PASSAR AO LADO DE UM GRANDE FILME
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Jorge VI, pai da actual Rainha Isabel II, era um homem introvertido e ensimesmado, que nunca sonhou ser monarca. A sucessão do rei-imperador Jorge V, neto da rainha Vitória, estava garantida para o filho mais velho, David, que viria a adoptar o nome de Eduardo VIII ao subir ao trono, em Janeiro de 1936. Eram tempos difíceis, para Inglaterra e para o mundo. Mussolini ocupara a Abissínia, Hitler preparava-se para marchar em direcção a Viena, as tropas de Franco não tardariam a revoltar-se contra o governo da Frente Popular em Madrid, dando início à mais sangrenta guerra civil de que há memória em território europeu.
Eduardo VIII e o duque de York – que se chamava Alberto mas viria a escolher o nome de Jorge VI ao tornar-se rei – eram dois irmãos muito unidos. Mas de feitios opostos: o primeiro, extrovertido e frívolo, adorava aparecer nas colunas sociais; o segundo era de uma timidez desconcertante, agravada pelo facto de ser gago. Falar em público, para ele, constituía um pesadelo.
O maior pecado de Eduardo – e que acabaria por lhe custar o trono – era a sua notória atracção pela Alemanha nazi. Uma conspiração da classe política britânica – com o primeiro-ministro conservador Stanley Baldwin à cabeça – forçou-o a renunciar ao trono. E ele assim o fez, numa dramática alocução radiofónica aos súbditos, em Dezembro de 1936. Pretexto invocado: a sua anunciada intenção de casar-se – aos 42 anos – com uma americana divorciada, Wallis Simpson, algo reprovável para os costumes da época. Mas o dilema mais fundo, neste drama de bastidores, era o Reino Unido vir a ter um monarca amigo de Adolf Hitler em vésperas da eclosão de uma guerra mundial. Jorge VI, portanto, subiu a um trono que jamais desejou e Eduardo VIII rumou a um exílio perpétuo. Os dois irmãos, que tanto se estimavam, praticamente nunca mais se viram.
Tom Hooper tinha aqui material para um excelente filme. Infelizmente, desperdiçou todas estas pistas ao assinar uma longa-metragem reverente, pomposa, académica e previsível, centrada no exercício de virtuosismo de dois grandes actores – o britânico Colin Firth e o australiano Geoffrey Rush, já galardoado em 1996 com o Óscar de melhor actor pelo seu desempenho em Simplesmente Genial. O Discurso do Rei, galardoado com o Óscar de melhor filme de 2010, centra-se na gaguez de Jorge VI e nos esforços que fez para se curar. Tema interessante mas que não justifica os 113 minutos de duração do filme: a história poderia ser contada com mais eficácia em apenas hora e meia. Mas imperdoável é mesmo esta sensação de que o realizador passou ao lado de um grande filme com o material temático de que dispunha: dois irmãos, ambos reis, separados por preconceitos morais e pelas primeiras nuvens negras de uma tempestade política sem precedentes na história humana. Que um deles fosse gago, para o caso, é um pormenor quase irrelevante.
O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010). De Tom Hooper. Com Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Derek Jacobi


Subscrevo, se me permites, Pedro.
E assim se desperdiçou a oportunidade de fazer um grande filme.
Pensei o mesmo quando estava a sair da sala de cinema, Sérgio. Talvez pelo facto de as minhas expectativas serem altas a frustração foi maior. Pouca história para tanta metragem.
Sempre me cheirou que o argumento não soube usar a gaguez real como pretexto e utilizar um contexto muito interessante da História contemporânea que pudesse enriquecer o filme, o que é pena. Já a nossa Teresa o confirmara isso mesmo aqui há poucos dias e agora fico com qualquer réstea de dúvida totalmente dissipada.
Os dois actores principais são excelentes. Mas há pouca espessura dramática neste filme que promete bastante mais do que dá. A figura de Eduardo VIII, aqui reduzida a uma breve caricatura, é um dos pontos fracos deste ‘Discurso do Rei’.
Tendo a concordar, Pedro. Por mim, confesso que só vejo mesmo o Colin Firth (debilidades).
Contudo, sejamos meridianos:
http://networkedblogs.com/eUC3e
“O Discurso do Rei” não é um grande filme. Mas é, sobretudo, um filme exemplar sobre a mais rara das virtudes: a virtude da resiliência.
Sobre a resistência à adversidade, a capacidade de resistência e a admirável solidez dos laços humanos há outro filme em cartaz muito mais recomendável, Laura: ‘O Último Round’, de David O. Russell.
Já registei, vou ver se apanho isso.
Espero que goste, Laura.
Para além das fabulosas interpretações (ambos mereciam um Óscar) também não o achei um filme inesquecível. Mas também não acho que seja só uma visão cirúrgica de um problema de expressão, dramático em alguém que tem de expor-se publicamente e é, além de gago, extremamente tímido. É também a história de uma amizade insólita, porque igualitária, entre um rei e um excêntrico professor que recusa a reverência, porque sabe que só uma aproximação emocional pode ajudar o seu aluno. E das barreiras psicológicas que o primeiro tem de vencer para assumir essa amizade, afogado em traumas e preconceitos de classe. E da grandeza do segundo em passar por cima das humilhações e arriscar sempre. E da nobreza de carácter de ambos. E da influência fulcral de uma mulher de armas apaixonada.
Se vires mais de perto, afinal de contas, o filme é muito mais do que a história de uma gaguez.
Percebo o teu ponto de vista, Ana. Mas para um filme que dura quase duas horas achei frustrante ver todas as personagens apenas em esboço ou simplesmente caricaturais.
Nisso dou-te razão. Mas a caricatura implacável do rei que abandona as suas responsabilidades para com o seu país por uma americana divorciada, ainda por cima numa época tremenda, não é inocente. Os ingleses nunca lhe perdoaram a traição (as várias traições, aliás, tendo em conta a simpatia por Hitler) embora tenham vibrado a princípio com a história de amor.
Pois é, este filme tinha mesmo tudo para me enredar, porque para além do Colin Firth , confesso que sempre tive muita admiração por Jorge VI: ele é, aliás, um dos exemplos “de escola” acerca da capacidade de resposta do regime monárquico às pretensas limitações da sucessão hereditária (no caso, à regra da primogenitura).
Contrariamente ao que o Pedro diz, acho que o “flash” rápido que o filme faz sobre Eduardo VIII está, simplesmente brilhante. E a aparição da Simpson? Igualmente gerida com mestria absoluta.
Hooper dá cartas no retrato psicológico e não é por acaso que o que quer que seja acontece no filme, até ao mais ínfimo detalhe.
Aliás, é verdade… basta dizer que ele fez aquela mini-série fantástica sobre John Adams : e com isto, para quem viu, não é preciso dizer mais.