«Quando tinha 12 anos fui assediada por um vizinho. Um homem com idade para ser meu avô dirigiu-me palavras obscenas, propostas porcas. Sem que me tivesse apercebido, a mulher desse homem também ouviu o seu assédio e confrontou-me dias depois, acusou-me de lhe provocar o marido, dirigiu-me palavras que uma mulher não deve ter para com uma menina. Dele tive medo, mas ela fez-me sentir culpada, suja. Uma mulher com idade para ser minha avó preferiu atacar-me, a mim, uma menina que nem era ainda uma mulher, que enfrentar a realidade de estar casada com um pedófilo, um predador».
«Tinha treze anos quando comecei a ser assediada e nada me preparou para o choque. Na escola todos os rapazes apalpavam as maminhas e os rabos e os genitais de todas as raparigas e levantavam-lhes a saia. Os professores e auxiliares que viam isto – e isto acontecia mais ou menos em todos os intervalos – nunca fizeram nada. Hoje em dia surpreende-me a rapidez com que todos, raparigas e rapazes, aceitámos que este assédio era “normal”».
«Quando comecei a sair regularmente à noite, acho que nunca me senti tão insistentemente tocada, agarrada, ignorada quando dizia que não, que não queria conversar, que não queria dançar, que não queria um copo, etc. Era como se os homens, muitos homens, achassem que tinham o direito de dispor do meu tempo, do meu corpo, de mim. E na mesma medida em que achavam que tinham esse direito, achavam que eu não tinha o direito de lhes dizer não».
«Na verdade, foi com a chegada das minhas filhas à adolescência que percebi a violência das situações por que passei. Reagi sempre com desprezo ou distância, soube defender-me, pelo que nunca me vi como uma vítima. Mas fui assediada várias vezes em contexto laboral. E não quero que as minhas filhas, ou qualquer mulher, ou qualquer homem, continuem a encarar essa situação como uma fatalidade».
«O café está vazio. Sou o único cliente. Atrás do balcão, um empregado, jovem, aproxima-se da colega que arruma as chávenas sobre a máquina do café e passa as costas da mão devagar pelo braço nu da empregada. Ela sobressalta-se, olha-o com medo e foge para o outro extremo do balcão sem dizer uma palavra. Ele vai atrás dela, a rir, divertido, com uma mão agarra-a pelo pulso e força a outra mão através das mãos da rapariga para lhe acariciar de novo o braço. A empregada treme de confusão, de medo e de raiva e sacode as mãos, impotente, com lágrimas nos olhos mas sem querer gritar para não fazer escândalo. Levanto-me da mesa e aproximo-me do balcão. O empregado sorri-me cúmplice, entre homens, sem largar a rapariga, pensando que eu quero apreciar mais de perto o espectáculo e continua a deslizar a mão pelo braço da rapariga. Quando lhe digo para parar, hesita, considera a hipótese de me confrontar e acaba por largar a colega murmurando qualquer coisa do género “Era uma brincadeira… Não estava a fazer nada…”».
«Entrei num café com um amigo de família, bastante mais velho. Senti que tinha uma pedra no sapato a magoar-me. Parei. Apoiei-me na porta. Sacudi o pé algumas vezes. Comecei a ouvir os risos dos muitos homens que estavam lá dentro, frases de uns para outros, senti o calor a subir-me à cara antes sequer de perceber porquê. Até que ouvi, voz gritada, para garantir que chegava a mim e a todos: «Esta aqui quando crescer vai dar uma bela égua. Quero ver é quem a consegue montar.» Gargalhadas. Eu tinha oito anos».
«Tinha doze anos, vinha das aulas. Eram cerca das 18h 15m, mas era Inverno e já estava escuro. Abri a porta do prédio onde morava, uma porta de madeira, sem qualquer vidro. Portas destas eram mais ou menos comuns, nos anos 1970. Entrei e, quando já estava quase a fechar a porta, alguém a travou, do lado de fora. Pensei ser alguém a querer entrar no prédio por boas razões, deixei a porta aberta e dirigi-me às escadas. De repente, fui agarrada pelas costas. Totalmente confusa, dei conta de que estava a ser toda apalpada. Quis gritar e não consegui, assim como não consegui libertar-me. Senti um medo de morte, estava a entrar em pânico, quando fui largada. Senti a pessoa a afastar-se e olhei instintivamente para trás. Vi um rapaz com o sexo erecto fora das calças. Quando me viu a olhar para ele, apontou para o sexo. Subi as escadas a tremer (não havia elevador) e com o coração aos saltos, apesar de ele ter desaparecido. Não contei a ninguém, tive vergonha. E muito medo de que me culpassem – porque não fechaste a porta? Porque não gritaste? Porque não lhe deste um murro? etc., etc. Mas como pode uma miúda de doze anos estar preparada para um ataque destes?».
«Tinha 11 anos. Um velho vizinho do prédio “amigo” do meu pai, ouvia-me a entrar no elevador e como morava no andar de baixo, entrava lá dentro. Apalpava-me, um dia voltei-me e apertou-me o pescoço e ameaçou fazer mal aos meus pais».
Estes são relatos partilhados num grupo do Facebook. Um dos relatos é meu. As mulheres sentem-se encorajadas ao constatar que outras o fazem, surgem cada vez mais a dizerem «eu também». Há igualmente relatos de homens que assistiram a cenas de assédio e se revoltaram (como mostra o exemplo) e são muito bem-vindos. Os ataques, assédios e abusos acontecem em qualquer idade, mas escolhi propositadamente meninas, na sua maioria, para que todos se dêem conta, quão cedo nos mostram que são livres de nos intimidarem e usarem o nosso corpo. E com que impunidade o fazem.
Todas as mulheres já foram molestadas e assediadas, independentemente da maneira como se vestem, ou como se maquilham (ou não maquilham). Muitos homens até preferem as discretas e tímidas por serem mais susceptíveis de não reagir. As que dizem que não se importam, por ser “normal”, apenas recalcam o mal-estar e contribuem para a impunidade dos agressores. A maior falácia, na educação das meninas, é dizerem-lhes que nada de mal lhes acontece, se não usarem roupas provocantes e não derem nas vistas. Não digam isso às vossas filhas e netas! É mentira!
Muitas vezes me dizem estar a cumprir «agenda de esquerda», com textos deste tipo. Mas esta não é uma luta de esquerda, é uma luta de todos os lados. Pela mudança de mentalidades.

Não se trata de direitos das mulheres, não são coisas do “mulherio”.
Trata-se de Direitos Humanos!

Também tenho visto esses relatos e, apesar de conhecer algns casos pessoalmente (e para minha vergonha ter sido cúmplice pelo meu silêncio destes abusos), têm-me chocado.
E esqueci-me acima: obrigado Cristina.
De nada, João André.
Pois, o problema é que coisas destas são banalizadas (também por mulheres) e penso, por isso, que falar delas ajuda a tomarmos consciência de que devia mesmo haver uma mudança de mentalidades.
Assunto quanto a mim sério tratado com leviandade para criar uma agenda de poder. O método tuga está com azar. Também fui “assediado” por muitas raparigas da minha idade com encostos e beijos roubados. Coisas de miúdos. Não confundir com assédio e pedófilia mas aí o discurso para. O metoo tuga está a atingir quem não queria atingir. Tenham coragem senão é mais uma encenação feminista.
Não percebi o seu apelo à coragem.
Coragem de quê ou para quê?
Infelizmente o inverso também acontece, um dia uma colega de trabalho (na altura eu tinha 40 e poucos anos e ela cerca de mais 10) empurrou-me literalmente para dentro da casa de banho e colocou a mão dela no meio das minhas pernas. Afastei-a bruscamente e o comentário que ouvi foi “o teu problema é eu ser velha, se fosse uma das colegas mais novas alinhavas”. Não foi situação única de assédio e nunca tendo contado a história ao meu superior hierárquico acabei por pedir transferência invocando razões pessoais.
Perceba que assine com iniciais
P.M.
É bem mais raro, mas acontece, sim.
Obrigado pelo seu comentário e acredite que passei muitas vezes pelo mesmo desde a minha adolescência (e já passei dos 50)
P.M.
O inverso acontece, mas não acontece de forma sistemática. É este o problema: acontece-nos de forma continuada e desde tenra idade. Imagine-se a ter de afastar bruscamente investidas como a que relata desde os 10 anos de idade. E agora imagine que vê os seus filhos a passar pelo mesmíssimo inferno. Horrível, não é?
Cristina como eu a compreendo, também eu fui assediado com apenas 15 anos por uma professora de matemática, apalpava-me os ditos enquanto me chamava burro.
António Laureano
Sou-lhe extremamente grata por esta publicação, estes relatos, porque isto é o nosso quotidiano, desde meninas, em jovens e depois mulheres. Mesmo já casadas e até avós, isto acontece. Não é a primeira idosa que é violada brutalmente, às vezes agredidas e até mortas, como outras mulheres o são, por estes “engraçados que nunca fazem por mal” e que com maior cara lavada, negam e humilham quem tem a coragem de dizer não, ou de denunciar. A tristeza é que ainda hoje a mulher continua a ser julgada e a ela atribuída “a culpa” de incentivar.
Bem-haja, de coração, Cristina. Sinceramente! Nem sei expressar o quanto lhe agradeço. Uma boa semana!
Uma boa semana também para si.
E um abraço
Muito bom. Sei o que isso é. Senti na pele muitas vezes quando regressava do liceu. Dei a entender ( certas coisas não se falavam abertamente) centos de vezes. Acredito que quem ouvia as minhas inferências tivesse medo. Eu tive muito.
Mas afinal eram outros tempos e outras mentalidades.
Obrigada Cristina.
Senti na pele muitas vezes quando regressava do liceu.
A Dulce regressava do liceu há 50 anos.
Desde há 50 anos o mundo evoluiu muito.
E então ?
A evolução erradicou o assédio, ou pelo contrário, deu mas campo de caça aos predadores sexuais ?
A evolução erradicou o assédio
Certamente que não, em particular em ambiente laboral.
Porém, estou certo de que uma mulher atualmente anda na rua com muito menos receio de ser assediada do que há 50 anos.
Há 50 anos continuamente uma mulher ouvia na rua assobios e piropos. Atualmente isso é muito raro.
Evoluiu, sim. Estranhamente, nesta questão a única evolução aconteceu na cabeça das mulheres. Eu não regressava do liceu há 50 anos. As minhas filhas não regressavam do liceu há 50 anos.
Eu também regressava do Liceu há 50 anos e mais ainda da primária. Lembro-me de os rapazes da secção masculina passarem para o recreio da feminina e espreitarem pelas janelas da casa de banho quando lá estavam
Também me lembro, mais tarde, da mania de puxarem os elásticos dos soutiens.
Perante tudo isso o que sucedeu comigo (que era uma miudinha muito pequena e franzina) foi dar um murro no nariz de um que até espirrou sangue e desafiar qualquer outro a atrever-se comigo.
À saída da primária, tinha os apaixonados à porrada a baterem-se entre eles por mim.
Nunca em toda a vida algum homem me faltou ao respeito, ainda que, segundo dizem, fosse particularmente desejável. O mesmo se passou com a minha mãe que nasceu em 1917 e a minha tia em 1919. Estudaram elas em colégio misto, com mais sorte que eu que só conheci misto na faculdade.
Mas sempre brinquei na rua com a rapaziada e na minha casa entrava tudo, sem qualquer problema porque tive uma educação particularmente liberal. Fiz exame da 4ª classe em calções e sempre usei malhõ na ginástica. Se não me deixassem recusava representar a escola e aceitavam tudo porque ganhava as medalhas das provas.
Tive a sorte, até ao presente, de ter sempre trabalhado com homens.
Safei-me das tricas que é coisa que toda a mulher sabe que é o lado mais cretino da generalidade das mulheres entre elas. Nisso os tempos não alteraram nada. Detalhe que me faz pensar acerca das “engenharias sociais” porque as características genéticas não se alteram por doutrina
De miúdos da minha idade, nada a dizer. De homens feitos e barbados, aí tudo muda de figura.
Homens feitos cortejavam-me. Tinha colegas que me invejavam por não terem sequer amigo ou namorado e fazerem as contas aos 300 amigos rapazes e homens- sim- já homens- que tinha por camaradagem.
A maioria das minhas amigas sacou alguns deles para namorados e até maridos, ainda que nenhuma delas tenha ficado feito lá grande coisa com isso. Umas ficaram de relações cortadas, outras divorciaram-se.
Comigo todos voltavam, se eu quisesse, “bastava assobiar”, como no filme ehehe
300?
Ena, ena!
Pois, o meu problema deve ser não saber assobiar…

Elas é que faziam as contas. Eu sempre fui muito independente mas com grande gosto por patuscadas, brincadeiras e convívios.
E fui criada entre homens. Não tive irmãs. Só muito mais tarde meias-irmãs mais novas que o meu filho.
Sei como funcionam os homens e nada tenho contra eles. Bem pelo contrário- a falta de diversidade torna-os efeminados a eles e masculinizadas a elas.
São os homens que nos restituem a nossa feminilidade
A generalidade dessa praga em remake dos anos 60 que está na moda- as ditas feministas, são pessoas azedas que não gostam de homens ou nunca tiveram sorte nos amores ou são lésbicas.
Da queima de soutiens agora passaram a mais uma bandeiras gramscinana da luta de classes por falta de proletariado para a causa.
E em têm cãezinhos pela trela em vez de filhos pela mão.
Até pode tornar a dizer «não insinuei nada a si». Mas insinua. Segundo a zazie, sou uma pessoa azeda que não gosta de homens ou nunca teve sorte nos amores ou sou lésbica. Outra assim e apago-lhe o comentário. Não se estique!
comigo foi parecido , Zazie. talvez ter dois irmãos com pouca diferença de idades tenha feito a diferença. e no colégio misto em que andei , se um rapaz nos fizesse alguma coisa ( duvido que fizessem , não havia selvagens) estaria tramado com os irmãos maristas.
Ah, Mas agora lembrei-me de umas coisas que acontecerem com vizinhas minhas e vou contar e dar o nome “aos bois”. Neste caso “o boi”.
Eu andava de jeans, usei as primeiras em Portugal, enviadas por um americano que me fotografou (esse, sim, seria a dar para qualquer coisa que o meu pai percebeu e não deixou que eu ficasse sozinha com ele- teria uns 8 anos). Saiu a minha foto em revista e ele enviou as jeans da América.
Pois bem. Com essas jeans ia passear a cadela e tinha a mania que era “a Zé dos Cinco”. Nesses passeios, duas vizinhas e uma prima de uma delas, também aproveitavam e iam e não se ficavam pela relva.
Iam a casa de um sujeito que gostava de receber meninas pré-púberes. Eu lembro-me que me aproximei da porta e disse ao sujeito que só entrava com a minha cadela que estava treinada e era feroz (mentira mas dizia sempre isso). O tipo nunca me quis lá dentro.
As tais vizinhas entravam e eu aproveitava para brincar na relva e nos baloiços ali perto. Nunca soube o que faziam tanto tempo sozinhas com o tipo que vivia também sózinho e gostava de “receber meninas na puberdade”.
Chamava-se João Maria Tudela.
Lembro-me da casa e ainda lá está e ainda estão vivas as tais meninas que faziam esses “passeios” sem os pais saberem
Não sei se também se vão juntar ao Metoo ou se deram em feministas. É bem provável. Na altura nunca contaram nada, nem a mim, do que se passava com o artista João Maria Tudela
Como o facto de usar nick em nada invalida a minha ética em assumir responsabilidades pelo que escrevo, lembrei-me de ir lá ao Google confirmar detalhes da vida do falecido João Maria Tudella (contra o qual nada tenho, pois ele teve medo da minha cadela e nunca entrei em sua casa).
Confirmei que deve mesmo ter sido “pederasta” pelo menos platónico até aos 60 anos. Foi só aos 60 anos que se casou com uma rapariga de 33 da qual ainda veio a ter filhos.
Não faço qualquer acusação porque tenho verdadeiro pó a esse nojo prot de “fazer culpados”- a Inquisição revanchista por lobby é uma tristeza de má-fé que nada tem a ver com a tradição católica. Isto do MeToo é mais uma porcaria importada da América- és livre para poderes ser culpado, é o lema daqueles “cristões” de seitas infinitas.
Mas elas, as tais meninas, eram mesmo umas “oferecidas” que era outro termo de origem popular que se usava a quem era sonso e hipócrita e nem se sabia fazer respeitar. A Dulce adulterou a expressão que eu escrevi e disse apenas “deve-se dar”. Não é “deve-se dar”. É “deve saber dar-se ao respeito”.
Entre elas, a vizinha que morava na cave, a filha do polícia, acabou por se tornar militante do PCP. Está viva, pode aparecer aqui a ler o que escrevi e eu deixo é o desafio para quando se lembrar de fazer também do “feminismo” uma causa comunista do seu partido, que se lembre de contar a história toda que se passava em casa do artista de sangue azul- João Maria Tudella. Com dos “ls” porque era gente fina.
Ainda não apareceu a minha resposta e outros comentários que deixei com nome ao “boi”.
Mas aproveito para resumir:
O meu nick não foi escolhido por mim em 2000 para o site do David lynch. Já tinha sido posto muito antes por um homem/rapaz que tinha lido o Raymond Queneau e me achava parecida com a personagem: a Zazie (dans le metro).
Querida Zazie!
Não me importava nada de ter sido o 301
Daniel Santos
ahaahaha
Essa lembrou-me a piada daquele na estrada a olhar para o precipício e a deitar as mãos à cabeça: “olha o 85, como ficou! ai coitado do 85!, todo partido”. E pára mais um carro, chega-se lá ao pé do que debitava estes números, aproxima-se da ravina para onde ele olhava e, a seguir, o dos nºs continua a lenga-lenga: “ai o 86! como ele ficou” coitado do 86, todo partido”
É por isso que as mulheres não conseguem assobiar 🙂
Deus não é parvo.
A Laureen Bacall sabia e até ensinou como se fazia
ehehe
V.s não são cinéfilos como é o Pedro Correia que tinha logo acertado na minha brincadeira
Dulce, ainda não consegui perceber se hoje, com os jovens, é diferente, ou se as pessoas reagem de maneira diferente, perante relatos destes. Infelizmente, parece-me que não.
Nos casos partilhados no grupo em questão, há um em que a miúda deu a entender ao pai certas coisas que se passavam e ele reagiu do género: “não andes sempre a choramingar”; ou “aprende a defender-te”. Os adultos têm de facto medo e vergonha e, com isso, deixam as crianças e as jovens sozinhas com problemas deste tipo. Resultado: elas aprendem a ignorar também e culpam-se a si próprias. Bem, é verdade que também ninguém ensina os adultos a lidar com questões destas. Mais esclarecimento precisava-se! Pergunto-me porque não o há.
Eu contei em conforme pude e a resposta foi “Não venhas por aí, vem pela calçada” em jeito de final de assunto. Sempre. E é verdade que nós miúdas começamos a pensar que a culpa é nossa, porque os adultos desvalorizam. A minha tia, por exemplo retorquiu um simples ” não deixes!” como se eu pudesse escolher. Acabei por não falar mais nisso em casa.
Medo sim. Vergonha, também.
Sim, é assustador transferirem sempre a responsabilidade para a vítima.
Nunca cheguei a contar nada, Dulce, tinha tanta vergonha… No fim, o resultado é o mesmo
Sim, são coisas de direitos humanos. Coisas (direitos e deveres) de Homens e não de homens e de mulheres (ou pela ordem inversa, como se queira). Ou da Humanidade, seja, nestes tempos em que as palavras foram apropriadas por quem delas fez implacáveis ratoeiras e o sexo voltou a ser tabú (novas formas toma o puritanismo…), substituído por “géneros” que se multiplicam, fundem, adquirem força de lei e glorificam uma bizarria verdadeiramente decadente. E que por serem “géneros” a tudo têm direito e tudo legitimam. Mas adiante.
Facebook não tenho. Dele ouço e leio relatos próprios de latrina, de forma que resisto (e assusta-me a verdadeira dependência que parece gerar). Não será fatalmente assim, mas parece ser local onde viceja a ordinarice, campeia a estupidez mais arrogante, floresce a demagogia mais descarada. E naturalmente se vertem os mais legítimos testemunhos de desespero e injustiça. Nunca direi nunca, neste aspecto. Pessoas, por exemplo, que aqui leio com gosto e meu verdadeiro proveito, estão por lá. Como estão, sei-o, familiares e amigos cuja integridade, educação e ponderação coloco acima de qualquer dúvida. E esta atitude de irredutível gaulês – ou de empedernido reaccionário – quanto às redes sociais não é fácil de manter, sabendo que pelo facebook encontraria informação abundante sobre questões de meu interesse.
Pela extrema gravidade que encerram, pelo violentíssimo atentado à dignidade que representam – e sei disso como marido e pai, embora felizmente sob formas longe, muito longe, das piores – talvez se recomende quanto a essas “coisas”, que não são “do mulherio”, não apenas a severa censura que não podem deixar de suscitar, mas também o bom senso de uma sua abordagem tão serena quanto possível. Ou tão mais serena (o que de forma alguma significa desvalorizadora ou permissiva; ou afasta o sentimento de firme e audível indignação) quanto mais graves forem.
Pergunto-me se uma colectânea de breves citações, como creio será o caso, servirá verdadeiramente uma causa. Converterá os convertidos, digamos, sem dúvida. Mas irá muito mais longe?
“Na escola todos os rapazes apalpavam as maminhas e os rabos e os genitais de todas as raparigas e levantavam-lhes a saia.” Em que tempo e lugar foi isto? Todos os rapazes? Eu fui rapaz, andei na escola, eduquei um rapaz (e uma rapariga) que andaram na escola. E não fiz isto. Sabia que não o deveria fazer e sabia porquê. Conheço a infeliz etimologia de “rapaz” (mas não tenho culpa dela). E não gosto de ser aprioristicamente englobado numa legião de malfeitores, de bestas sem escrúpulos e educação, apenas pelo facto de ter sido rapaz. E agora homem.
Um desabafo é apenas isso; e é tantas vezes absolutamente legítimo. Uma denúncia já carece, deverá carecer, de fundamento. Um pouco mais de cuidado talvez do que o mero “copy paste”. E convém não diabolizar metade da humanidade por uma questão de cromossomas. Isso de facto, permita-me, deve ser coisa de facebook.
Que fundamento pretende? Julga que estas mulheres estão todas a mentir? Onde vê diabolizada metade (menos de metade, aliás) da humanidade? Isto não é uma coisa de facebook. É real e acontece na rua, todos os dias, nos locais de emprego, todos os dias, nas escolas, todos os dias. Para que serve esta “colectânea de breves citações”? Serve para alertar quem estiver disposto a ser alertado sobre uma verdadeira praga chamada assédio, praga essa que aturo desde muito nova e que vejo agora as minhas jovens filhas a ter de aturar. Por último, estes assédios partem de homens heterossexuais e não daqueles que o comentador classifica como “bizarrias” e que, erradamente, diz que “a tudo têm direito e tudo legitimam”. Não, meu caro. Quem julga que tudo pode são homens heterossexuais. E quem isto legitima são outros homens ou mulheres que vêem bizarrias onde elas não existem e não conseguem ver a bizarria que é mulheres e meninas serem assediadas de forma continua ao longo das suas vidas. Não há aqui um discurso contra os homens, contra todos os homens. Há aqui um alerta e que é para ser levado a sério.
Bom, numa coisa estamos de acordo: o assédio é coisa para levar a sério. E tomará – o assédio e outras formas de violência sobre as mulheres – com frequência proporções absolutamente assustadoras. Absolutamente intoleráveis. São-no, por definição. Assim acontece sobremaneira em países, em comunidades, que devem estar lá muito, muito longe, ou que não integrarão os países que é de bom tom sempre culpar de todos os males do mundo, de tal forma o que lá se passa, nesta matéria, é merecedor de tão pouca atenção e revolta por parte da generalidade das cabeças bem pensantes. O que lá se passa e o que cá se passe entre cidadãos desses países ou comunidades. Aliás nada do que escrevi acima, conceder-me-á, permite afirmar que eu negue o assédio e a sua gravidade.
A senhora anónima entende interpretar literalmente a minha referência a metade da humanidade. Se necessita de um tal argumento de aritmética elementar, para infirmar o que eu pretendi significar, para contestar o que escrevi sobre parte fatalmente significativa (admito que a senhora o lamente) da espécie humana, pobre é esse seu argumentário. Mas é o seu e é consigo.
Quanto ao resto, eu sei que isto de se ser de sexo masculino e heterossexual vai sendo fundamento das piores suspeitas apriorísticas. Não espantará mesmo que mais cedo do que tarde, admito, o Direito inverta o princípio da presunção de inocência – e não como uma eventual convicção íntima do julgador, mas como norma positivada -, sempre que em causa esteja um homem hererossexual (é que aí a sociedade, ou as vanguardas que se reclamam da sua liderança – da boa liderança, entenda-se -, já largamente o faz). E, bem entendido, se além disso for cristão e não professar os valores ideológicos correntemente tidos como “progressistas”, ou o fizer com insuficiente entusiasmo, então estará perante fortíssimas circunstâncias agravantes. Mais ainda se não souber recitar de memória e em tons pelo menos laudatórios a crescente lista de iniciais de “géneros”.
Que, em todo o caso, façam favor de o ser. Géneros. Tantos quantos queiram. Sejam é um pouco menos exibicionistas. E não queiram ser mais ou melhores que os outros. Os outros dois que cá andam desde sempre. E são apenas “sexos”.
Raramente comungo das opiniões da Cristina Torrão, mas há assuntos que me custa perceber que não haja consenso entre as mulheres e este é um deles. Por isso, cumprimento-a pelo postal e espero que não apareçam por aí comentários misóginos como surgem de quando a quando nestas caixas de comentários.
Por preguiça de resumir, e pedindo desculpa desde já pelo vocabulário – mas considero que às vezes não chega o bom senso e as boas palavras para combater o sórdido -, deixo alguma coisa do que penso sobre o assunto: https://comezinhas.blogs.sapo.pt/ch amar-os-bois-pelos-nomes-572620
Obrigada, Isabel.
E parabéns pelo seu texto, gostei muito. Até porque eu acabei por evidenciar os casos ocorridos com crianças ou jovens na puberdade e a Isabel focou-se nos adultos, em situações que acontecem todos os dias, com a conivência da sociedade.
«Apesar de ser um fenómeno comum aos dois géneros – sim, as mulheres assediam -, poucas mulheres se poderão gabar de nunca ter sido assediadas. Essa é a grande diferença».
” espero que não apareçam por aí comentários misóginos”
Espera mas admite que haja pessoas com opiniões misóginas, ou não?
“como surgem de quando a quando nestas caixas de comentários.” Não havendo censura todas as opiniões são de esperar. Havendo censura, elas existem na mesma só que não aparecem escritas.
Estou com um dó dos misóginos ostracizados, que não lhe digo nem lhe conto.
“propostas porcas.” Há uma coisa que sempre me espantou: a associação entre sexo e coisas porcas. Sempre me pareceu que devia ser o contrário.
Obviamente condeno a violência, não estou a falar de sexo acompanhado de violência.
Não consigo pôr as palavras sexo e porcaria juntas. Não jogam uma com a outra.
Eu diria “propostas para coisas que eu não desejava”. Se me convidarem para comer comidas que detesto (exemplo, doce de ovos) recuso mas não escrevo comidas porcas. Mas isto é a minha maneira de ver. Verifico que um enorme número de pessoas (onde não me incluo) junta sexo a porcaria bem como prazeres sexuais a prazeres malditos. De onde deriva esta ideia?
Tem a ver com a cultura judaico-cristã.
E também depende muito da maneira como se fazem certas propostas, não respeitando a dignidade de quem as ouve. Isso faz-nos sentir sujos.
Cristina, não confunda a cultura cristã com a cultura judaica.
Na cultura cristã o sexo (e tudo o que dá prazer em geral) está associado a pecado e erro. Na cultura judaica, não. O judaismo tem muitos interditos relacionados com mulheres e com adultério, mas não com sexo em geral. No judaismo, tal como no islamismo, a atividade e o prazer sexuais não são encarados como pecaminosos (desde que sejam feitos com a mulher legítima e fora do seu período interdito).
Não percebo porque é que tantos europeus adoptam acriticamente esse lema americano da cultura “judaico-cristã”. A cultura europeia é muito cristã mas pouquíssimo judaica.
“Serão mãe e filha? O que eu não dava para ter esses dois belos rabos juntos na minha cama!” – aqui tem um exemplo de proposta porca.
Se um homem, com idade de ser avô de uma menina de 12 anos, lhe faz propostas sexuais, naturalmente que não deve juntar a palavra sexo à palavra prazer.
O sexo deverá ser prazeroso, sim, mas não em todos os contextos.
Uma violação também é sexo, acha que é prazeroso?
Estudei em diferentes escolas e diferentes localidades. Nunca fui de pertencer a um grupo mas sempre me movimentei sem dificuldades em diferentes grupos. Claro que em ambiente e cultura de turmas e actividades separadas por sexo, as conversas entre rapazes, se tornadas públicas, poderiam justamente ser condenadas. Mas uma vez que fizémos um enorme disparate e, numa festa, escondemos um gravador na casa de banho das raparigas, o resultado foi devastador. Elas eram mais cruas e venenosas nas apreciações e comentários e o pior, de que ninguém se lembrou antes (idades à volta dos 13) é que eram as nossa amigas e irmãs. Alguns de nós dificilmente recuperaram do mal estar nas semanas e mesmo meses seguintes e a proximidade de algumas amizades nunca mais foi a mesma.
Mas nunca tive conhecimento directo de assédios como os narrados no postal; e estou certo que se algum elemento dos grupos que conheci tivesse participado numa coisa dessas, seria certamente primeiro sovado e depois ostracizado.
Possivelmente, vivi a juventude num meio privilegiado.
Quase todas as mulheres, no grupo em questão, relatam episódios escolares desse tipo. E começam bem cedo! O que mais choca é o à-vontade com que os rapazes apalpam as raparigas. Enfim, também sei que são encorajados para fazerem isso. Uma tristeza.
Sou de Lisboa tenho 50 anos e andei sempre na escola pública e nunca assiste nem ouvi queixas deste género, mesmo sabendo que há sempre um ou outro mais atrevido.
Não ponho em causa a veracidade do que partilha connosco, mas cuidado com as generalizações. Nem todos os rapazes são ou foram assim.Penso mesmo para não dizer tenho a certeza que hoje os papeis estão mais invertidos: existe hoje muito mais assédio por parte das mulheres ao homens.
Carlos Costa
Também há assédio por parte das mulheres, mas nem pensar em ser mais do que o contrário. De resto, isso não seria desculpa para menorizar a questão. Assédio é uma intromissão na intimidade de alguém sem a concordância por parte da pessoa assediada.
Já agora que me avivou a memória, lembro-me da minha mãe não querer que eu fosse para os escuteiros. Foi o maior desgosto da minha vida e o meu filho foi logo para os escuteiros, precisamente por não me terem deixado ir.
Durante anos nunca percebi essa recusa, uma vez que até garotada e colegas do meu irmão chegavam a dormir lá em casa e uns até foram connosco para casa de férias.
Um dia ela contou, de forma um tanto sibilina, a dar a entender para eu ter cuidado com certos convites.
Contou que uma senhora amiga e professora que teve era lésbica e a tentou assediar fisicamente.
É o único relato de assédio que em toda a minha família, de avós de ambas as partes e tias, incluindo a que em plena guerra foi sozinha para Inglaterra para o corpo diplomático, sei que terá acontecido.
Uma das minhas tias com quem passava férias nunca se casou, tinha a corte de pretendentes à espera quando íamos para as termas e o mais que a “corte fazia” era oferecer brinquedos aos sobrinhos ou largar uns papelinhos com frases de amor, quando ela apanhava sol na esplanada.
Bem podiam esperar. Ela adorava flirtar e sempre se fez cara para ter a corte e não ter chatices. Namorou a vida inteira até bem mais velha mas “sem compromissos”. E sem apalpões ou piropos que não fossem do maior respeito porque isto do respeito é a dois. Quem não se sabe dar, não pode esperar tê-lo.
Que família especial teve, zazie! Que sorte! Acredite que é de uma excepção incrível.
E obrigada por insinuar que eu «não me sei dar», já que um dos relatos do post é meu. Fez-me sentir melhor, agora sei a razão: «não me soube dar»!

Não insinuei nada a si. Fiz uma frase declarativa que também me ensinaram desde pequena- é preciso saber-se dar ao respeito.
A Agustina Bessa Luís dizia o mesmo e sempre gostei de ouvir a sua iconoclastia acerca desta questão.
Tem razão numa coisa- a minha educação saí fora do padrão da generalidade das famílias. Isto porque os meus pais serem muito liberais, apesar de conservadores.
Pode parecer uma contradição mas não é. A minha família sempre foi aquilo a que se pode chamar uma família conservadora. Mas liberal na forma de educar. E isso já aconteceu com a minha mãe e irmãs, com a mãe do meu pai, idem. Todas as mulheres da família tiveram uma vida muito livre e respeitada. E os homens não eram frouxos.
Homens frouxos, educados como se tudo fosse igual, preferem bater em mais fracos. E as mulheres, por uma questão genética, são fisicamente mais frágeis (eu era destemida, o que é outra coisa que também impõe respeito “tribal”). E não era nem nunca foi uma mariazinha pinga-amor”. Agora como é tudo em igualdade e o feminismo espatifou a última grande instituição que protegia e dava status à mulher- o casamento- eles até se dizem feministas para amocharem elas com o trabalho e eles laurearem a pevide. Até os nepalenses de Odemira já nem responsabilidades familiares querem- querem “viajar e curtir pelo mundo”.
É ao contrário, zazie: homens machistas é que preferem bater nos mais fracos. Crianças e mulheres, então, vai tudo a eito. Os homens machistas são os mais cobardes.
Experimente dizer isso, tirando o chavão machista.
Vai ver que se traduz por um fraco prepotente.
Virilidade é protectora e apenas desafia os mais fortes.
V. não pertenceu à “seita das zundapps gamadas”. Não sabe nada do que é a “seita da anti-seita das zundapps gamadas” no Campo Grande
ahahahaha
Eu vivi tudo isso de ética de série Z desde pequena. E ainda a mantenho na vida. Não se bate em mais fracos nem se pontapeia um cão morto e muito menos se atira às canelas em matilha.
Tenho pó a matilhas .Principalmente quando se vestem de cordeiros e vêm com o dedo esticado inquisitorial do moralismo-
a “p-u – #a da “superioridade moral de esquerda” que agora na brand da moda, tem de ser às avessas ou defeituosa para ter bónus de culpabilização de culpa de quem não tem culpa nenhuma disso e acha que a vida é para todos.
A Zazie é uma mulher de sonho!
Aquilo que vocês tiveram de gravar às escondidas para conseguir ouvir, ouvimos nós praticamente todos os dias no meio da rua ou em qualquer outro lugar. Se demoraram várias semanas a recuperar desse mal-estar, imaginem o mal-estar que as mulheres carregam constantemente.
Releia o que escrevi.
O que ouve no meio da rua e em qualquer outro lugar não é dito por amigos e irmãos.
O postal e o seu comentário, entre outros, leva-me à triste conclusão que, além da corrupção, também se democratizou a má educação e a falta de respeito. Assim sendo, só me resta a opção de ser “fascista” e nada ter a ver com isto tudo.
Gravar as escondidas é que é manifesta falta de educação e de respeito.
Falsos moralistas são sempre os piores sonsinhos, fazem tudo as escondidas.
Manifesta educação e respeito é opinar e acusar identificando-se às escondidas,… sim. porque verdadeiros moralistas são os moralistas anónimos. Só é pena que tenham vergonha no nome e não na cara.
Estes relatos referem-se todos a episódios passados há dezenas de anos.
A sociedade evoluiu muito desde então.
Episódios destes já serão muito menos frequentes e menos grosseiros.
Serão?
Sim Cristina. Na rua, hoje em dia uma mulher usualmente é respeitada. Não tem que ouvir continuamente assobios e piropos como, lembro-me perfeitamente, era usual quando eu era novo.
Quando eu tinha 20 anos fui à Suíça, onde vi uma mulher jovem a fazer jogging no meio do campo à noite. Até fiquei parvo, em Portugal tal coisa seria impossível, algum homem lhe teria saltado em cima.
Acredito que as mulheres ainda sofram (muito) assédio no meio laboral. Mas fora desse meio, isto é, na rua, as mulheres hoje em dia gozam de uma segurança que era impensável no Portugal de há 30, 40 anos.
Não. As minhas duas filhas, de 18 e 19 anos de idade, continuam a ser assediadas, tal como as suas amigas e tal como eu continuo a não conseguir andar sossegada na rua.
trabalho com adolescentes e pré adolescentes, continua sim, nem sei se pior, por conta das con(sequências) de pornografias, mtvs e afins, tudo o que calibrou a mulher, e a jovem, bem lá por baixo… ao nível de objecto
Isso acredito.
Não imagino o que possa sair de uma geração que se inicia em porno pela iphone.
Tinha uma vizinha do prédio em frente que ia para a janela a noite dançar nua e cantarolava o meu nome. Será isto assédio ?
Cantarolava o seu nome?
Se o atingiu na sua dignidade, foi assédio, sim. Significa que sabe como uma pessoa assediada se sente e aconselho-o (ou a?) a solidarizar-se connosco.
A cena do prédio aconteceu comigo, só que felizmente não passou da porta. E é verdade,ficamos mudas.Mais tarde, já adulta,uma tentativa numa entrevista de emprego, aí reagi e vim embora. Obrigada.
De nada.
Penso que reagir será uma boa forma de diminuir episódios desses. O problema é que as meninas, em geral, não são educadas para reagir. São educadas para serem boazinhas, pacientes e caladinhas. Um grande erro! Não podemos ter mulheres submissas e combativas ao mesmo tempo. Os pais e mães não fazem ideia dos erros que cometem…
Hoje em dia, sei que há mães que põem as filhas em aulas de judo, ou de artes marciais. Acho uma boa ideia. Porque reagir e/ou defender-se também é uma questão de atitude. Temos de ter confiança em nós próprias. É o mais importante.
Só de ler isto,fiquei com o estômago embrulhado…
Mas pergunto,estes homenzinhos não têm mães? Todos saem de uma ! Respeito!!!
Fiquei mais descansada quando li que o texto relata situações sofridas por muita mulher, já estava a pensar que a garota era mesmo muito azarada. Não sei se se considera assédio quando um daqueles homens vestidos apenas com gabardine resolvem abri-la na nossa frente. Ouvi depois que era um doente e não passava da amostragem, mas assustou-me. Fora o supracitado caso, nunca fui assediada e nem notei que os rapazes andassem por ali a apalpar as meninas. Não aprecio grandemente movimentos como o me too, as coisas têm uma altura para serem ditas e serem eficazes. Verdades ao retardador são melhor que nada, servem para todos terem conhecimento do que ainda existe (não ajuizo que seja na generalidade, mas, existindo, tem que ser denunciado). Contudo, perdem oportunidade e podem constituir-se como vingança. Embora eu entenda alguns motivos e saiba que não há assim tanto tempo, tais denúncias numa esquadra, talvez fizessem rir e não tivessem efeitos práticos. Parece-me que legislação e educação concordantes podiam tentar domar os espertinhos sórdidos. Ou tratá-los, alguns – poucos – casos são doença.
Não se leia daqui que pactuo com desconsiderações que atentam contra a dignidade e o respeito que todo o ser humano merece.
Educação, é o mais importante. A mudança de mentalidades. Não ensinar, ou dar a entender aos rapazes que podem dispor das meninas. Que só são homens se o fizerem. Infelizmente, enquanto não houver essa mudança, a legislação pouco ajuda.
«as coisas têm uma altura para serem ditas e serem eficazes» – não, as coisas têm de ser marteladas e expostas. Só assim se consegue a tal mudança. Enquanto for tudo em surdina e em privado, alimenta-se a impunidade dos agressores, pois estes nada mais temem do que a exposição.
Nunca (acho) assediei quem quer que fosse, muito menos fisicamente. Se calhar houve quem se sentisse assediada. Ou assediado.
Talvez pior que ser assediada e ter medo ou vergonha é pensar que “faz parte do processo”. Será até lisonja.
Noutro registo, já me intrometi entre dois namorados (miuditos), em que o rapaz tratava carinhosamente a cara-metade. Ainda apanhei… dela. Talvez também por isso alguma da indiferença, digo eu.
Resumir os abusos sexuais a homens que abusam das mulheres é um exercicio de pura demagogia e misandria: os rapazes sempre foram abusados por homens e por mulheres; muito mais do que as raparigas. sobretudo dentro das instituições militares e religiosas. Alem disso, por razões óbvias, do foro sócio-cultural, os rapazes são muito mais estigmatizados se se queixarem de abusos por parte de mulheres e por isso calam sempre bem fundo a dor – sobretudo se forem abusados por badochas cinquentonas. O passado passado está! Haja decência! Está na hora, de uma vez por todas, de destruir a falsa percepção de que as mulheres são mais vitimas do que os homens. vitimas somos todos. Afinal, tal como Sartre dizia, o inferno são os outros. A alteridade é constantemente violentada pela conflitualidade de vontades e interesses presentes na Natureza – não é um exclusivo da humanidade nem tão-pouco (da guerra) dos sexos.
Imaginem o que seria uma sociedade completamente formatada por regras rígidas de convivialidade. Eu imagino: uma sociedade de robôs comandada por algoritmos! Sem conflitos, sem guerras, mas absolutamente desumanizada. Ser humano é ser imperfeito; é ter a capacidade de compreender, perdoar e seguir em frente. Porque ninguém é perfeito: somos todos abusadores e abusados; culpados e vitimas. Só os prepotentes e os ditadores sonham com uma sociedade perfeita
Enchi-me de coragem para aparecer a representar um largo sector das mulheres: as feias como eu. Aquelas para quem nunca nenhum homem olhou. Em nova fui a bailes e via as minhas amigas serem convidadas para dançar, serem apalpadas e beijadas (à socapa) e eu, nada. Mordia-me de inveja e apanhava cada banho de assento (as mais novas sabem o que isso é?). Nunca, nenhum homem se atirou a mim, nunca nenhum me apalpou nem beijou. E ouvia as minhas amigas contarem com orgulho os assédios (nesse tempo não existia esta palavra) por que passaram. E eu nada. Passaram muitos anos. Fiquei para Tia apesar de gostar muito de ter filhos e de gostar muito de sexo. Para mim as que nunca foram assediadas são as verdadeiras sofredoras. Hoje há muitas e variadas opiniões, a maioria, parece-me, contrariando o espírito do Maio de 68. A moral judaico-cristã? Talvez (não sou adepta).
Espero que compreendam que assine só com as iniciais.
Beijos e apalpões consentidos não são assédio e sabem bem.
Acho que está a confundir várias coisas, o seu comentário é extremamente confuso, desculpe.
Além de feia não fui dotada com muita inteligência. Eu sabia.
Também nunca fui apalpada !
Esta é sina de ser feia e pouco desejada. Tenho muitos complexos por isso e muita inveja das outras que tinham bons atributos. Eu era apenas chamada humilhantemente de Maria ossinhos.
Maria Adelina
O que mais me choca, Cristina, são as mulheres que fazem alarde de que nunca foram vítimas de assédio com a mais que evidente intenção de insinuar que só acontece a quem se põe a jeito. Fazem-no para afirmarem uma pretensa superioridade. Não percebem até que ponto esta falta de empatia as torna tão sujas como os agressores, por ser, no final de contas, uma forma de cumplicidade.
Exactamente, Teresa: cumplicidade e o prolongamento da impunidade.
” tão sujas como os agressores,” Eu sei. Sou isso.
Superioridade ou inferioridade. Conforme a mentalidade.
Numa escola onde trabalhei toda a gente era assediada. Professoras, professores, alunas e alunos. Eu fui assediado várias vezes — muitas aulas dadas no meio de sorrizinhos, piadas e avanços estapafúrdios no final da aula por parte de miúdas de toda a espécie e feitio.
Dizem que era das hormonas, eu acho que era por serem todos labregos. É isso que os labregos fazem. É por isso, aliás, que são labregos.
“Numa escola onde trabalhei”
Até o continuo( V) da escola era assediado por professoras, professores,alunos e alunas e de toda a espécie humanoide.
Que escola debochada é essa?
Rui Tavares
O director fazia assédio moral — ameaças, salários em atraso, perseguições, maus tratos. Chegavam a fazer inquéritos de satisfação cujo único intuito era juntar opiniões desagradáveis sobre um professor ou outro para os despedirem sumariamente (para o ACT não poder intervir)
As alunas assediavam os rapazes, até um desgraçado que era homossexual foi assediado por umas raparigas — e assediavam alguns professores (entre eles, eu)
Os rapazes mandavam piropos e bocas às professoras — e imagina-se às raparigas também. Alguns eram brutos e maltratavam raparigas, como viam o pai fazer em casa.
Os professores, coitados, acho que esses não assediavam ninguém — tirando um mais antigo meio palerma que tinha a mania que era um engatatão sempre com anedotas ordinárias. Alguns até eram efeminados e os miúdos dos cursos de aprendizagem faziam-lhes a vida negra, chamavam-lhes nomes e gozavam com eles até os profs se virem desfazer em lágrimas para a sala dos profs.
Vocês sabem lá o que se passa no ensino a maior parte do tempo..Só lêem teorias da treta e blogues de esquerda e depois a realidade passa-vos ao lado.
Uma vergonha libidinal !
Alunas de mini sai e rapazes de calções só podia dar nisto
Eu por acaso não era contínuo (apesar de ganhar como um)… E pelo menos tenho um nome decente.
Cara CT, não tenho dúvidas de que, aqui no DO, «Muitas vezes (lh)e dizem estar a cumprir «agenda de esquerda», com textos deste tipo» e, para lhe ser sincero, até é por isso que, sendo eu de esquerda (como já se deve ter apercebido se fixou o meu nome), muito raramente não deixo de a incentivar a “postar” muitos mais «textos deste tipo».
O “problema” não está nessa sua suposta traição porque é como diz: «esta não é uma luta de esquerda, é uma luta de todos».
Sim, é uma luta pela decência humana que, infelizmente até na maioria das vezes aqui no DO, é encarada como sendo contra a chamada “decência social” («A maior falácia, na educação das meninas*, é dizerem-lhes que nada de mal lhes acontece, se não usarem roupas provocantes e não derem nas vistas.») e julgo eu, é por isso que, muita gente decente da Direita, aqui resolve embarcar na defesa de comportamentos (menorizando-os, relativizando-os, apalhaçando-os) que, em pleno século XXI, até nem deveriam ser considerados como anti-“agendas”.
* CT, incomoda-me muito mais, a “educação dos meninos” do que a “das meninas”: é que as mães e as avós, de que fala, antes de exigirem “às meninas” que não se comportem como “galdérias”, já ensinaram aos meninos que tudo lhes é permitido (é que eles até nem engravidam!) desde que não as tragam para casa.
PS. Durante algum tempo, por razões que não pretendo abordar, decidi ausentar-me deste blogue. Quando recentemente aqui regressei, descobri com uma certa alegria que os comentários colocados, não só eram colocados por novos frequentadores mas até que, essencialmente, eles insistiam em ir contra as estafadas monótonas narrativas dos “habitués” do DO.
Para esta velha só conta os assédios de homens a mulheres, nunca diz nada sobre as pedofilias das velhas sobre crianças de 12-14 anos, como sofri de várias funcionárias públicas.
Se sofreu, solidarize-se connosco! Contra o assédio, venha de onde vier!
Também sofri as mãos de um sargento que me castigava todos os fins de semana sem poder ir a casa de castigo no quartel. O sargento ia inspecionar o meu castigo e dava-me uma palmada no rabo e dizia sempre: se queres ir a casa, tens que te portar bem. Era tudo muito sugestivo!
Em ambiente laboral (da empresa ao ensino) tudo tenho por inapropriado, do piropo ao execrável assédio.
Fora desse contexto há todo um mundo de fantasmas e idiotias a propósito de matérias que têm o seu condicionamento noutras paragens, desde a miudagem a brincar aos médicos ou
explorar abordagens até à linguagem que a educação define diferenciadamente.
Estes acidentes de percurso que estão a vir ao cimo só demonstram e alertam para o que há de miserável e de animal irracional, em cada pessoa que anda para aí e passa por humano! – são apenas indígenas canibais, infelizmente misturados com gente normal.Temos de ter os olhos bem abertos e o credo na boca, para não sermos devorados…
O mundo está uma lástima!!
Os relatos do texto são terrivelmente assustadores.
Os comentários já cobrem mais ou menos tudo o que pode ser dito sobre o tema, no entanto queria deixar aqui alguns pontos com base na minha experiência pessoal.
1 – Nunca senti que fosse um comportamento normal apalpar as raparigas na escola. Talvez um ou dois rapazes fizessem isso, os mesmos que também maltratavam de uma forma ou de outra os rapazes mais fracos. Nunca vi conivência com este tipo de comportamento por parte dos funcionários.
2 – A mulher é (em média) fisicamente mais fraca que um homem e deve ter isso em conta quando anda sozinha. Porque é um alvo. Não para todos os homens, mas para os poucos degenerados que possam existir. Tal como o facto de andar com uma nota de 500 euros na mão não nos torna um alvo para todas as pessoas, mas para os poucos ladrões com os quais nos possamos eventualmente cruzar.
3 – A mulher tem todo o direito de se vestir como bem entende e nunca poderá ser culpada pelo que lhe possa acontecer. Dito isto, e tendo em conta o ponto 1, é pouco inteligente dar nas vistas se não se consegue garantir a própria segurança (ou não pode contar com alguém que o faça). Um boné na cabeça, e um casaco largo ajudam na técnica de camuflagem mas não garantem a segurança se houver nas imediações um degenerado particularmente determinado. Tal como guardar a carteira no fundo da mochila não garante que não sejamos roubados. O risco está sempre lá e é preciso saber geri-lo.
4 – Os pontos anteriores dizem respeito a comportamentos de delinquentes. Quanto aos homens normais, penso que existia de facto uma cultura desapropriada de piropo (que me deixava muito desconfortável na adolescência) mas que agora me parece estar a desaparecer. Essa cultura deve ser combatida. Não propriamente com coimas mas com educação e censura social.
5 – Eu nunca sofri qualquer tipo de assédio no trabalho, nem nunca presenciei nenhum caso. E sempre trabalhei maioritariamente com homens por causa da minha formação profissional. Mas parece-me muito injusto dizer que os homens em geral se comportam desta ou daquela maneira. Injusto para o meu pai, para o meu marido, para o meu filho, para os meus amigos, e provavelmente para a grande generalidade dos homens.
“Na escola todos os rapazes apalpavam as maminhas e os rabos e os genitais de todas as raparigas e levantavam-lhes a saia.” Mas em que raio de escola era isto? Andei, nos anos setenta, numa escola industrial, onde os frequentadores eram das classes menos privilegiadas, numa turma mista. Nunca vi uma falta de respeito a colega alguma.
Estas escolas deviam ser investigadas!
Os rapazes só tem sexo na cabeça…muito estranho.