Europeias (25)


Pedro Correia,

 

 

PODIA SER SÓCRATES A FALAR

 

Li com atenção a entrevista de Paulo Rangel à edição de ontem do novo diário i, muito bem conduzida por Ana Sá Lopes. Procurei nestas duas páginas de jornal propostas diferentes do PS em matéria europeia: não encontrei nada. O líder parlamentar do PSD e cabeça de lista social-democrata ao escrutínio de 7 de Junho assume-se como federalista, embora não goste muito de usar esta expressão. Defende que a União Europeia tenha "um órgão com poder eleito por sufrágio directo e universal" que tutele todos os estados-membros. Diz-se "aberto a um referendo europeu", mas não quer referendar o proto-Tratado de Lisboa com o insólito argumento de que a Constituição da República Portuguesa também não foi referendada. José Sócrates podia responder da mesma maneira a estas questões e a outros temas focados na entrevista, da moral sexual católica à necessidade de "abertura" da Igreja. A diferença mais notória entre ambos resume-se a isto: Rangel revela que durante anos andou a navegar entre o PSD e o CDS, partido em que terá chegado a militar – o condicional deve-se ao simples facto de não se lembrar se chegou a assinar a ficha de inscrição. Estes lapsos de memória são saborosíssimos. E dizem muito da nova estrela da ‘direita’ portuguesa, acolhida entusiasticamente em tantos blogues como se fosse o Sá Carneiro de 1974 ou o Cavaco Silva de 1985. Lamento, mas não é. Como esta entrevista demonstra de forma exemplar.

16 comentários em “Europeias (25)”

  1. Tem de haver diferenças entre os dois, pelo que seria normal que ele as destacasse. Não quis ou não soube e a dúvida que fica é razoável: haverá diferenças mesmo?
    Ser federalista e não gostar de dizê-lo abona pouco a favor: medo de assumir, para não afastar os eleitores que não o são.
    Mais “abertura” da Igreja? A Igreja católica deve ser a religião mais aberta do mundo! Não me parece que seja grande tema europeu.
    Falta de memória sobre o seu percurso político é mais um medo: não assume aquilo que pode afugentar algum intolerante.
    Não referendar os avanços da Europa e defender “um órgão com poder eleito por sufrágio directo e universal” é contraditório.
    Enfim: como bem dizes, compadre, a estrela está muito aquém. Também lamento. Não será falta de Maizena, mas ele não é o que se diz por aí.

  2. Um é o vendedor de ilusões! JGA
    O outro ainda agora chegou à ribalta da politica e já tem lapsos de memoria!
    Eis aqui um retrato pintado no mesmo blogue e no mesmo dia, talvez com pouquíssimas horas de diferença. Dos dois cabeças de listas ás europeias.
    Ou seja, nada de novo e de positivo, neste carrossel politico que dentro de 15 dias dará o tiro de partida.

    1. Ficam muito mal estes lapsos de memória a Paulo Rangel. Se esteve no CDS, como aliás é público e notório, há que assumi-lo e não aludir envergonhadamente ao assunto como se fosse pecado. Não há pachorra para tanta dissimulação. Será isto a «política da verdade»?

  3. “E dizem muito da nova estrela da ‘direita’ portuguesa, acolhida entusiasticamente em tantos blogues como se fosse o Sá Carneiro de 1974 ou o Cavaco Silva de 1985. “

    é acolhida entusiasticamente por ser uma pessoa inteligente, honesto e humilde! um conjunto de caracteristicas dificeis de encontrar na classe politica e classe jornalistica …, raridades, e as raridades positivas devem ser acarinhadas!!

  4. Em 2007 escrevi, no AlemBojador, que Paulo Rangel tinha todas as condições para ser um dos melhores deputados da nova geração e que poderia ter um futuro político promissor, se não se deslumbrasse. Disse, na altura, que era uma lufada de ar fresco que poderia dar outra perspectiva e dimensão ao PSD.
    Mantive a mesma opinião até ao momento em que, submisso, se sujeitou às reguadas públicas de MFL com um sorriso nos lábios e uma vénea de subserviência.
    A partir daí a sua postura mudou e quando foi nomeado pela líder como cabeça de lista às europeias, entrou na perigosa fase do deslumbramento.
    Ainda não é um caso perdido, mas para lá caminha.
    A classe política portuguesa em exercício é uma trituradora de gente que pretenda ser diferente.
    Quanto ao facto de PR não se lembrar se já foi do CDS, eu posso apresentar-lhe umas pessoas que lhe avivem a memória.

  5. Não consegui compreender a que propósito um jornal, que solicita uma entrevista para abordar as Europeias e outros temas fortes da política, atira para a primeira página com a homossexualidade na boca de Rangel.
    Teria havido casca de banana intencional ao serviço de terceiros?

  6. Caro Pedro Correia, permita-me uma apontamento irónico, comparar a dimensão humana, cultural e política de Sá Carneiro com a do homem de Boliqueime, por favor… Sá Carneiro foi de facto uma estrela…
    Quanto ao resto, estes lapsos de memória são de facto saborosos, e parece que é problema muito comum ali para aquelas bandas, uns não sabem se assinaram a ficha do partido, outros também não se lembram de nada no caso do BNP … , não é de papa maizena que eles precisam, é mais de doses maciças de cerebrum …

  7. Não acho que o ambiente em torno de Paulo Rangel seja exactamente o da aclamação do homem providencial. – É?
    Não me parece sequer que alguém o avalie na mesma medida de Sá Carneiro ou Cavaco Silva, que foram de facto ‘the right men on the right place’.
    – Parece-vos mesmo?
    A minha impressão é que apenas se lhe reconhecem atributos e qualidades inegáveis e imprescindíveis, que há muito pareciam ter-se desvanecido da lista de ingredientes pessoais dos líderes – ou candidatos a líderes – do PSD, perante os nossos olhos horrorizados.
    E é nessa medida que se sente, indesmentivelmente, um suspiro de alívio nacional, reconheço que sim. A falta de ar era muita.

    Agora:
    Pode desacreditar-se do sistema e considerar tudo ‘mais do mesmo’. Entendido (já estive mais longe).
    Pode até preferir-se outra pessoa concreta no lugar dele, ou seja, considerar-se que há alguém mais habilitado a preencher a sede vacante do candidato viável, à altura da situação. Acredito que sim.
    No meu caso, é simples: – ou essas possibilidades que vejo, e têm rosto e nome, não avançaram; ou as que já se chegaram à boca de cena não servem, não chegam, são poucochinho e não me representam.
    Pelos vistos, esse é o sentimento dominante, a avaliar pela aprovação tácita de tantos a Paulo Rangel. Nem que seja pela capacidade de fazer oposição e afastar o fantasma do fazedor de promessas.

    Uma coisa, porém, me parece sensata, se não estivermos numa muito clara de ‘malhar’ no sistema ou de defender a alternativa A ou B a Paulo Rangel, mas então é um alguém com nome, morada, profissão, BI e número de contribuinte.
    É sermos uma espécie de anti-João das Regras, ainda por cima sem pretendente concreto, ou postulante a defender.
    – Não seria melhor dar oportunidade a quem tem condições objectivas para reunir consensos e contrariar a apatia e o tal estado de horror nacional?
    Não, não é ser acrítico. Não é sequer ‘deixar-se ir’ (já se provou que os eleitores não são parvos, porque quando não querem, não deixam mesmo).
    É apenas ser-se judicioso, mas prudente
    É apenas, não baixar os braços e não desistir.
    E não matar a coisa à nascença.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *