Eutanásia social


Pedro Correia,

Está em curso uma autêntica eutanásia social. O morticínio que tem acontecido nos chamados “lares de idosos” – muitos dos quais clandestinos, perante a criminosa indiferença de tantas autoridades autárquicas, de norte a sul do País – é algo que devia chocar todos os portugueses. Das quase duas mil vítimas mortais por Covid-19 oficialmente já registadas, cerca de 40% ocorreram naqueles antros. Vitimando gente indefesa, que na grande maioria dos casos nem pode sair daquelas instalações, onde na prática vigora um regime de reclusão forçada desde que foi declarada a pandemia.

Só em Reguengos de Monsaraz, como num filme de terror, morreram 18. Nunca a bela palavra lar foi tão conspurcada e pervertida.

Infelizmente este assunto, como se tornou hábito, vem sendo tratado apenas enquanto dado estatístico na generalidade dos órgãos de informação. E siga para bingo, pois tristezas não pagam dívidas e há que continuar a promover “spots da moda” e inserir publirreportagens nos telediários recomendando “passeios inesquecíveis” (com gel e máscara).

E colar mais um arco-íris na janela com a frase “vai ficar tudo bem”. Num país em que mais de 12 milhões de consultas e cirurgias permanecem por fazer.

70 comentários em “Eutanásia social”

  1. clandestinos, perante a criminosa indiferença de tantas autoridades autárquicas

    Isto não é bem assim. As autoridades autárquicas em muitos casos nada podem fazer, pois desconhecem a existência dos lares, os quais podem ser muito pequenos e ocupar um simples apartamento ou moradia unifamiliar.

    Eu uma vez ia a andar por uma rua de Lisboa e fui chamdo por uma pessoa de uma janela de rés-do-chão. Pediu-me para a ajudar a fazer um trabalho em casa dela. Uma vez entrado, vi que o trabalho consistia em levantar um idoso que tinha caído da cama. Havia mais outro idoso no quarto, que era escuro e bafiento. Claramente, tratava-se de um lar de idosos. Clandestino, pois claro. A pessoa que me tinha chamado era a que cuidava dos idosos e estava sozinha naquele antro.

    1. Se a autarquia – pequena, média ou grande – ignora a existência de “lares” clandestinos, que proliferam como cogumelos, isso é negligência grosseira. E criminosa também.

  2. este assunto vem sendo tratado apenas enquanto dado estatístico na generalidade dos órgãos de informação

    Penso que nem isso. Raramente é referido pelos órgãos de informação quem são os mortos por covid-19 nem onde morreram. Os órgãos de informação raramente ou nunca divulgam que os mortos são quase todos muitíssimo idosos e que foram contaminados em lares. Os órgãos de informação participam numa gigantesca campanha de mistificação da opinião pública, na qual se pretende fazer esta acreditar que todas as pessoas podem morrer de covid-19 e portanto se procura ocultar que as pessoas que de facto morrem são quase todas muito específicas – idosos, grande parte deles em lares.

  3. Os portugueses estão chocados, mas de pouco lhes serve.

    Estão a morrer muitas pessoas nos grupos que sabíamos de risco. Idosos e
    pessoas que vivem com grande proximidade física de outras. A definição de um lar de idosos.

    Já sabíamos isso antes de as pessoas começarem a morrer. Já toda a gente sabia que as condições em muitos desses lares são más, muito antes da pandemia. A reclusão forçada já existia antes, pessoas que não são autossuficientes não saem quando querem, e uma grande maioria não recebe visitas de ninguém.

    Infelizmente tirando para o pequeno número de idosos ricos, fazer um lar com boas condições não dá dinheiro e a iniciativa privada só lhes pega se os puder fazer maus e for subsidiada. O Estado para os fazer bem teria de ter mais dinheiro e para isso aumentar impostos, mas isso é tabu.

    1. Extraordinária tese. O Estado não socorre nem alberga os velhos desprotegidos, como é seu dever, porque há poucos impostos neste país.

      O que a gente aprende nestas caixas de comentários…

      1. O Estado não é, como gosta de pensar, uma entidade que existe à parte da economia. Só pode gastar o que recebe e o que recebe vem em impostos.

        Parece comungar de um pensamento mágico comum à nossa direita liberal de que é possível exigir mais pagado menos, desde que seja ao Estado. Não é.

        Isto de se queixar que o Estado é caro às 2ª 4ª e 6ª e de que não faz o suficiente às 3ª 5ª e sábados é um bocadinho incoerente.

        Nos apoios à velhice seguiu-se a máxima “menos Estado, melhor Estado”. Já se conseguiu metade.

        1. Pensamento mágico é esse, que concebe o estado como cobrador de fraque, espécie de vampiro insaciável, sempre a sugar a escassa riqueza produzida com mais impostos.

          Justificar a forma indecente e inumana como os velhos têm sido desprezados pelas entidades públicas, no plano nacional e autárquico, porque o estado arrecada pouco em impostos no terceiro país da Europa com maior défice orçamental e segunda maior carga fiscal na proporção da riqueza produzida, é desculpa esfarrapada que só os ignorantes compram e nem o ministro das Finanças se lembraria de invocar.

  4. Pobres velhos que trabalharam uma vida inteira, a primeira metade no salazarismo o que significa infância e juventude sacrificiais e cortadas de tudo – salvo raras excepções, já que a classe média alta e alta não vão para estes lares desgraçados. Esta desgraça de penúltima morada, última enquanto vivos, calha a quem mais trabalhou, a quem mais sofreu nas malhas de um regime demasiado adverso aos pobres que tornou cada vez mais pobres. Depois veio-lhes um alívio com o 25 de Abril, a democracia melhorou-lhes a vida. Mas não para poderem pagar lares de luxo ou tratamento em casa. E caem nestes lugares. Porque os filhos não podem ou não querem tê-los em casa. Porque a vida familiar já não tem como lema tomar conta dos mais velhos. Tratamos mal os nossos mais velhos. Esquecemo-los no Lar, no hospital e até na morgue. Dá que pensar este quase pavor em encarar a velhice dos outros quando sabemos que, dado o avanço da medicina, nos vai bater pela porta. E ainda que não, que morramos cedo, enquanto estamos, temos na mesma o dever de zelar pelo seu bem estar.

    1. Admiro os seus sentimentos mas discordo dos enquadramentos que faz.

      As taxas de crescimento no Estado Novo foram superiores às da Democracia e a diferença entre ricos e pobres também aumentou nesta última.
      No caso dos idosos, sendo já existente mas ainda incipiente a desertificação do interior com a vinda para as cidades, a situação não era tão grave porque nas aldeias, os idosos não eram abandonados.

      Não defendo o salazarismo mas constato que a democracia (esta) conseguiu fazer pior em muitos campos. Compare a situação dos idosos antes de 1974 e a actual; compare a protecção de menores; se quiser e não se incomodar ( eu incomodo-me) compare o pior dos piores: os chamados “ballets rose” em que as famílias entregavam raparigas de 15-16 anos e que durou meses com o caso “Casa Pia” em que foram entregues rapazinhos de 10-11 anos que estavam à guarda do Estado e que durou anos.

      No que respeita ao que deveriam ser preocupações básicas, protecção dos mais frágeis, segurança e justiça, não vejo senão carências e omissões graves.
      Por isso costumo dizer que – pensando sobretudo no 25 de Abril mas não só – por muito mal que uma situação se apresente, é sempre susceptível de piorar.

      1. ” Compare a situação dos idosos antes de 1974 e a actual;”
        Com esta fiquei de boca aberta. Que idade tem o Senhor Francisco? Já tinha nascido em 1974?? Os portugueses até andavam descalços e muitos nem para a escola iam. Mas iam todinhos (todinhas como agora é correcto dizer mas não digo porque elas não iam) pisar minas (sabe o que é uma mina?) para África.

        1. Experimente reler em enquadramento.

          Em 1974 a maioria dos idosos ainda viviam na província onde não eram abandonados pelas famílias.
          Actualmente a maioria vive em cidades onde os familiares não têm possibilidade de os alojar. A esta evolução, poder-se-ia responder com apoios sociais às famílias, incluindo acesso económico a habitações maiores; poder-se-ia também atribuir um direito a inclusão em lares, independentemente dos custos reais (as Misericórdias fazem um pouco isso quando aceitam idosos pelo valor das suas pensões, independentemente do valor destas).
          E, com algumas excepções sem significado e quase todas de índole associativo (p.ex. Lar do Comércio, Montepio) o que se fez? Está à vista!

          Se está interessado no meu possível conhecimento de minas e na minha provável idade vá a
          https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/dez-livros-para-comprar-na-feira-11727078?thread=95451878#t95451878

          1. “Em 1974 a maioria dos idosos ainda viviam na província onde não eram abandonados pelas famílias.” Pois, morriam de fome e muito poucos chegavam a idosos. Muitos nem electricidade tinham, quanto mais ar condicionado ou aquecimento.

          2. Presumo que esteja feliz e realizado com a actual situação dos idosos. Bom proveito.

      2. É a minha opinião, mas nunca eu direi que a democracia é pior que o Estado Novo. Serei incapaz de afirmar que a miséria de hoje é igual à desse tempo. Porque não é. Não havia apenas alguns pobres sem sapatos, mal alimentados, a trabalhar de sol a sol, que é coisa que nós não sabemos a não ser das palavras. O povo era todo pobre, de uma pobreza miserável. Adoeciam e morriam sem médico, em tugúrios desprovidos de qualquer conforto, de telha vã, sem água nem electricidade, dormindo amontoados em catres a que chamavam cama, numa promiscuidade que só visto.
        Se concordo que a imoralidade existe sempre (acha que o caso Casa Pia, só existiu em democracia? que os abusos de menores são coisa deste tempo apenas?) e temos de estar atentos como sociedade, porque até nisso acho melhor as democracias, apesar de tudo, os casos são descobertos e julgados.
        Quanto aos velhos do Estado Novo, como é de ver tinham uma boa vida, era aliás o que os filhos e netos lhes podiam dar, boa alimentação, cuidados médicos, uma cama fofa. Mas é que nem havia Lares, onde ir ao dinheiro para pagá-los? Contudo, dou a mão à palmatória apenas num item: o povo era mais humano com os seus velhos, cujos eram bem menos – muitos morriam antes da velhice e outros mal a aguentavam sem os cuidados médicos necessários – não havia condição para o bom trato de ninguém, mas os que sobreviviam, permaneciam em casa até à morte.
        Não sei qual o remédio para este mal de tanto velho, somos uma sociedade envelhecida e temo que não haja sequer gente nova suficiente para tratar-los(nos) daqui a uns anos. Admito mesmo que os novos, que são cada vez mais alheios a interessarem-se por alguém que está de partida e só estorva, não estejam para isso. Mas a velhice, digo eu, não pode depender deles. Os jovens têm de exercer o seu direito a sê-lo, a aspirar e construir o futuro. Os mais velhos têm de ser acompanhados sobretudo pela idade madura, são os filhos quem mais próximo está deles. E ao Estado cabe ajudar nesse aspecto, mas não substituir-se a eles (excepto em casos de falta). Porque o carinho e cuidado contínuo são ingredientes que fazem falta.

        1. Tal como já disse, admiro os seus sentimentos. E evidentemente, respeito as suas opiniões.
          Mas a minha opinião é baseada em factos: as taxas de crescimento do anterior regime eram superiores às da democracia que temos. Claro que o anterior regime estava, mesmo internamente esgotado e não podia continuar. Já não vejo motivo aceitável para, passada a inevitável confusão do 2 ou 3 primeiros anos, que este regime não tenha tido taxas de crescimento iguais ou até superiores e, se as tivesse tido, a situação dos idosos seria certamente melhor.
          Concordamos em que o apoio aos idosos possa ser feito via familiar (com apoio do Estado) ou directamente pelo Estado se a primeira não for possível (veja a minha resposta ao sr. Al. Sousa.).
          Agora o que não desisto, é de afirmar que este regime não fez o que devia neste campo (e em alguns outros).
          E, quanto ao caso “Casa Pia” ou não entendeu ou não quiz admitir. É evidente que orgias e pedofilia existiram desde sempre mas o que é grave é que neste caso as crianças estavam à guarda do Estado e não de famílias imorais ou carecidas. Por isso, sim, afecta directamente a imagem do Estado, isto é, do regime.
          E, apenas para tranquilizar as hostes, que adivinho assanhadas, a alternativa a este regime não será nunca o regime anterior que está morto e enterrado.

          1. Pelo facto de defender a democracia, não significa que a que vivemos não tenha falhas e graves, que não haja necessidade de emendar, sobretudo quando ela tende a tornar-se outra coisa. Não é o sistema perfeito, é dos imperfeitos o menos mau. Claro que casos como o Casa Pia repugnam por vários motivos e o facto de as crianças estarem à guarda do Estado não é o menor. O que quis dizer foi, e não haveria na mesma pedofilia no outro regime? Mas talvez a democracia permita que se fale e se julguem casos como este com mais abertura que no Estado Novo. Não há regimes ìmpunes, o mal faz parte do homem e todos o sabemos. Repare no Vaticano, por exemplo.
            Mas se acaso tem a solução para males do género, avante. Precisamos de si.
            Bom dia.

  5. “perante a criminosa indiferença de tantas autoridades autárquicas”

    Não, não: os criminosos de Reguengos, tal como em muitos outros lados, agiram com dolo e têm nome:

    https://observador.pt/especiais/a-teia-do-alentejo-a-direcao-do-lar-que-so-tem-socialistas-o-ze-das-festas-e-uma-fundacao-familiar/

    A verdadeira indiferença é a nossa,

  6. Nas últimas estatíscas apresentadas pelo INE sobre a mortalidade ocorrida no período de confinamento até Agosto, estranhei que este organismo viesse fazer a tese da onda de calor no mês de Julho para justificar mortes.

    Pois bem, anexo o mapa de temperaturas do mês de Julho para que se verifique as amplitudes térmicas neste mês e se constate as regiões em que ocorreram as elevadas temperaturas.
    Depois de analisado este mapa, desejaria que o governo viesse explicar onde ocorreu esse excesso de mortes para se poder relacionar com as ditas temperaturas elevadas do mês de Julho.
    Aqui fica:
    http://www.ipma.pt/resources.www/docs/im.publicacoes/edicoes.online/20200806/QjVTABosEPrZtOOiteHA/cli_20200701_20200731_pcl_mm_co_pt.pdf

    Deixo também a seguinte notícia:
    https://executivedigest.sapo.pt/mortes-em-casa-e-sob-investigacao-disparam-em-portugal/

    E concluo com o plano de saúde para o Outono/Inverno:
    https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/plano-da-saude-para-o-outono-inverno-2020-2021-pdf.aspx

    Muitos beijinhos e abraços deste ser divino que vos quer muito.

  7. Existem duas coisas que me têm espantado:

    – a exclusão dos velhos que cada vez vão sendo mais novos. Em algumas situações, estar nos 35 já é morte anunciada.

    – a forma como se fala e se encara o conceito de “lar ilegal”. Hoje em dia fala-se de “lar ilegal” como uma coisa normal, banal, tranquila, como tudo esteja ok. “Morreram uns quantos num lar ilegal”, “um lar ilegal com alguns casos mas está tudo controlado”, “nos lares ilegais as coisas já estão melhores”, tudo tranquilo, afinal um lar ilegal não é nada comparado com o facto de eu apanhar uma multa gigante se colocar publicidade na janela do meu estabelecimento comercial e não pagar a licença.

    1. “Hoje em dia fala-se de “lar ilegal” como uma coisa normal, banal, tranquila, como tudo esteja ok.”

      É o menos mau para o regime. Os lares ilegais salvam muita gente, tal como o mercado negro salva milhões de vidas por todo o mundo.

      Ainda há dias num marco histórico do socialismo que não apareceu na primeira página do jornal Publico o ordenado mínimo e pensão mínima na Venezuela 400000 bolivares foram ultrapassadas pelo preço de 1 dólar =4010000 bolívares no mercado negro.

      Não espera que o Estado o faça, tem muitas comissões, entidades, observatórios, autoridades, estudantes, artistas e cultura, sindicatos, empresários …. em primeiro lugar.

      lucklucky

  8. No caso de Reguengos de Monsaraz o lar não era clandestino. Mas porquê tanto lar clandestino? Fuga ao Fisco, ou excesso de burocracia para legalizar?

    1. “Mas porquê tanto lar clandestino? Fuga ao Fisco, ou excesso de burocracia para legalizar?”

      Só o facto de perguntar…

      Porque os lares clandestinos servem uma parte do mercado: as pessoas que não podem pagar mais.

      Ainda não entendeu os custos das regras úteis e inúteis?

      Relacionado:
      https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/fascismo-higienico-tambem-mata-7022015
      este também é bom
      https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/a-mansidao-dos-subditos-7026683

      lucklucky

    2. porquê tanto lar clandestino?

      Porque há muita procura por lares mas há poucos edifícios que tenham condições para ser lares dentro dos condicionalismos legais. E construir edifícios novos de raiz para essa função é muito caro. Portanto, o que muitas pessoas fazem é transformar em lares edifícios que não foram concebidos para esse fim nem têm condições para o serem. Por exemplo, transformam em lar uma moradia unifamiliar.

      Um edifício para ser lar precisa de obedecer a uma série de condicionalismos, como sejam ter todos os corredores com uma largura mínima, ter todas as portas com uma largura mínima, ter casas de banho espaçosas, etc e tal. Muito poucos edifícios cumprem todos esses requisitos. Logo, para se ter mais lares, teriam que ser construídos de raiz mais edifícios. O que é muito caro e muito demorado.

      1. Exatamente! A legalização dos edifícios é um processo tão complicado (com os srs arquiteto(a)s das autarquias/Seg. social a atrasar tudo o que n/ seja encomendado nos seus ateliers de “influência” – tb é preciso dizer) que muitos requerentes ficam-se pelo pedido de alvará…
        A legislação portuguesa encoraja a fraude – como as escolas, por ex – há 1 diploma que refere que est. de ensino devem funcionar em edifícios de 1 só piso – levado à letra, fechavam quase todas…

    3. Porque os custos de gerir um lar (ou uma creche) são tais que posteriormente as mensalidades só os tornam acessíveis à classe média-alta.
      Não é à toa que quem os usa são os com menos posses. Não será por quererem mal aos seus.

      1. Nunca tive um familiar num lar.

        Será difícil vir a ter. Segundo me informaram, pelo menos na região Norte do país há bichas enormes para entrar num lar. Há muito poucos lares para a imensa procura que há por eles.

  9. Uma sociedade que abandona os seus velhos diz tudo de si.
    É uma crueldade simples e tragicamente ampliada pela pandemia, que expõe a realidade em carne viva.
    O abandono na velhice pré-existia. Quem conhece o dia-a-dia num lar, sabe que a maioria dos nossos velhos lá depositados não tinha visitas regulares dos familiares nem se ausentava das instalações. Só uma minoria conhecia realidade diferente.

    Percebe-se. O ímpeto do estado dito social e da própria sociedade foi estando preso a preocupações mais prementes, como a saúde oral do cãezinhos, a aprovação de legislação que permite a mudança de sexo a adolescentes por sua vontade ou persegue fumadores de tabaco enquanto liberaliza as drogas leves.

    1. Em qualquer caso, poder cuidar da saúde oral do cãozinho (do gato, no meu caso), podendo fazê-lo depois de pago o inominável saque fiscal a que obedientemente me sujeito, como felizmente (ainda) pude, não me parece sinal de decadência ou – sob qualquer outra forma – desrespeito pelo sofrimento humano. Aliás, sempre verei com muita dificuldade essa redutora (uso de eufemismo) forma de ver o mundo na qual um cêntimo gasto no cuidado dos animais será sempre um cêntimo mal gasto, enquanto houver humanos em sofrimento. Desde logo por, manifestamente, se não poder as assacar aos animais as culpas pelos males humanos. O tema levar-nos-ia longe, temo.

      Quanto ao resto que escreve, isso sim, é claro sinal da decadência que tão fervorosamente abraçamos.

      Costa

      1. Não me oponho a que se trate bem os bichos. O que me parece um contrassenso é que numa sociedade em que se mima os bichos com tamanho desvelo, se abandone os seus semelhantes, sobretudo os mais frágeis.

        1. Isabel Paulos,
          Olhe! Que em Portugal há gente que trata muito mal os bichos infelizmente.
          Os bichos são inocentes sem maldade, enquanto as pessoas tem maldade para dar e vender.
          E aqueles que abandonam os seu semelhantes, provavelmente também tratam mal os Bichos.

          1. Anónimo,

            Adoro bichos. Mas antes de mais está a vida humana. E essa não se mede em bondade ou maldade, que é um juízo subjectivo e volúvel. O que quero dizer, é que não alinho no argumento do ‘ai estou tão desencantado com os homens que prefiro o meu cão, gato ou periquito. Gostar assim é fácil. Em princípio, os bichos não nos desdizem. Gostar dos homens dá um bocadinho mais trabalho, eu sei.

          2. Como tudo na vida é subjectivo e volúvel.
            Agora dizer que antes demais está a vida humana, para uns é como dizer primeiro estou eu, não sei se temos esse direito….

          3. Foram precisos muitos séculos para se dar valor à vida humana (o que está nas antípodas do sentimento do primeiro eu). Se quiser regredir é consigo. Por mim prefiro estar reconhecida a quem lutou por civilizar o mundo e se preocupou com a vida dos vulneráveis da humanidade.

          4. Isabel não vamos baralhar as coisas!

            Acho que não é assim tão difícil perceber que a única coisa que eu quis dizer foi que os animais merecem e devem ser tratados com dignidade.

            Se alguém aqui quer regredir é a Isabel, e pelos vistos como gosta de criar confusão, pode-se juntar a regressão colectiva que a humanidade cheia de radicalismos e de novos preconceitos e ideias feitas está a enfrentar na actualidade onde o respeito pelo próximo não existe, e de os animais tirando as devidas excepções nunca existiu.

        2. Esse abandono choca sempre (ou deveria chocar), sem se ter que estabelecer paralelos com os animais de companhia. Esses animais ou outros, na verdade. Aliás há um paralelo sempre verdadeiro: os maus tratos e abandono a que se votam sistematicamente e despudoradamente racionais e irracionais, em situação de fragilidade independente da sua vontade ou acção, são coisa de vergonha imensa. Ou deveriam ser. E mais do que males relativos, são males em si mesmos. Ou, uma vez mais, deveriam ser.

          E por cada caso de absurdo e mediático luxo em que vive um “bicho” (pergunto-me quanto disso será fabricação para abastecer a infindável sede de frivolidade de redes sociais e equiparados; a pretensa “tia” imbecil na esplanada nem conta nesta equação), inúmeros há mantidos em cativeiro de abjecta crueldade, ou definhando num mundo que já não é o da sua natureza (não, não me desfaço do gatinho, dos gatinhos, como sugerido num outro comentário, desde logo por não ter verdadeira “natureza” a que o confiar). E tantos mais vivem uma amizade indestrutível com os seus donos, partilhando a sua existência de penúria e, na melhor hipótese, de tão digna quanto possível mediocridade. Ou bem pior. Depois os donos morrem e eles, os bichos – como antes deles os seus velhos donos -, levam um belo pontapé dos que cá ficam e arrastam-se pela rua até ao seu fim.

          A civilização não se faz em blocos de quatro anos, bem se sabe. Há coisas, quanto a humanos e quanto a bichos, que são objectivos de bem mais do que uma legislatura. Bem mais, na verdade, do que uma geração. São investimento a longo prazo, não dão votos imediatos. Talvez até os reduzam. De modo que, muita fanfarronada que se proclame, substantivamente não interessam. Nem ao poder, nem aos cidadãos que o legitimam e bem mais interessados por exemplo em ter o mais recente smartphone ou o mais opulento carro entre o seu grupo de conhecidos. Ou em conhecer – abundantemente, ainda que só em fotografia – os exuberantes glúteos da namorada de certo futebolista.

          Coisas que são, como bem se sabe, o que importa.

          Costa

          1. Concordo com quase tudo quanto disse. Por mim já não acharia mal que tratar bem os velhos estivesse tão na moda com exibir os glúteos; seria um começo, ainda que por linhas tortas.

      2. Inversão de valores, inversão de prioridades.
        Uma espécie de eugenia: quanto mais velhos, menos vale a vida deles. É deixar morrer.
        Qualquer semelhança entre isto e os “valores republicanos” que por aí se apregoam é pura coincidência.

        1. Quanto mais velhos, maior – por mais prolongado – o fardo que representam para a segurança social. Isto, claro, não pode ser invocado oficialmente. Por razões várias, uma delas o facto de “os velhos” decerto representarem número não desprezível de votos (sempre hão-de servir para algo mais do que para continuarem contribuintes – o que sempre interessará e será prioritário – pelos impostos que pagam ao comprar os colchões, os chinelos, as poltronas, os aparelhos auditivos e a restante oportunística parafernália que de forma incessante enche as emissões televisivas ao longo de manhãs e tardes).

          Isto não pode ser invocado oficialmente. Mas será muito verdadeiro.

          Costa

          1. Muitas vezes são as poupanças dos velhos que permitem sustentar os novos. Compensando, desta forma, a incapacidade do Estado em propiciar condições de vida decente a quem chega à idade adulta. Em domínios tão diversos como o emprego ou a habitação.

          2. Sem dúvida. Incapacidade do estado contínua, reiterada e impune mau grado o seu colossal peso na sociedade.

            Costa

          1. É. De facto ainda não vi nos noticiários chusmas de indignados à porta dos lares para retirarem de lá os nossos velhos e adoptarem-nos, sei lá.

          2. A prioridade (e a incontida, incessante e sempre generosamente publicitada indignação dos bem pensantes) parece ser adoptar outros que não os velhos. Ou melhor, impor a adopção de outros. Outras pessoas, entenda, que ou aparecem nas nossas fronteiras ou manifestam essa vontade. E isso parece bastar.

            Juntem-se-lhes outras prioridades, tão ou mais indeclináveis no uso dos recursos públicos (materiais ou não): do adolescente que quer mudar de sexo, ao que reclama o superior estatuto – o de espécie de mártir, desde logo – conferido por uma qualquer das letras daquela sigla que não pára de crescer e, de facto, os velhos ficam bem lá atrás, cada vez mais lá atrás, na ordem progressista das coisas.

            Fala-se muito dos lares, agora, por causa da COVID (e, afinal, sejamos francos, do perigo e por causa do “perigo” que os velhos parecem representar); mas o horror dos lares, de tantos lares, existe há muito. E continuará a existir, depois desta doença.

            Não, não é demagogia populista de extrema-direita isto que escrevo. São factos. Só os não vê quem não quiser.

            Costa

    2. Não são comparáveis! Não é por cuidarem mais dos animais que as pessoas negligenciam os seniors, nada a ver…A postura humanista e civilidade que alcançámos (espero eu) é inclusiva e abrange aspetos da nossa vida familiar, afetiva, etc…

  10. A forma como um país trata os seus mais velhos, diz muito coisa sobre as pessoas que o habitam.
    Infelizmente este país não parece ser para “velhos”, e a forma como os estamos a tratar(mal) provavelmente num futuro próximo será aquilo que vamos receber.
    Dizer que o Estado não tem dinheiro?
    Parece-me uma falsa questão, pois gasta tanto dinheiro mal gasto, e brinca claramente com os lares, faltando ao respeito aos mais velhos, por vezes até com total incompetência com a escolha de gente muito mal formada e aqui não falo só de competências técnicas, para tomar conta e tratar deles.
    É triste !!!!!

  11. Assim até o saldo da segurança é positivo.
    Deve ser o sonho de qualquer ministro das finanças. Não pagar pensões nem tratamentos de doenças.
    Qualquer dia somo o país da Europa com menos velhos.

    1. Espanta-me o silêncio de tantas almas sensíveis perante este morticínio que tem ocorrido nos impropriamente chamados “lares”. Se em vez de velhos e pobres, os mortos pertencessem a outro grupo social e etário, não faltaria imensa gritaria por aí.

  12. Vou tentar fazer um comentário objectivo, o mais possível desprovido do imediatismo e da emoção.

    Começo por dizer que a nossa actual relação com a morte é artificial. Que a medicina nos tem conferido um aumento da esperança de vida, apesar de não nos ter garantido qualidade de vida nesse aumento da longevidade. Que julgamos poder evitar o nosso objectivo final, tal como as crianças choram antes da agulha da vacina as picar. Que ignoramos, tal como dizia Steve Jobs já próximo do fim, que a morte é a melhor invenção da vida porque permite a renovação. E isto é fundamental.

    Sem que a qualidade de vida acompanhe a esperança de vida, de que nos serve esse aumento da longevidade? O nosso propósito não deverá ser, em última análise, a diminuição do sofrimento humano? Não estaremos a fomentar negócios à custa do sofrimento alheio e às avessas desse objectivo?

    Coloco-me na posição do filósofo que não tem respostas, apenas questões. Questões muito a montante da triste realidade que, pelo menos a alguns, vai consumindo todos os dias. A realidade dos que se encontram prisioneiros em lares de idosos, dos que se encontram prisioneiros do pesado fardo da existência degradante do corpo que pretendem abandonar, dos familiares que sofrem todos os dias com o sofrimento dos seus perante a inelutabilidade dessa triste realidade.

    1. O que tem acontecido nos “lares” não pode ter paliativos nem desculpas nem álibis, ainda que com roupagem filosófica.
      É algo que nos deve envergonhar a todos. E que devia envergonhar os responsáveis políticos em primeiro lugar. Do poder central e do poder autárquico.

  13. A palavra Senicidio veio para ficar…

    http://sveanyheter.com/2020/08/04/dr-tallingers-letter-to-the-world-medical-association/#comments

    (….)

    Articles by foreign media in English have started to appear in the final 8 days of June 2020, reporting on details of illegal euthanasia being inflicted on the elderly in Sweden.I cite 4 links (numbered 5 to 8 in the reference list below), as examples.“Older people are routinely being given morphine and midazolam, which are respiratory-inhibiting. It’s active euthanasia, to say the least,” said Dr Yngve Gustafson to Svenska Dagbladet.“The ICU wards were comparatively empty. Elderly people were not taken to hospitals—they are given sedatives but not oxygen or basic care,” said Dr Cecilia Söderberg-Nauclér, of Karolinska University Hospital.

    Folkhälsomyndigheten has violated Sweden’s Infection Protection Act but until today, nobody has been held responsible nor appropriately censured for decisions such as severely restricting Covid-19 testing for months. If Sweden’s government and Folkhälsomyndigheten wants to justify their outlier approach, quantity and quality of reliable data is required.Instead, what we have are major blackholes for information.

    (…)

    lucklucky

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