Estrelas de cinema (28)


Pedro Correia,

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PRISIONEIRO DA FAMA

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Certos realizadores alcançam merecida celebridade com um só filme e ficam a partir daí reféns desse êxito, tornando-se incapazes de conseguir uma obra ao nível da inicial. É o que parece estar a acontecer com o alemão Florian Henckel von Donnersmarck, autor de uma das melhores longas-metragens deste século, o incomparável A Vida dos Outros, centrado na sinistra omnipresença da polícia política no quotidiano totalitário da antiga República “Democrática” Alemã.

Depois daquele filme que lhe rendeu o Óscar de 2006 para melhor película não falada em inglês, Von Donnersmarck esteve quatro anos sem trabalhar, rompendo o silêncio com uma indigente fita de pseudo-acção intitulada O Turista, que se resumia a uma colecção de trepidantes bilhetes-postais com Angelina Jolie em pose permanente para capa de revista. Seguiu-se um intervalo ainda maior: regressa agora, oito anos depois, com um thriller psicológico que nos faz regressar novamente a tempos sinistros – iniciados em 1937, no apogeu do nazismo, em Dresden, arrasada pela aviação aliada em 1945; depois entre as ruínas desta cidade que lentamente se ergueu das cinzas, sob o domínio soviético. Tanto os esbirros de Hitler como os de Estaline condenavam a “arte degenerada” que seduzia Kurt Barnert, jovem candidato a pintor. Em 1961, poucas semanas antes de ter sido levantado o Muro de Berlim, Kurt consegue enfim fugir para a Alemanha Ocidental e estudar fora dos cânones do “realismo socialista”, na libérrima academia de Düsseldorf.

Filme bem-sucedido? Não: um filme falhado. Prisioneiro da fama, o realizador comporta-se como um daqueles cozinheiros com falta de noção das proporções, que acabam de meter demasiados ingredientes na panela, pecando por excesso e condenando os comensais à obesidade. Nestas três horas de exibição caberiam três filmes: o primeiro, e mais interessante, desenrolado na Alemanha hitleriana, centrado na relação entre o pequeno Kurt e a sua tia antinazi (papel desempenhado pela deslumbrante Saskia Rosendahl); o segundo, com interesse mediano, em que o vemos atingir a maioridade nos anos de chumbo da ocupação soviética, tendo por sogro um sinistro médico do III Reich convertido ao comunismo; o terceiro, manifestamente falhado, já em solo livre, entre 1961 e 1966.

Desta amálgama resulta uma evidência: Von Donnersmarck foi incapaz de de editar o seu próprio filme, eliminando as cenas redundantes e desnecessárias. Sentiu talvez que teria entre mãos algo equivalente a um épico – e a verdade é que alcançou nomeações para o Globo de Ouro e o Óscar de Hollywood em língua não-inglesa. Mas Nunca Deixes de Olhar está muito longe de ser um novo Doutor Jivago – e não é David Lean quem quer.

Uma referência ainda ao medíocre título português, inspirado no da versão norte-americana (“Never Look Away”). Nada a ver com “Werk ohne Autor”, título de origem, que deveria ter sido traduzido por “Obra Sem Autor”.

 

 

Nunca Deixes de Olhar. Título original: Werk ohne Autor. Produção alemã (2018). De Florian Henckel von Donnersmarck. Com Tom Schilling, Sebastian Koch, Paula Beer, Saskia Rosendahl, Oliver Masucci, Cai Cohrs, Ina Weisse.

Duração: 189 minutos.

0 comentários em “Estrelas de cinema (28)”

  1. Pelo que mostrou, e descontando o que li, até me parece ser um dos filmes de que gosto. Outro filme de que gostei bastante foi sunshine (suponho) e conta a história de três gerações dentro da mesma família, guerras pelo meio. Sunshine suponho que era o nome de um vinho ou alguma coisa que a família produziu e a levou ao sucesso.

    1. Esse filme que menciona já é de 2006: ‘Little Miss Sunshine’, realizado por Jonathan Dayton e Valerie Faris.
      Um filme que em português se chamou ‘Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos’. Muito bom. Proporcionou o Óscar de melhor actor secundário ao veterano Alan Arkin. Com inteira justiça.

  2. Gosto muito de filmes indies, feitos com orçamentos caseiros. Coherence, The Endless, Primer, The Babadook, The Blair Witch Project, por aí. São todos primeiros filmes. O segundo é mais complicado. Há directores que não se dão bem com grandes orçamentos. Patty Jenkins conseguiu saltar do Monster para o Wonder Woman, nem todos conseguem. Ainda não vi A Vida Dos Outros, mas é geralmente bem considerado. E agora fiquei curioso.

      1. Ahahah já nem me lembrava desse magnífico corolário — dessa luz preta no vazio mais escuro — para fechar a minha tese numa bola de certeza.

    1. A Angelina Jolie fez o “The Tourist”, sim, mas também fez dois filmes que estão muito longe de ser irrelevantes: “Changeling” e “Girl, Interrupted”. Este deu-lhe um Óscar muito merecido.

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