
O SONHO E O PESADELO
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“O mito é o nada que é tudo.” O verso de Fernando Pessoa podia servir de epígrafe a este filme focado na jovem viúva do malogrado 35.º Presidente norte-americano que contorna todos os lugares-comuns relacionados com o magnicídio de Dallas. Já vimos mil imagens alusivas ao drama, mas muito poucas concentradas na dama – de algum modo é quase como se estivéssemos a vê-las pela primeira vez nesta notável realização do chileno Pablo Larraín.
Jackie, como o nome indica, coloca por inteiro Jacqueline Lee Bouvier Kennedy no cerne da acção, desenrolada em Novembro e Dezembro de 1963, da antevéspera do crime às semanas que se seguiram aos disparos fatais de Lee Oswald na Praça Dealey.
O inquilino da Casa Branca surge aqui como mero figurante: só Jackie interessa como ponto fulcral da dramaturgia, enquanto edificadora do mito post mortem que perdurará por gerações. Este é um dos aspectos raramente realçados a propósito do casal Kennedy, que ocupou a Casa Branca durante pouco mais de mil dias: John não teria passado à história tal como o recordamos sem a laboriosa construção da sua imagem levada à prática por Jackie – primeiro por instinto, depois por decisão deliberada.
O mito nascia logo ali, em Dallas, naquele vestido manchado de sangue que ela recusou trocar durante todo o dia. Prolongava-se nas solenes exéquias de Estado, que fez decalcar do funeral de Lincoln, e na escolha do cemitério militar de Arlington para a deposição dos restos fúnebres do Presidente. E culminava na entrevista concedida dias depois por Jackie ao jornalista Theodore White, da revista Life, em que surgiu a primeira alusão ao musical Camelot, comparando a presidência Kennedy à lendária corte do Rei Artur, “momento fugaz e radioso” que alargou as fronteiras do sonho americano, dando-lhe projecção universal.
![jackie[1].jpg jackie[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2017/20257105_5y9Yw.jpeg)
O rosto magoado de Jacqueline Kennedy – num prodigioso trabalho de composição dramática que ficará como marco na carreira de Natalie Portman – acompanha-nos ao longo de todo o filme, de modo obsessivo e quase compulsivo, com a câmara ficcional autorizada enfim a desvendar o lado oculto da jovem primeira dama, sempre tão ciosa da sua intimidade.
Partilhando a dor mais íntima com o mundo, talvez por ser a única forma de suportar tal fardo, Jackie – com a vida virada do avesso aos 34 anos, mãe de dois órfãos de tenra idade – contribuiu para transformar a tragédia em epopeia e dar aos Estados Unidos um dos seus mártires mais perduráveis. Evitando assim que do mandato de Kennedy ressaltasse a desoladora memória de uma ruína.
Acontece que um filme é também a sua circunstância: esta obra de Larraín ganha novo significado neste instante preciso em que os EUA, traindo o melhor da sua história, cedem aos ventos da irracionalidade e anunciam que vão fechar-se ao mundo. Invertendo a Nova Fronteira de John Kennedy que conduziu o homem à superfície lunar.
Camelot, senha de um sonho, brilha por contraste de forma ainda mais intensa em tempos de pesadelo.
Jackie (2016). De Pablo Larraín. Com Natalie Portman, Billy Crudup, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, John Hurt, Richard E. Grant, Caspar Phillipson, John Carroll Lynch.

“…traindo o melhor da sua história, cedem aos ventos da irracionalidade e anunciam que vão fechar-se ao mundo.”
As leis da imigração no tempo de Kennedy eram violadas pelo próprio poder executivo e pelo Partido Democrata?
Kennedy abriu as portas da imigração, ainda enquanto senador. Os açorianos que o digam: após a erupção dos Capelinhos, que arrasou parte da ilha do Faial, Kennedy levou ao Congresso a chamada Azorean Refugee Act que permitiu a milhares de açorianos refazerem a vida nos EUA. dy-abriu-portas-a-emigracao-de-175-mil-a corianos-para-os-eua
https://sol.sapo.pt/artigo/115732/kenne
O oposto da América actual, que se fecha ao mundo.
Caro Pedro:
Não me diga que não sabia que o Kennedy era socialista?
E parece que também marxista.
Pois, Manuel. Era milirxista – misto de milionário e marxista.
(agora a sério: tenho de avisar certos leitores do DELITO, de esquerda e de direita, que a Guerra Fria já terminou há quase 30 anos; ainda não perceberam isso)
Agora com isto do terrorismo e do Trump/Putin/Kim Jon qualquer coisa II, ou III, diria que passámos de fria, a temperada. Cooperação internacional é a chave e não isolacionismos (isso era antes de haver globalização)
em suma, um comunel — um comuna com muita pastel
E então?
Imigração Legal processo que os Estado Unidos continuam a ter para quem se candidata. Numa altura em que as leis da imigração eram respeitadas pelo Poder é possível ao Poder abrir as fronteiras numa emergência.
Mas desde há 2 décadas que o Complexo Politico-Jornalista promove a desobediência das Leis que são inconvenientes à sua ideologia dominante.
Não me admira nada que esteja do lado da manipulação do discurso. Aliás o seu objectivo foi sempre estar onde está a Overton Window.
Trump assina por baixo: Evs
https://www.youtube.com/watch?v=m3yesvvY
Aqui fica a minha sugestão!
“anda de maneira diferente, e tenta esquecer tudo!”
https://www.youtube.com/watch?v=6TTizmpo a-U
Esse não vi.
Moonlight.
Vou vê-lo sexta feira, com o meu cachopo, a ver se aprende alguma coisa
que do mandato de Kennedy ressaltasse a desoladora memória de uma ruína
Do mandato de Kennedy ressalta efetivamente a desoladora memória da ruína a que ele tentou reduzir o Vietname. Foi o presidente que alargou dramaticamente o âmbito da guerra.
O Paracetamol alivia-me da febre, embora fique com as fezes pastosas, mas nem por isso deixa de ser um medicamento “bom”. Tudo é “bom” se a relação beneficio/prejuízo for acima de zero
“Camelot brilha” é construção do jornalismo engajado…
É bem mais sórdido https://en.wikipedia.org/wiki/Mimi_Alfor d
E o Winston gostava de Uísque…
http://www.telegraph.co.uk/news/winston-c hurchill/11374144/How-to-drink-like-Wins ton-Churchill.html
….e então?
E Hitler não bebia álcool…preferia injeções de vitaminas e legumes cozidos…um vegan….
e então?