Exaustão cívica


Teresa Ribeiro,

No ensaio eleitoral de Maio avaliar-se-á o estado de exaustão cívica dos portugueses primeiro que tudo através do índice de abstenção. É natural que dos dois milhões que vivem na pobreza muitos não se dêem ao trabalho de votar. A estes somar-se-á parte dos que não tendo perdido tudo se sentiram expoliados e dos que tendo perdido pouco viram, ainda assim, as suas expectativas defraudadas. Aos contribuintes revoltados e aos politicamente desiludidos acrescente-se os que ficaram sem emprego ou com os filhos emigrados e decidiram por isso virar costas ao sistema que os excretou. Desta salada obtém-se uma margem de potenciais abstencionistas tão inquietante que até levou algumas bempensâncias a defender o voto obrigatório.

Mas também a inércia dos votantes é, em muitos casos, uma manifestação de exaustão cívica. Durante a campanha é por estes exauridos mas fiéis eleitores que os partidos do arco da governação vão ter de lutar, convencendo-os mais uma vez a sair do sofá. Apesar de tudo, apesar de tudo, apesar de tudo.

É triste.

23 comentários em “Exaustão cívica”

  1. Abstenção em eleições para o PE:

    1987: 27,58%

    1989: 48,90%

    1994: 64,46%

    1999: 60,07%

    2004: 61,40%

    2009: 63,22%

  2. Cara Teresa,

    Absolutamente de acordo! E como disse, e bem, a Helena ninguém percebe muito bem (ou muito mal) para que servem as eleições europeias ou o que fazem os eurodeputados. Resultado, votar nas Europeias ou acaba por ser clubístico (“Sou comunista / benfiquista desde pequenino”), ou por rotina (“Moro ao lado da Junta e já agora…”) ou meia-dúzia de ainda-crentes nas virtudes reais da Democracia electiva na UE. O resto, e se vier bom tempo, vai estar na praia ou na esplanada.

    1. Às vezes não há como escapar aos lugares comuns. Vou dizê-lo, porque explica muito bem o porquê desta apatia: “As pessoas não se sentem representadas”. Pronto, já disse. E assim sendo votar não lhes parece particularmente relevante. Se estiver sol darão por mais bem empregue o seu tempo na praia, claro está.

  3. A Teresa tem cá com cada uma que até parecem quatro. Tão não vê que os pobretanas não têm dinheiro para os transportes? Isso é coisa de remediados, dos que vivem de remédios.

    Os que não partiram estão feito em cacos e não há cola que os mantenha direito para caminhar; e os que partiram, tão partidos.

    Os contribuintes revoltados não querem contribuir mais, e os politicamente desiludidos não querem mais ilusões.

    Os que ficaram sem emprego empregam suas forças a excretar, e os que têm filhos emigrados migram pelas ruas da amargura que os conduz ao vale dos caídos e não às urnas.

    Também decreto que o voto seja obrigatório, que qualquer um possa fazer um voto contra a votação.

    E se a Inércia deixa os votantes exaustos aconselho-os a mudar de gaja e a sair do sofá.

  4. Deixo um apontamento sobre o voto obrigatório.

    Quando visitei a Tunísia, ainda com Ben Ali no poder, foi-me dito que as suas margens de 99% dos votos podiam ser reais… porque ninguém se atrevia a sair de casa para votar desfavoravelmente, a contrario, tinham vantagem em fazer parte da lista de adeptos votantes. Além disso, a suspeitos opositores, a polícia fazia o favor de perguntar onde iam, antes de chegarem à mesa de voto.
    Numa situação dessas, o voto obrigatório é uma salvaguarda democrática.
    Não se examinam listas de votantes…

    Dito isto, o problema deste regime é que começa a aproximar-se de percentagens de votantes semelhantes a 1973… e quando tiver afastado da mesa de voto um número de pessoas semelhante ao do Estado Novo, essa conquista do voto do 25 de Abril, significará o mesmo que significava antes – só vai votar quem está alinhado com o regime, e pode ser uma minoria.
    Isso não é um problema do partido X ou Y, é um problema de regime…

    Se as pessoas sentirem que o seu voto serve para mudar de política e não para mudar de caras com a mesma política, aí pode ser que ganhem adeptos ao voto…

    Um artigo interessante sobre as eleições no Estado Novo:
    http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3412.pdf

  5. Brilhante post , sem dúvida pertinente e revelador da Democracia que temos e que muitos defendem com unhas e dentes.
    Pessoalmente e em principio irei votar pois ainda tenho dinheiro para a gasolina da deslocação, a não ser que arranje trabalho e esteja a trabalhar como muitas dezenas de milhares de Portugueses estarão e entre perder um dia de trabalho e o emprego e ir votar já se sabe a resposta que estes piegas que não querem sair da sua zona de conforto darão.

  6. Peço desculpa, mas quando diz “É natural que dos dois milhões que vivem na pobreza muitos não se dêem ao trabalho de votar”, penso que é o contrário que deveriam fazer ! Por estarem mal, deviam fazer algo para MUDAR a situação ! As eleições vão acontecer, e é o DEVER do povo ir votar! Até porque, no ensino Básico, me disseram “Quem não vota, não pode reclamar !”

  7. É triste porque os portugueses nunca foram elucidados como deviam sobre as eleições para o Parlamento Europeu. É triste porque os portugueses estão fartos de serem massacrados e enganados, por incompetentes tanto cá, como na UE. É triste, porque mesmo aqueles que vão votar, sabem que infelizmente vamos continuar ou igual, ou pior que antes.

  8. Ao ler este post, parece ser pretendido dar a entender que não há alternativas possíveis ao chamado arco da governação, ou seja, PS, PSD, CDS. Espero estar equivocado porque se é tal o objetivo, a Teresa Ribeiro está a prestar um péssimo serviço aos portugueses e a revelar sentimentos antidemocráticos, visando apenas perpetuar no poder os algozes que nos governam há 40 anos e cujos resultados são enriquecer os mais ricos e empobrecer os mais pobres, conduzindo-nos para a escravatura.
    Se não é este o objetivo da publicação em apreciação, é preciso ter a lucidez e a preocupação de informar as pessoas que a possibilidade de governação não se esgota na tríade PS/PSD/CDS, bem pelo contrário! Qualquer cidadão minimamente atento sabe que há uma enorme e diversificada alternativa política entre os partidos existentes, tanto à direita como à esquerda da tríade PS/PSD/CDS.
    Posto isto, é, contudo, indispensável dizer que, se queremos uma política que seja mais justa na distribuição dos rendimentos do trabalho, logo mais justa e virada para o desenvolvimento da economia, da cultura e do bem estar da maioria da população (devendo ser este o único e exclusivo desiderato de um governo de bem, isto é, com moral e ética elevadas), só o conseguiremos com um governo cujos governantes se situem politicamente à esquerda da tríade PS/PSD/CDS.

    1. Ajudar a perpetuar no poder seja quem for é coisa que não me passa pela cabeça, serak, pois se há coisa que prezo muito é a democracia e a liberdade. E quando digo “liberdade” é mesmo liberdade sem tutelas, seja do poder financeiro, seja da “classe operária”.

  9. A abstenção elevada nas europeias deve-se ao facto de elas não alterarem nada de significativo na política nacional. Fossem elas uma espécie de intercalares, com repercussão em parte dos deputados da AR e a abstenção seria menor. Assim, servem apenas para distribuir reformas políticas douradas a uns quantos barões dos partidos.

    1. Se a esperança das pessoas numa mudança que lhes dê melhor qualidade de vida se mantiver nos níveis que agora temos – os portugueses são o povo mais pessimista da UE segundo o eurobarómetro – nas próximas legislativas os níveis de abstenção devem descer, mas ainda assim manter-se elevados, Makiavel.

      1. Nas europeias, os níveis de abstenção são elevados porque as pessoas têm a percepção da inutilidade do parlamento europeu. De lá saem umas leis vagas sobre o calibre das frutas e outras pérolas legislativas, ou pareceres não vinculativos sobre igualdade de género, ou comissões de avaliação sobre os voos da CIA que não dão em nada. Não elegem o Presidente da Comissão Europeia, nem a Comissão Europeia, o mais próximo que há de um governo europeu. Em suma, um arremedo de representação democrática. E não se discute a Europa porque, salvo poucas excepções, existe uma unanimidade acritica quanto a ela. Não havendo verdadeiro confronto de ideias quanto ao papel e caminho da Europa, sobressai o sentimento populista de que “são todos iguais”. Em rigor, a Europa como entidade institucional internacional está a fracassar em toda a linha, desde a queda do muro de Berlim.

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