Europeias (23)


Pedro Correia,

 

"SEJAMOS HONESTOS E DECENTES"

 

Esta noite, houve outro debate sobre as europeias, desta vez na TVI 24. Um debate reduzido a cinco: foi, de longe, o pior dos quatro já realizados. Os candidatos falavam uns por cima dos outros, ao jeito dos pregoeiros de feira – nenhum debate deste género consegue ser eficaz para diminuir a gigantesca abstenção que se prevê para 7 de Junho.

Será isso mesmo que se pretende? Às vezes parece-me que sim.

Fica o registo das frases que me pareceram mais relevantes e uma breve apreciação das prestações dos candidatos.

FRASES

Miguel Portas. "Nós podemos, com o voto, mudar alguma coisa. Com a abstenção não mudamos nada."

Ilda Figueiredo. "Os principais responsáveis desta construção capitalista da União Europeia são os grandes responsáveis pela abstenção."

"Não é por acaso que sou a deputada responsável por mais perguntas à Comissão Europeia."

Vital Moreira. "Não faz sentido nenhum submeter 600 páginas [do Tratado de Lisboa] a referendo."

"Sejamos honestos e decentes."

"As pessoas, quando votam [em referendos], votam contra."

"A posição do PCP e do BE relativamente ao referendo não é tolerável em termos de discussão democrática."

Miguel Portas. "[Vital Moreira] Revela uma cultura totalitária face à Europa."

Vital Moreira. "Eu não tolero ofensas verbais."

Paulo Rangel. "Compreendo que os portugueses se abstenham. Quando estamos aqui há dez minutos a falar do referendo…"

Nuno Melo. "Choca-me um bocadinho que o candidato Vital Moreira evoque as vantagens fiscais dos países que integraram recentemente a UE quando representa um partido que tem aumentado todos os impostos."

Ilda Figueiredo. "Porque é que não acabaram ainda com os paraísos fiscais?"

Paulo Rangel. "Ó Ilda, tenha paciência, não pode monopolizar o debate."

"É chocante a falta de execução dos fundos comunitários, por responsabilidade do Governo português."

Vital Moreira. "Vocês garantem que ficarão no Parlamento Europeu?"

Nuno Melo. "Eu não sou um candidato de faz-de-conta."

Paulo Rangel. "Vital Moreira tem candidatos faz-de-conta na sua lista."

Nuno Melo. "Se Elisa Ferreira quer ir para o Porto não tem que ir primeiro ao Parlamento Europeu ‘dar o nome."

Miguel Portas. "O grande problema do nosso país são as elites que gostam de fazer piscinas com ondas com os subsídios europeus."

"Esta crise está a ser paga por quem não tem culpa."

Vital Moreira. "Silvio Berlusconi fez uma proposta que atenta contra a cidadania europeia. Gostava de saber se vocês [PSD e CDS] não se sentem envergonhados. Isto é contra a dignidade humana."

Paulo Rangel. "O PSD não recebe lições do candidato Vital Moreira nem do PS. Votámos em Portugal a mesma lei da imigração."

Nuno Melo. "A Turquia não é Europa. (…) A curto prazo pode ser o país mais populoso da Europa."

Ilda Figueiredo. "A Turquia continua a ocupar um país que é estado-membro da UE, o Chipre."

CANDIDATOS

Ilda Figueiredo. Usa e abusa de frases feitas. Tem o péssimo hábito de não se calar quando outro candidato começa a falar. Utilizou o melhor dos argumentos para se opor à entrada da Turquia na UE (a ocupação ilegal de Chipre).

Miguel Portas. Sabe demarcar-se com eficácia da lógica argumentativa dos restantes candidatos. Neste debate foi o mais apagado, provavelmente por algum problema de ordem física (estava bastante rouco).

Nuno Melo. Voltou a aludir com habilidade às bicandidatas que integram simultaneamente a lista socialista ao Parlamento e já fazem campanha autárquica pelo PS. Baralhou-se ao falar da Turquia: é ou não um país europeu?

Paulo Rangel. A calma que evidencia contrasta com o nervosismo de Vital Moreira. Mas foi incapaz de se demarcar das propostas xenófobas de Silvio Berlusconi, parceiro do PSD no Partido Popular Europeu.

Vital Moreira. Parece estar sempre à beira da exasperação, em particular com os seus concorrentes de esquerda, o que contraria a política de alianças natural do PS. Saiu-lhe bem a crítica à nova política de imigração do Governo italiano.

12 comentários em “Europeias (23)”

  1. Não vi, Pedro. Já calculava que poderia ler aqui a tua excelente descrição do evento. Em contrapartida vi uma excelente entrevista do Zeinal Bava à Judite de Sousa.
    Devia ser “leitura” obrigatória para todos os empresários e políticos deste país.

      1. O Zeinal passou-me ao lado por ‘imposição’ das europeias. Mas confio nos vossos conselhos: não perderei a próxima (as televisões costumam fazer estas entrevistas por atacado).

  2. Eu diria que, dos muitos argumentos contra a integração da Turquia, a ocupação “ilegal” de Chipre é o menor de todos.

    Chipre é um problema entre nacionalistas turcos, que são umas bestas, e nacionalistas gregos, que são outras bestas. Não há qualquer razão válida para que a União Europeia apoie e dê cobertura às segundas bestas. A União Europeia deve lutar por um Chipre unido e multi-étnico. Não deve favorecer o Chipre que os nacionalistas gregos desejam.

    Um argumento válido contra a integração da Turquia é o caráter distitamente não-europeu de uma boa parte da população turca, com as suas tradições, por exemplo em matéria de tratamento das mulheres, distintamente não europeias (refiro-me em particular ao Curdistão). Istambul é uma cidade largamente europeia, mas boa parte do resto da Turquia não o é. Outro argumento válido é a pobreza da Turquia, que tem um PIB per capita que é metade do da UE. Onde é que vai haver fundos estruturais para apoiar a Turquia?

    1. Surpreende-me que a questão da possível adesão turca esteja a ser tão pouco debatida na pré-campanha, pelo menos em Portugal. Os argumentos que invoca no seu comentários merecem, sem dúvida, análise séria, nomeadamente a questão dos fundos estruturais: estaremos dispostos a financiar a adesão turca? Quanto a Chipre, discordo: é uma questão de princípio. A Turquia ocupou a parte norte da ilha à revelia do direito internacional e desrespeitou várias resoluçoes da ONU. Isto não pode merecer a mínima transigência dos países membros da UE no plano dos princípios.

  3. “Sejamos honestos e decentes” foi uma frase que lhe saiu bem. “Eu não tolero ofensas verbais” é que foi pior: parece que está a pedir mais ofensas corporais como no 1.º de Maio!

    1. “Sejamos honestos e decentes” é um bordão do professor Vital, há muito em uso no Causa Nossa. “Sejamos sérios” e “Um pouco mais de rigor” são outras frases dele que também o perseguem desde há muito. De facto, como bem dizes, o adjectivo ‘verbais’ está a mais: rima e é verdade.

  4. Vital Moreira um gatinho? E a Ilda uma gata? O Nuno Melo e o Miguel ainda vá, mas chamar ao Rangel um gato? Não arranjas uns bichinhos mais adequados para fazer este papel?

    1. Ainda pensei em cinco pinguins, Hot Legs. E outros animais que agora não menciono. Fiquei-me pelos gatinhos para não pôr leões, que seria manifestamente exagerado, ou águias, não fossem ficar tão depenadas como a do Benfica.

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