Se o reconhecimento dessas novas “repúblicas” e o envio de tropas russas para a região do Donbass constitui uma violação da integridade territorial da Ucrânia?

A resposta à primeira pergunta é, sem dúvida, não.
Às outras não sei.
Note-se entretanto que Putin teve o cuidado, e a deferência para com a China, de só abrir as hostilidades após o término dos Jogos Olímpicos. Tal como se esperaria.
Até a Sr.ª Alyona que faz a limpeza da minha casa sabia isso (disse-me, há 15 dias, quando conversámos sobre o assunto). Estranhamente, os EUA e a UE não.
os militares que apoiam Putin estão todos borrados de medo da UE e da dupla dorminhoco-kamala de 2 bossas
A resposta às duas últimas é sim mas acho duvidoso que alguém faça as perguntas directamente à China e ainda mais que a China responda.
Parece-me que haverá perguntas bem mais importantes mas que não dizem directamente respeito à China. No entanto aponto que Putín aguardou pelo fnal dos Jogos Olímpicos, como alguns comentadores tinham previsto.
Ainda não estudei as sanções da UE mas a única sanção que poderia demover a Rússia – e eventualmente provocar uma mudança na chefia russa – seria o boicote energético. Mas se a Europa deixasse de comprar gás e petróleo russo, além do imediato solavanco na indústria alemã que afectaria toda a Europa, países como Polónia, Alemanha e outros, veriam os seus velhos a morrer em casas sem aquecimento,… como se fossem portugueses.
países como Polónia, Alemanha e outros, veriam os seus velhos a morrer em casas sem aquecimento
A Polónia extrai muita da sua energia do (seu próprio) carvão. Não creio que fosse das mais afetadas por um corte do gás russo.
A Lituânia sim.
a única sanção que poderia demover a Rússia – e eventualmente provocar uma mudança na chefia russa – seria o boicote energético
Eu creio que a Rússia poderia passar bem um par de anos sem vender gás à Europa. Vendê-lo-ia à China, e viveria das suas reservas financeiras.
Mais depressa a Europa morreria sem comprar o gás russo, do que a Rússia morreria por não o vender à Europa.
https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/d epois-do-anuncio-de-putin-para-a-manuten cao-da-paz-em-territorios-separatistas-o cidente-prepara-se-para-anunciar-sancoes
https://www.nytimes.com/2022/02/22/busi ness/nord-stream-russia-germany.html?ref erringSource=articleShare
A mais importante pergunta é: Putín vai deter-se perante a NATO?
Não falo da Ucrânia, onde o apoio ocidental, no máximo, tornará a ocupação russa mais dispendiosa e mais sangrenta.
A antiga URSS tinha as mesmas 9 vulnerabilidades geográficas – zonas que permitem um acesso militar ao coração da Rússia – já identificadas por Catarina a Grande, e controlava-as todas. Após o colapso ficou a controlar apenas uma.
Putin, com a sua política agressiva – ou defensiva na sua propaganda – já retomou o controlo de seis. A sétima é a Ucrânia.
Mas com a difícil ocupação da Ucrânia, enorme e com 45 milhões de habitantes, o exército russo ficará fortemente empenhado, não sendo possível repetir a concentração de 200 mil militares noutras zonas.
As duas vulnerabilidades que faltam são a Norte os estados bálticos e a mais importante – basta rever a história – é a planície polaca.
Letónia, Estónia, Lituânia e Polónia são estados da NATO e da UE e aí, o conflito já não poderá ser apenas por guerra convencional com empenhamento do exército. Será que isso vai deter Putín?
Realço que em política externa Putín tem apoio nacional. Até a moção aprovada na Duma em que se pedia a Putín que reconhecesse o Donetsz e o Luhansk foi apresentada por deputados do partido comunista russo, uma oposição consentida.
Francisco, esse tipo de equações dizem respeito ao passado. A importância estratégico-militar hoje em dia assenta em duas premissas;
velocidade de resposta,
imprevisibilidade de armamento.
A primeira diz respeito à capacidade de interceptar um ataque inimigo em tempo útil. Se você lançar um ICBM desde Los Angeles, existirá maior capacidade de resposta para interceptar tal lançamento e neutraliza-lo. Se tal lançamento for feito da Polónia a possibilidade de neutralização é substancialmente reduzida ou nenhuma, dependendo da quantidade de lançamentos.
A imprevisibilidade de armamento significa tão somente que não é possível determinar se um míssil está equipado com ogivas convencionais e/ou nucleares.
A Rússia movimentou excelentemente e inteligentemente suas peças no xadrez mundial: Ásia-pacifico, mediterrâneo, Atlântico, mar negro. E acrescentou aliados essenciais: Irão, Síria, Coreia do Norte e China. Acrescente-se aqui a capacidade que demonstrou em manter Israel no seu lugar.
Portanto, ele não necessita do nord-stream para colocar em cheque o abastecimento energético mundial. Qualquer que seja a origem do abastecimento da Europa, este estará sempre comprometido.
Sobre esta crise e a legitimidade de Putin reagir como reage, coloco a análise e ponderação o seguinte:
Que fariam os USA se os russos colocassem misseis no México e no Canadá?
Caro Vento, como a vejo, a questão não tem tanto a ver com racionalidade e premissas técnico-militares como com a percepção e crenças do povos russo. Humilhados em 1991. vêem-se graças a Putín e ao @#%€* Biden, reconhecidos como potência mundial. E, mesmo que apenas subconscientemente, retomam o sonho imperial da antiga Rússia.
Excepto o armamento, a Rússia practicamente esqueceu o resto. Tem hoje uma população no mais rápido declínio do mundo (não há estatísticas da China que está na mesma) tem generalizados abusos de álcool e droga e a esperança de vida para homens anda nos 64 anos. Pior do que tudo, nos finais do regime, na iminência de falência, cortou drasticamente o gasto público sobretudo na educação mas adivinha-se que noutra áreas (basta ver que produziu – sem os requisitos internacionais – uma das primeiras vacinas contra a Covid-19 mas teve números miseráveis na vacinação). A última geração que beneficiou de uma educação geral de qualidade está perto dos 60 anos ou seja, o russo de hoje é substancialmente menos preparado do que o russo da URSS.
Putín, tal como Nero, precisa de dar espectáculo para não deixar a população focar-se nos problemas internos. Foi isso que fez quando destruíu um satélite com um míssil – espalhando detritos por uma área enorme – apenas para mostrar capacidade de guerra no espaço.
A grande e aterradora questão é se a situação se continuar a deteriorar, um líder envelhecido e acossado poderá desencadear o que um analista poético chamou uma guerra do crepúsculo.
Quanto à energia, não é exactamente assim. Vimos há 2 ou 3 anos a triste figura de um cruzador russo rumo ao Mediterrâneo a expelir fumaça, isto é com uma propulsão diesel já não de última geração. Apenas com Sebastopol desde que ocupou a Crimeia, Putín precisa dos portos do Donbass para assegurar o acesso ao Mediterrâneo pelo Mar Negro. Mesmo que a Turquia apoie a Rússia – não é líquido pois são concorrentes na Ásia Central como se viu recentemente na última guerra no Ngorno-Karabakh – os EUA ainda dispõem de supremacia naval – 11 grupos aeronavais, com porta-aviões de 100 mil ton e propulsão nuclear transportando 80 aviões (valores médios) a que se juntaram no AUKUS os dois porta-aviões nucleares ingleses (em comparação a China tem 4 com 60-80 ton transportando 60 aviões e propulsão convencional) – e, sem o domínio aero-naval no Mediterrâneo e Médio-Oriente, o boicote energético à Europa nunca será total.
Finalmente, com o devido respeito, as hipóteses do México e Canadá não podem igualar-se à Polónia. Afastando o ruído e a propaganda deliberada – em que Putín é manifestamente superior – não foi a NATO que quis expandir-se mas sim os países que conheciam e temiam a Rússia imperial desde antes do comunismo, que quiseram imediatamente aderir à NATO como protecção futura. Os Bálticos então foram claríssimos pois até tinham uma parte de população russa e minorias nacionais russófilas, tal como na Ucrânia. Até um país tampão, a Mongólia, entalada entre a Rússia e a China, o pretendeu sem conseguir mas mantem relações de cooperação com a organização.
A Polónia, já dentro da UE e da NATO, implorou aos americanos que colocassem tropas no seu território. Ora não são meia dúzia de milhares de americanos que se opõem ao exército russo, mas são a garantia que, se americanos morrerem, a América é forçada a intervir. Sinceramente não sei – as negociações foram opacas – se os americanos exigiram os mísseis, especialmente por terem perdido confiança na Turquia, onde estavam, se os polacos se disponibilizaram antecipadamente para assegurar a presença americana.
P.S. O Canadá tem pelo menos duas linhas de mísseis americanos, para intercepção de ICBM russos (a rota do Ártico é mais curta do que a Atlântica) e parecem gratos com isso.
Meu caro Francisco, compreendo a sua explicação. Porém considero-a irrelevante para a matéria.
Um pouco de história recente ajuda a compreender o fenómeno: desde 1999 – data em que começou a expansão da nato para leste – os russos sempre se opuseram a este fenómeno. Todavia, não eram suficientemente fortes, direi mesmo, eram demasiado fracos, para reagirem a isto.
A denominada expansão da UE e dos USA a leste baseava-se na adopção da democracia. Mas esta adesão da democracia significa somente a imposição de um modelo que lhes fosse favorável, isto é, era o isco para garantir governos favoráveis ao ocidente.
O mesmo se passou no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria etc, com os resultados conhecidos.
Até 2008 – Cimeira de Bucareste – a Rússia pôde viver com isso. Nesta cimeira, 03 de Abril, a nato dava as boas vindas às aspirações da entrada no club euro-atlântico da Geórgia e Ucrânia.
Imediatamente após este anúncio a Rússia emite declaração: “A entrada da Geórgia e da Ucrânia no clube é um enorme erro estratégico que terá sérias consequências na segurança pan-europeia”. Em agosto de 2008 a Rússia entra na Geórgia e deixa o seu selo nesta ameaça.
O erro decisivo da nato – USA-UE – ocorre em 22 de Fevereiro de 2014 com a promoção da revolução laranja e a suposta promoção da democracia na Ucrânia.
A reacção conhecida foi a Crimeia e o leste da Ucrânia.
Agora o princípio do equilíbrio: Foi esquecida a doutrina Monroe que entre outros estabelece a política de segurança através dos hemisférios de influência.
Concluindo: a Rússia da actualidade é suficientemente forte, brilhante e capaz para determinar a política de segurança dos 2 hemisférios e, se necessário, aceitar uma escalada mundial em que todos perderemos.
Permita agora que, compreendendo sua posição, não mais me pronuncie sobre estes aspectos.
Porém, prepare-se. Pois estamos num momento em que tudo poderá desencadear-se à velocidade de um relâmpago.
Pois meu caro Vento, como dizia o prof. Dória em assuntos de genealogia, só posso concordar que discordamos.
A frase “expansão da NATO para Leste” contém em si um juízo de valor, isto é, que foi um desígnio. Mas a realidade dos factos contraria essa hipótese. Basta lembrar que, por inultrapassáveis divergências a NATO não aceitou o pedido de adesão da Ucrânia em 2004. E também a ideia que EUA, NATO e UE conseguissem actuar concertadamente num plano de domínio, também é contrariada pelos factos. Por exemplo nenhum país da Europa cumpriu o acordo de gastar o mínimo de 2% dos orçamentos na Defesa, o que os americanos suportaram até que Trump deu um murro na mesa.
Se a UE, NATO e EUA tivessem actuado em conjunto nunca a Rússia alcançaria os resultados que conseguiu e que bem apontou. Na realidade isso só foi possível pela falta de união da UE e pela incrível incompetência dos americanos.
Nem é válido misturar as democracias que pré-existiram nos países que aderiram À NATO, com as tentativas democráticas impostas “manu militari” a países que as não tinham. Nos exemplos que apontou os EUA actuaram à margem da Europa e, se na invasão do Iraque tiveram (poucos) apoios europeus, nessa e em todas as outras houve oposição de países europeus. E acontece que Iraque, Síria, Afeganistão tiveram todos motivos bem identificados e diferentes entre si. A Líbia é mais grave. Foi uma iniciativa francesa e italiana e os americanos só intervieram quando se estava a adivinhar que iam dar com os burrinhos na água. Também a maior vergonha da história europeia recente, a guerra na ex- Jugoslávia é a demonstração que não existia esse entendimento UE, NATO, EUA.
Essa narrativa não colhe.
Diz e bem que a Rússia sempre se opôs à adesão à NATO dos países antes dominados pela URSS. A sua leitura é que teriam receio de ficar expostos a ataques de proximidade. A minha é que sempre aspiraram a restaurar o império.
Tal como quase toda gente diz que Mário Soares em 1975 lutou contra os comunistas para defender a liberdade e eu digo que o PS já nasceu como um projecto de poder e, em 1975, a extrema-esquerda com o apoio da esquerda militar, preparava-se para ocupar o poder que o PS desejava. Os factos são os mesmos mas as leituras diferentes.
A Europa e, por extensão o Ocidente, tem princípios, valores e cúmulos históricos, que faltam em quase todo o Médio Oriente e que só parcialmente existem na Rússia que tem uma forte componente asiática que – opinião pessoal – explica a violência dos diversos poderes russos ao longo da história.
Um desses cúmulos europeus, adquirido em séculos de conflitos, é o princípio da inviolabilidade das fronteiras, ou se quiser da soberania dos estados (que os europeus aplicaram em África com resultados mistos porque se evitaram guerras, consumaram injustiças pois a fronteiras por vezes eram arbitrárias). E a história recente, que o caro Vento inicia em 1999, tem de ser um pouco recuada.
Quando a URSS implodiu, ficaram 4 países com armamento nuclear e fez-se um acordo que só a Rússia ficaria nuclear. Os outros Bielorússia, Ucrânia e Geórgia, entregariam o arsenal nuclear em troca da garantia da sua independência (ou inviolabilidade territorial). Esse acordo foi assinado pela Rússia e por ela violado em 2008 (Geórgia) 2014 (Crimeia) e agora na Ucrânia (embora o envio de forças especiais para o Donbass começasse em 2015). Agora até se põe sobre a mesa a colocação de armas nucleares na Bielorússia.
A narrativa foi sempre a mesma: a NATO ameaça. Mas o facto é que a concretização é sempre da Rússia.
Os invasores europeus da Rússia foram megalómanos detentores de poder absoluto, Napoleão e Hitler (descarto as anteriores incursões suecas pelo Báltico e as da Polónia, anteriores a Napoleão por não terem dimensão de invasão) e, francamente, não consigo ver a UE/NATO/EUA nesses atavios.
Por isso, tal como comecei, só posso concordar que discordamos.
“a que se juntaram no AUKUS os dois porta-aviões nucleares ingleses”
Não são nucleares e estão muito longe da capacidade dos americanos.
“Se tal lançamento for feito da Polónia a possibilidade de neutralização é substancialmente reduzida ou nenhuma, dependendo da quantidade de lançamentos.”
Então a Rússia não pode ter ICBM a curta distência contra si mas a Polóniajá deve aceitar os que estão contra si?
Sem contra os os mísseis nucleares de curto-medio alcance que a Rússia tem mas a NATO não.
Dizia-se que o vento não sabe ler e por isso arrancava as flores do jardim “é proibida colher flores”.
“Que fariam os USA se os russos colocassem misseis no México e no Canadá?”, muito bem observado, vejamos o que se passou em Cuba.
Há tempos o Putin agarrou a exemplo da anexação o Texas pelos EUA e o que fariam se os descendentes de mexicanos arranjassem uma república na linha de fronteira.
E lá se vai a nossa exportação de chouriços por água a abaixo. O Bolsonero é que foi espertinho com visitas de açougueiro para o que for preciso.
Caro SAC, se você perguntar a Wang Yi as horas, ele não lhe dirá a marca do relógio que usa.
Por outro lado, nunca o direito internacional constituirá obstáculo a Putin para garantir a sua segurança. A crise dos misseis em Cuba, a invasão da baía dos porcos servir-lhe-ão de lembrança que os USA também estariam dispostos a tudo para garantir sua segurança.
Este jogo não é para meninas nem para delicadas cogitações sobre o direito.