Excessos


Sérgio de Almeida Correia,

Vejo com alguma inquietação o encontro da Aula Magna.

Não pela razão intrínseca que o move, mais do que justificada, embora tardia, mas pelo estilo e o tom do acontecimento. O efeito agregador estimula, é certo, mas será esse o modelo adequado? Pela expressão de algumas intervenções, em tom comicieiro, não me pareceu de grande efeito. A prová-lo o destaque, exacerbado e inoportuno, dado pela comunicação social aos excessos palavrosos.

Também não me refiro aos apelos à demissão do Presidente da República ou do primeiro-ministro. À falta de um plebiscito, e tendo por pano de fundo situações tão rocambolescas quanto escabrosas como o caso das escutas, as relações com a SLN, a opção pelo pagamento da reforma em detrimento do salário devido pela função – a mais alta do Estado –, os lamentos públicos sobre a reforma da mulher, a mal contada história de uma permuta imobiliária digna de um livro de Hergé, ou a inépcia constitucional e falta de coragem política, não se esperaria do primeiro a nobreza desse gesto gaullista. Quanto ao outro senhor idem. Como um qualquer actor de segunda categoria, prefere manter-se em cena depois de sucessivas pateadas para não ter de enfrentar os colegas de camarim, afinal os mesmos de quem um ministro se queixa quando assinala, com manifesta razão, o baixo nível da linguagem parlamentar e política. Noutro plano se diria, tal como Leone tão bem nos mostrou, que quem aprende a conhecer o mundo com a malta de Lower East Side, sendo por ela projectado, mais tarde terá dificuldade em livrar-se dos companheiros de percurso.

A rua não é bandeira com que se acene. A rua não precisa de porta-vozes. A rua fala por si.

Em suma, como noutra casa escrevi, tenho para mim que a desarmante e incisiva lucidez do discurso coerente casa mal com a demagogia populista. Custa-me ver a forma como se perde o lastro histórico no discurso histriónico. Devia haver uma forma democrática de proteger dos seus próprios excessos quem tanto contribuiu para a redução da nossa infelicidade colectiva.

7 comentários em “Excessos”

  1. Aguardo com ansiedade a publicação do livro : “Cavaco- Contos Proibidos” de autoria de Hergé.

    Ficará bem na mesma prateleira, onde guardo a relíquia histórica: – “Contos Proibidos- Memorias de um PS Desconhecido” – de Rui Mateus.

    Quero dizer:– “Quem tem telhados de vidro….”

  2. Um conselho de um grande Homem:

    “Quereis um conselho? Acabai de uma vez para sempre com os meetings esterilizadores , banais e ridículos, e instituí conferencias.
    Não querais ser corpos deliberantes. Conservai-vos na esfera especulativa que convém aos vossos interesses e às vossas necessidades. Com o vosso beneplácito ou mau grado vosso, a revolução há-de se realizar pela força das coisas. A vossa interferência não fará mais do que comprometer os sucessos. O que tendes que fazer, vós burgueses, que estais fora do governo, é simplesmente preparar-vos para o exercer ou para o criticar com mais conhecimento de causa do que aqueles que vos procederam. A corrupção de que vos queixais nos outros é a prolongação da que existe em vós mesmos. Os maus governos são a escrófula que aparece no pescoço; vós sois o vício linfático escondido na célula.
    Purificai-vos aprendendo. O destino da vossa geração depende o vosso curativo. Hoje em dia estamos apenas viciados. Daqui a algum tempo estaremos inteiramente apodrecidos.

    Ramalho Ortigão, 1876 in Farpas.

  3. Uma curiosidade. Acabo de ver no jornal da 1 de uma televisão a missa desse tal Soares na Aula Magna, e macacos me mordam mas eu vi que enquanto ele falava no perigo de uma nova ditadura aparecerem grandes planos de notáveis figurantes que são seguidores de regimes totalitários. Raios me partam!

  4. Estou como a Helena, não vi nem ouvi nada. Ainda bem, pelo visto.
    Muito lúcido o teu texto, Sérgio. E é de lucidez e coragem que precisamos, não de demagogia barata.

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