
Nesta imagem, vemos Gerd A. Meyer, um alemão de 77 anos, a pôr flores no local onde presume estar o seu pai sepultado. Gerd A. Meyer não devia existir. Quando grávida, a sua mãe podia ter sido presa, ou mesmo executada, caso se soubesse quem era o pai da criança.
Depois de os nazis terem invadido a União Soviética, em Junho de 1941, o jovem Anatoli Michailovitch Prokovski, de 19 anos, em vez de entrar na universidade, como planeara, foi alistado no Exército Vermelho. Caiu nas mãos dos alemães e enviaram-no para o campo de prisioneiros de Sandbostel, na região de Hannover. Os prisioneiros eram, muitas vezes, usados como mão-de-obra gratuita e Anatoli teve de trabalhar numa quinta das proximidades. Trouxe-lhe consequências inimagináveis: teve um romance com a filha do proprietário e ela engravidou.
Os nazis consideravam os prisioneiros e os trabalhadores forçados pessoas de menor valor, às quais se negavam os direitos mais básicos. Não se sabe quantas crianças nasceram de relações deste tipo, eram mantidas o mais secretas possível. Muitas mulheres, porém, não escaparam à denunciação. Umas foram presas, outras foram mesmo executadas. Terá havido abortos clandestinos e até infanticídios, não há dados fiáveis. Mesmo depois de terminada a guerra, as crianças fruto dessas relações eram discriminadas e insultadas, assim como as suas mães. Tudo isto contribuiu para que pouca gente revelasse o seu segredo.
A historiadora alemã Verena Buser não se conforma com o facto de o assunto continuar a ser ignorado e de o Estado alemão não ter ainda reconhecido o sofrimento dessas mulheres. Por isso, ela reúne informações, testemunhos e relatos das vidas de pessoas nascidas nestas circunstâncias, com o intuito de criar uma exposição itinerante, a ser inaugurada em Dezembro de 2024.
Não saber quem era o seu pai, causava muito transtorno a Gerd A. Meyer. Ele não tinha medo da verdade e tudo fez para a descobrir. Compreendia o silêncio da sua mãe, mas dificultou-lhe muito a pesquisa. Só em 2009, num centro documental de Dresden, teve a confirmação da identidade do progenitor e do que lhe aconteceu. Anatoli Michailovitch Prokovski contraiu uma doença grave, devido às condições deploráveis no campo de prisioneiros, e acabou por morrer, em Fevereiro de 1945, sem saber que iria ser pai ainda nesse ano.
Gerd A. Meyer entrou em contacto com os seus parentes russos, residentes em Semetchino, uma pequena cidade perto de Moscovo. Visitou-os e foi bem recebido, sentiu-se aceite, naquela família. Além disso, foi autorizado a modificar o seu nome. A novidade está no “A.”, uma abreviatura de Anatolievitch, ou seja, “filho de Anatoli”.
No campo de prisioneiros de Sandbostel, havia uma vala comum, onde se enterravam anonimamente os cadáveres. O local serve de memória, está cuidado e ajardinado. É muito provável que Anatoli também esteja lá sepultado. O filho tirou-o do anonimato, pondo lá uma cruz com o seu nome, a sua data de nascimento e a da morte. Visita-o regularmente e leva-lhe flores.
* Baseado num artigo do Jornal Católico da diocese de Hildesheim (edição nº 23, 11 de Junho de 2023).

Muito interessante Cristina.
Obrigado pela história.
De nada, Paulo.
Excelente história.
Obrigada.
Cuidado que hoje nesta Europa dar uma imagem humana de um russo está muito perigoso, parabéns pela coragem da Senhora Cristina Torrão, oxalá não lhe caem em cima as hienas do costume
Não é preciso grande coragem. E não me parece que as hienas vão surgir. Quando se mostra a impotência de cidadãos comuns para acabar com injustiças, as pessoas costumam arranjar sensibilidade para a situação. É essa a diferença entre contar histórias verdadeiras e teorizar sobre este ou aquele povo, generalizando.
De qualquer maneira, agradeço os seus parabéns e as palavras simpáticas.
Adorei a história Cristina. Obrigado.
De nada, João André.
Glória a Anatoli Michailovitch, que morreu mas não sem deixar descendência!
Isto de dormir com uma miúda de 20 anos é sempre melhor, que os óvulos delas são os férteis…
Estragou tudo, balio, devia ter-se ficado pelo primeiro comentário. Este quase foi “censurado” pelo mau gosto.
Na maior parte dos casos, os e as jovens procuram os seus parceiros ou parceiras no mesmo grupo etário. Nada tenho contra quem não o faça, só o disse para mostrar como este seu comentário era desnecessário.
Qual mau gosto?! Eu apenas afirmei um facto bem conhecido (embora somente empiricamente) da medicina da reprodução humana, ou seja, que é muito mais fácil obter uma gravidez a partir de um óvulo jovem (de uma mulher de 20 anos, digamos) do que partir de um óvulo idoso (de uma mulher de 40 anos, digamos).
É um facto que está bem estabelecido e deveria ser bem melhor divulgado.
Um primeiro comentário normal.
O segundo exibindo todo o desperdício da educação que, certamente, lhe deram.
Uma pena.
O meu comentário não foi mal educado. Não disse nenhuma grosseria nem insultei ninguém.
Veja a minha resposta ao comentário da Cristina.
Certo. Apenas demonstrou – uma vez mais – que é um processador com pernas. Uma máquina decerto muito eficaz, mas uma máquina. Há no cinema e na literatura registo de andróides com consideravelmente mais sensibilidade.
Nada que a leitura regular dos seus comentários, Lavoura, não tivesse já demonstrado exuberantemente.
Quando você não consegue perceber a alarvidade – não há outra forma de o dizer – do que escreveu no 2º comentário, não serei eu a tentar que o entenda
Dois obrigados. Um pela história que merecia ser contada e foi-o bem. Outro pela oportunidade de concordar com um comentário de “Balio” o que é uma raridade digna de realce.
Infelizmente o que aconteceu a essas mulheres alemãs, não foi apenas mais uma perversão exclusiva do nazismo. Sem a violência deste, coisa semelhante ocorreu na Coreia com mulheres recrutadas à força pelos japoneses para “mulheres de conforto” dos seus soldados. E na história há vários exemplos semelhantes, mesmo em épocas antigas com mulheres raptadas por bárbaros e que depois conseguiam fugir, para serem maltratadas, no limite assassinadas, nas suas aldeias natais.
Há um caso, já na minha vida consciente, em que penso às vezes. Quando da independência do ex-Congo Belga, dezenas de conventos foram invadidos e centenas de freiras violadas. Algumas, diz-se que várias dezenas, engravidaram. Fiel à sua doutrina de defesa da vida, a Igreja trouxe-as para a Europa onde ficaram reclusas em conventos isolados. De facto nada mais delas se soube. Nem sequer dos filhos que, contudo, teriam alguma visibilidade pela mistura racial (nem todos pois também havia freiras nativas).
Ocasionalmente, como agora, interrogo-me sobre o que teria prevalecido nessas crianças: o desconhecimento das circunstâncias, o trauma de nunca poderem saber quem era o pai ou o alívio pela sua origem não ter ficado publicamente conhecida. E lembro-me que hoje, com a imprensa que temos, isso não seria possível. O desconhecimento da identidade paterna permaneceri, mas as identidades de mães e filhos e as circunstâncias seriam certamente reveladas. Talvez até algum jornalista viesse a receber um prémio de jornalismo de investigação.
Tudo o que diz é relevante. Mas a “minha” história não é sobre violação, é sobre um namoro proibido.
Este post é bonito, achei-o singularmente importante, mas ao mesmo tempo levanta-me uma outra questão — juro que sem segundas intenções.
Há muitas tristezas no mundo — histórias de vida difíceis, dificuldades, acidentes, coisas que por um motivo ou por outro podiam ter corrido bem mas que, por mão de alguém, não correram. Algumas dessas mágoas até são minhas.
Mas até onde é possível responsabilizar alguém (a Alemanha, Portugal, os sanguinários da 1ª República, a GNR ou um primeiro-ministro) pelas misérias que sem dúvida derivam de decisões que alguém tomou, com maldade ou sem maldade?
Lembro-me, por exemplo, da opção de fechar todas as estradas, no incêndio de Pedrógão, e a estrada que ficou aberta era a mais perigosa e essa opção matou dezenas de pessoas. Ou alguém que se mata porque não tem dinheiro, porque o subsídio que tinha é cortado. Ou as dificuldades crescentes que levam ao desespero e a vidas difíceis, por causa de alguma opção governamental. E tudo isto é no tempo presente.
Agora, no que toca a coisas que estão para trás, na História… Acham suficiente que “pedir desculpa” ou “reconhecer” qualquer coisa realmente permite uma resolução de um problema, uma “closure”. Se calhar até sim, mas até onde para trás é legítimo pedir essas responsabilidades? Vamos exigir que o estado português peça desculpa pelos assassinatos e atentados bombistas da 1ª república? Pelas vidas ceifadas nos degredos no Brasil? Vamos pedir desculpa aos “mouros” por termos reconquistado o que era nosso? Será que os “mouros” vão pedir-nos desculpa a nós por nos terem invadido em 733 e terem acabado com a melhor civilização da península, os visigodos, que voluntariamente deixaram de ser selvagens e adoptaram o Direito Romano?
Até onde é que isto vai?
(isto sem nenhum desprimor da história do sr. Gerd A. Meyer, pela qual o meu coração ficou pequenino — mas acho que levanta uma questão maior, a questão da exigência dos pedidos de desculpa sobre os Estados actuais: qual é a sua verdadeira responsabilidade perante a História? Será que os ofendidos ficam satisfeitos com um pedido formal de desculpas? Tudo isto me parece um labirinto… Um labirinto no qual podemos não entrar se aceitarmos a história como ela é verdadeiramente, uma selvajaria, e nos ocuparmos apenas em encontrar soluções para o presente. O passado não tem remédio. Reparar coisas no passado melhora o presente? Torna os seus agentes mais conscientes? Tenho algumas dúvidas enquanto a EDP, os bancos, as imobiliárias, os supermercados e os senhorios existirem. Neste momento são esses os agentes da pobreza em Portugal.
Repito o que escrevi no comentário acima: não falei de uma violação.
Além disso, a historiadora não anda à procura de um pedido de desculpas do Estado. Ela pretende apenas dar a conhecer casos que, até agora, foram silenciados e ignorados. Quando não se fala das coisas, é como se elas não existissem.
Certo.